Luís Vasconcelos Os fotojornalistas estão a in? tervir na sociedade

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Estão abertas as candidaturas ao Prémio de Fotojornalismo Estação Imagem/Mora 2011. O fundador da associação Estação Imagem dá novo fôlego ao fotojornalismo português: é preciso ouvir e olhar os outros para que as imagens os toquem.

Como é que nasceu o projecto Estação Imagem?

A estação de comboios [de Mora] estava desactivada, e ninguém sabia muito bem o que fazer com ela, e eu já queria fazer qualquer coisa que fosse sobretudo dirigida a fotojornalistas. Fui fotojornalista durante trinta e muitos anos. Sabia que não havia nenhuma estrutura que se ocupasse dos fotojornalistas. E tudo evoluiu no sentido de criar a [associação] Estação Imagem. Queremos recuperar a estação de comboios como local de trabalho quotidiano. Vamos ter salas de aulas, de projecções, uma zona para impressão digital. O [espaço do] armazém será para exposições. E ainda queremos construir um bloco com arquivo, estúdio, e laboratório a preto e branco. O que fizemos até agora tem sido possível com o apoio da Câmara Municipal de Mora. Precisamos de encontrar outras formas de financiamento, o que é complicado, dada a crise económica.

Por que é que acha que não há mais actividades de fotojornalismo em Portugal?

Porque as pessoas, em geral, estão pouco atentas. Os fotojornalistas são, na fotografia, o grupo que tem mais responsabilidade do ponto de vista social. Publica-se uma fotografia, seja em que jornal for e seja sobre que tema for, e, no dia a seguir, 100 mil pessoas viram a fotografia. A imagem que os fotojornalistas produzem é muito vista e, como é muito vista, tem de se ter cuidado com ela. Mas não há essa noção. Em vez disso, uma pessoa passa pela imagem e segue em frente.

Se calhar porque há tantas imagens, e é tão fácil fazer imagens. Talvez haja uma banalização da imagem.

Banalização da imagem, no fundo, sempre houve. E a banalização da imagem não retira importância ao trabalho dos fotojornalistas. Aliás, basta ver o resultado do nosso prémio do ano passado [em exposição no Centro Português de Fotografia, no Porto, até 13 de Março], para sentir que os fotojornalistas estão presentes, estão a pensar no que fazem e a intervir na sociedade. Em Portugal, o fotojornalismo perdeu a importância que teve a dada altura. O início do projecto do jornal PÚBLICO teve um impacto muito grande. O PÚBLICO tinha no seu Livro de Estilo uma parte dedicada à fotografia, e a fotografia deixava de ser a cereja no topo do bolo para passar a fazer parte dos conteúdos jornalísticos. E havia espaço para publicar. Da mesma forma que os jornalistas que escrevem, o que é que nós fazemos? Contamos histórias. Isso obriga a ter espaço. Não se contam histórias com uma única fotografia. E esse espaço, hoje, existe muito menos.

Como é que surgiu o Prémio de Fotojornalismo Estação Imagem?

A Visão deixou de organizar o Prémio de Fotojornalismo e começámos a receber inputs de colegas a dizer que nós devíamos organizar um prémio. Decidimos que o nosso prémio não seria para a fotografia individualizada, mas um prémio de histórias. Também instituímos uma bolsa que permite a um fotojornalista desenvolver um projecto durante um ano no Alentejo, que é a nossa zona de intervenção.

O Alentejo tem uma paisagem muito particular. É especialmente fotográfico?

Tudo é especialmente fotográfico, mas sim, acho que o Alentejo é especialmente fotográfico. E não é só a paisagem, são também as pessoas.

No website da Estação Imagem há um link para uma discussão no Facebook com o título "Estaremos no fim do caminho?". O fotojornalismo não está no fim do caminho?

O fotojornalismo não está morto de maneira nenhuma. Não é por haver iPods e as pessoas hoje terem todas muitos megapixeis nas máquinas para fazerem imagens que aprendem a contar as histórias. É preciso ser jornalista. É preciso aprender a ouvir os outros, a olhar os outros, estar imbuído de compaixão em relação aos outros, porque se não, não se consegue chegar a tocar quem vê as nossas imagens.

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