Todas as idades, todos os grupos, todas as palavras de ordem

A Geração à Rasca gritou contra a precariedade. E a ela juntaram-se pessoas de todas as idades. Não se pode ficar por aqui, ouviu-se. "Só se os políticos forem surdos"

Isabel, Inês e Luís vestiram uma t-shirt igual com a idade de cada um nas costas: 49, 24, 35. Na parte da frente, escreveram: "Várias gerações, uma só luta." Isabel é a mãe, secretária desempregada. Inês, a filha licenciada em línguas que se tornou administrativa - vive com a mãe e ajuda a pagar as contas. Luís, o namorado que esteve sete anos em Espanha a trabalhar e agora "está à experiência" a ver se lhe dão contrato. Esta é uma família símbolo das manifestações que ontem aconteceram em 11 cidades do país.

À rua saíram os da Geração à Rasca, mas também os pais, os avós, os tios e os irmãos mais novos. Foi o protesto de "um país à rasca", lia-se numa das centenas de cartazes em Lisboa e no Porto.

A direcção nacional da PSP não quis fornecer números oficiais. João Labrincha, um dos quatro jovens que convocaram o protesto no Facebook, falava em 300 mil na capital - "A maior manifestação de sempre." Uma fonte da polícia apontava para menos de 150 mil. No Porto, nos últimos anos, só o Papa Bento XVI terá conseguido meter tanta gente na Avenida dos Aliados. A PSP falava em 50 mil, a organização em 80 mil. Ninguém esperava tanto. A polícia até teve de avançar para o plano B. Em vez de encaminhar a multidão da Praça da Batalha para a Praça de D. João I, encaminhou-a para a Avenida dos Aliados, a maior "sala de visitas" da cidade.

O grupo musical humorístico Homens da Luta foi o fio condutor da manifestação de Lisboa, acompanhando todo o percurso da Avenida da Liberdade ao Rossio em cima de uma camioneta de caixa aberta onde seguiram, além dos vocalistas Jel e Falâncio, a figura do militar do MFA com brinco na orelha a tocar viola baixo e a camponesa a tocar concertina. Ao palco itinerante subiram nomes como Fernando Tordo e Vitorino. Ouviram-se canções de Abril - as originais, como o Grândola, Vila Morena, e adaptações humorísticas. "E o povo, pá?" foi um dos versos mais repetidos. Ao som desta banda sonora, frases do pós-Revolução alastraram como um código partilhado, tornando os diálogos numa espécie de regresso ao passado em tom de paródia. "Os camaradas? Onde é que estão os camaradas?", perguntava ao pai Carolina Nazaré, de 10 anos.

Mas ao longo do desfile também se ouviu rap, reggae, gaitas-de-foles, música electrónica e dos filmes de Emir Kusturica. José da Costa Ferreira, de 80 anos, era dos mais entusiastas. Simpatizante do Partido Comunista, dizia que não se lembrava de ter faltado a uma manifestação do 1.º de Maio. Ontem, a rodopiar sobre si mesmo com uma Constituição e um cravo vermelho, dizia-se "muito contente" - "Isto é uma massa de solidariedade que me toca no coração."

The best system

Foi o protesto de todas as canções e também de todos os grupos. Em Lisboa, houve gente com faixas ou bandeiras de sindicatos e movimentos vários. Houve anarquistas a pedir "espalhem a anarquia" e nacionalistas de cabeça rapada, vestidos de negro. "Estamos de luto por Portugal", explicava um dos muitos que não quiseram identificar-se. E houve grupos sem nome. Muitos. Sobretudo grupos de amigos que puxaram pela imaginação para ir à rua pedir uma mudança - de vida, de sistema económico, laboral, de justiça ("The best system is sound system", alguém escreveu ironicamente numa grande cartolina). "Venho com um nariz de palhaço porque foi assim que o Sócrates me fez sentir", contava Irina, de 28 anos, supervisora num call center, licenciada em Turismo. Momentos antes, um grupo de mulheres com vassouras aplaudia uma banda que passava a tocar. "Porquê vassouras? Porque este país precisa de uma limpeza", explicava Isabel, "dona de casa". "Tenho 56 anos, sou mãe e os meus filhos licenciados têm trabalhos precários e continuam a precisar da minha ajuda."

Pedro, de 24 anos, jornalista, nunca tinha agarrado num megafone para liderar um grupo, quanto mais uma multidão. Mas ontem foi isso que fez durante horas, em Lisboa, mesmo à cabeça da marcha. Gritava os slogans que tinha preparado antes: "Deixa passar/deixa passar/eu sou precário e o mundo vou mudar." E os milhares que o seguiam repetiam. Novos e velhos, faria questão de sublinhar. "As pessoas identificaram-se com este protesto. Há pessoas de 50 anos a serem eliminadas pelas empresas para serem substituídas por jovens que são mais baratos e que ficam em situação precária."

O Porto afinava pelo mesmo tom. Quando os primeiros meteram os pés nos Aliados, ainda havia alguns na Praça da Batalha. Nem uma bandeira partidária se avistava. Por todo o lado, folhas brancas e papelões transformados em cartazes: "Não somos meninos mimalhos, lutamos por nós; Precários nos querem, rebeldes nos terão; Não temos pasta, estamos à rasca; Queremos um futuro... hoje; Não nos mandem embora, este país também é nosso".

O cartaz idealizado por José Ferreira parecia fazer a síntese: "Novos e usados sempre à rasca." Aos 58 anos, está na pré-reforma da indústria petrolífera. Viera "em representação da filha", licenciada em Ciências da Informação, a fazer mestrado - "enquanto não arranja trabalho". A rapariga, de 23 anos, ficara em casa a cuidar do sobrinho.

Aliviar a frustração

Mas ali também sobressaíam famílias quase completas. Como esta. Na t-shirt da mãe, Amélia, de 48 anos: "A minha filha está à rasca." Na da filha Raquel, de 22 anos: "Eu sou filha dela e estou mesmo à rasca." Na da filha Mafalda, de 19 anos: "Eu não quero ficar à rasca." Na da sobrinha, Maria José, de 36 anos: "Tenho cinco empregos e continuo à rasca." Raquel é que quis unir a família pelas mensagens escritas, a marcador preto, nas t-shirts brancas. O pai está a trabalhar: "Trabalhou dos 12 aos 42 anos numa metalurgia que fechou. Agora anda a carregar frigoríficos. Um homem de 48 anos a trabalhar 12 horas por dia por 485 euros!" A mãe é empregada doméstica: "Trabalha há 20 anos e ganha o mesmo!" A família faz um grande esforço para ela seguir o seu sonho. E ela, que estuda artes digitais e multimédia, não deposita grandes esperanças no futuro. "O mais provável é ir para fora daqui a dois anos."

No início e no fim da marcha, muitos queriam discursar. Cristina Andrade, de 34 anos, até ficou com a mão a tremer de tanto lhes segurar no microfone. E, nos Aliados, no Porto, teve, diversas vezes, de pedir que falassem pouco tempo, ela que na véspera estava preocupada com a possibilidade de ninguém querer dirigir-se à multidão. Quem, como ela, andou a distribuir panfletos não se espantava com o que via. A vontade de discursar era tanta que ela teve de se apressar a fechar as inscrições. De vez em quando, ouvia-se: "O povo unido jamais será vencido". E agora? "Isto é um grito pela democracia", comentava Sofia Gomes, de 27 anos, mestre em Direito, desempregada. "É impossível que um protesto destes não tenha consequências." Cristina Andrade também acha: "Só se os políticos forem surdos." Com Marta Pais Oliveira