E se o canal de Suez encerrasse?

A revolta popular no Egipto não chegou a ameaçar o canal de Suez. Mas o risco de o movimento alastrar e levar ao encerramento do canal provocou imediatamente uma subida do preço do petróleo. Foi um falso alarme, mas qualquer ameaça ao canal "enerva os mercados".

Curiosamente, o maior impacto não diz respeito ao petróleo: pelo Suez apenas transitam quatro por cento das exportações mundiais. É hoje muito mais importante para outras mercadorias, a começar pelos produtos alimentares. Aqui, o efeito nos preços seria drástico, anotou The Economist.

O canal tem uma longa história, que ilustra a obsessão de ligar o Mediterrâneo ao mar Vermelho. A sua primitiva versão, uma via aquática ligando o Nilo ao mar Vermelho através dos lagos, foi construída pelos faraós 19 séculos antes da nossa era. Teve importância vital no Império Romano. Desapareceu definitivamente no século VII.

O desígnio de ligar o Atlântico e o Índico através daqueles dois mares foi alimentado desde Napoleão. A abertura de um canal de 164 quilómetros no istmo de Suez concretizou-se em 1869, graças à obstinação do diplomata francês Ferdinand de Lesseps, fundador da Companhia Universal do Canal de Suez. Revolucionou o comércio internacional.

O canal foi cortado duas vezes. A primeira, por quatro meses, após a sua nacionalização pelo Egipto, em 1956. Ingleses, franceses e israelitas ocuparam o Suez. A expedição foi um fiasco e marcou o fim do imperialismo europeu, abandonado pelos Estados Unidos.

A Guerra dos Seis Dias de 1967, entre Israel e o Egipto e seus aliados árabes, levou a novo encerramento, desta vez até 1975. Provocou elevado prejuízo aos países europeus e, naturalmente, ao Egipto. O tráfego do petróleo foi desviado para a rota do Cabo, através de superpetroleiros.

A causa da "choque petrolífero" de 1973 foi política. Uma nova guerra israelo-árabe, a do Yom Kippur, levou a um embargo do petróleo árabe ao Ocidente, pelo seu apoio a Israel. Depois, a OPEP fez uma escalada no preço do crude, que quadruplicou nos últimos quatro meses de 1973.

O Suez perdeu importância em relação ao petróleo, podendo ser rapidamente substituído pelos oleodutos existentes. Mas tornou-se vital para outras mercadorias: cerca de 40 por cento dos produtos que por lá transitam provêm da China e da Índia.

É uma das grandes vias do comércio na era da globalização e, por isso, de incalculável valor estratégico. Do canal depende também o Egipto, que dele retirou em 2007 uma receita superior a quatro mil milhões de dólares. Jorge Almeida Fernandes