Zeitgeist Eles querem uma economia sem dinheiro

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Com 19 anos, Miguel Oliveira é o coordenador nacional do Zeitgeist; adora trabalhar em publicidade, mas sabe que a sua profissão desapareceria num mundo sem dinheiro corbis/vmi

Defendem o fim da economia monetária, mas rejeitam qualquer etiqueta política. Querem uma sociedade futurista, sem dívida, escassez, pobreza ou guerra, dizem não ser utópicos. Mais de meio milhão de pessoas em todo o mundo (e 6000 em Portugal) estão com o movimento Zeitgeist. O sistema vai cair, mais tarde ou mais cedo, prevêem, e há que preparar a transição. No entanto, os seus ideais não são aceites pacificamente.

Aos 16 anos, Rolando Cardoso era activista político pelo Partido Comunista Português. Mais tarde, fez voluntariado, distribuindo comida aos sem-abrigo durante dois anos. Em ambos os casos, saiu desiludido. As ideias eram bonitas, mas não resolviam os problemas de fundo. Enquanto fazia o curso de Direito à noite, foi trabalhar para um banco. Começou a atender telefones e, ao fim de cinco anos, já estava atrás de um balcão, efectivo. Só que não compreendia o sistema, não compreendia "como era possível fazer lucros com base em pura especulação, apenas a comprar e vender acções". Demitiu-se. Os amigos chamaram-no "maluco". Mas Rolando Cardoso, hoje com 33 anos, acabou por encontrar a sua visão do mundo no movimento Zeitgeist. Hoje, partilha-a com mais de meio milhão de pessoas em todo o mundo.

Criado em Dezembro de 2008, o movimento Zeitgeist (termo alemão que significa o "espírito do tempo") defende que a economia monetária tem de acabar e que devemos transitar para uma economia baseada em recursos, alicerçada no método científico e na tecnologia. Assume-se como uma alternativa para o futuro da humanidade, que não reconhece Estados, etnias, religiões ou classes sociais, e em que não há salários ou contas bancárias. Na base, a ideia de que o actual sistema monetário promove a escassez, o que por sua vez gera guerras, desigualdades, criminalidade e destruição ambiental. Mais tarde ou mais cedo, defendem, o sistema vai entrar em colapso, tornando-se vítima das suas próprias contradições.

Apesar de polémicas, as ideias do Zeitgeist estão a espalhar-se como um rastilho de pólvora bem aceso num mundo que, nos últimos três anos, atravessou a mais grave crise financeira e económica de sempre e ainda vive em sobressalto, atormentado com a crise da dívida europeia. A nível mundial, o movimento tem cerca de meio milhão de membros e, em Portugal, há mais de 6000 apoiantes. Há cerca de um mês, o movimento lançou um novo documentário, Zeitgeist Moving Forward, o terceiro depois de Zeitgeist Addendum e Zeitgeist, the Movie, que foram vistos por mais de 50 milhões de pessoas a nível mundial. O novo filme, que fala de psicologia, sociologia e economia, foi lançado simultaneamente em mais de 60 países e 20 línguas.

Para o sociólogo Elísio Estanque, o fenómeno gerado em torno deste movimento não é alheio ao actual contexto de crise e crescente descontentamento social. Apesar de o professor da Faculdade de Economia de Coimbra não considerar realistas as alternativas propostas pelo Zeitgeist, "a rápida e impressionante adesão que têm colhido por todo o mundo, em especial por parte da juventude escolarizada e universitária", pode vir a ser o motor de uma mudança. E obrigar "os poderes políticos a reinventarem-se, de modo a que a desregulação económica e o poder descontrolado dos mercados e da alta finança passem a ser objecto de mais apertada regulação e controlo, em favor de maior coesão e justiça social".

Miguel Oliveira, de 19 anos (mais conhecido pelo pseudónimo Darr), é o coordenador nacional do Zeitgeist em Portugal. Trabalha numa empresa de publicidade e, nos tempos livres, a sua responsabilidade é gerir, a partir do Porto, as actividades do movimento e coordenar uma equipa de cerca de 70 pessoas a nível nacional. Todas as segundas-feiras há uma reunião às 22h30 entre os membros activos do movimento em Portugal.

Tal como acontece com as reuniões internacionais, que decorrem de duas em duas semanas, os encontros nacionais realizam-se através do Team Speak, um programa de conversação e voz gratuito na Internet. Nas reuniões internacionais, estão normalmente presentes mais de cem pessoas, entre as quais Peter Joseph, o cineasta norte-americano que produziu os documentários Zeitgeist e fundou o movime