Indecisão europeia eleva juros da dívida a cinco anos acima da barreira de sete por cento

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Merkel está a liderar as negociações para resolução da crise da dívida BERTHOLD STADLER/AFP

Governo volta a atribuir a pressão dos mercados à falta de uma resposta europeia. Em Bruxelas, fala-se de um resgate já em Abril

Sem sinal de avanço na resolução da crise da dívida do euro, os mercados voltaram ontem a pressionar os países mais frágeis e, nomeadamente, Portugal. As taxas de juro das obrigações do tesouro a cinco anos atingiram um novo recorde acima de sete por cento, juntando-se aos juros da dívida a dez anos, que teimam em não descer dos 7,4 por cento. Os rumores de que Portugal seja obrigado a seguir o caminho da Grécia e da Irlanda, recorrendo ao fundo de resgate europeu, são cada vez maiores.

A agência Reuters avançava ontem de que os líderes europeus estão cada vez mais desconfiados de que Portugal não seja capaz de financiar-se nos mercados, apontando como cenário mais provável um resgate já em Abril. Em todo o caso, a União Europeia (UE) já terá delineado o pacote de ajuda. Basta apenas que o Governo português peça a sua activação.

"Portugal está a afundar. Não será capaz de se aguentar após o final de Março", garantiu fonte europeia à Reuters, acrescentando que os mercados financeiros já se tinham apercebido da situação, mas agora "tornou-se consensual também entre os ministros das Finanças europeus".

Contudo, o Governo português não dá sinais de desistência, mesmo com os juros da dívida pública a cinco e a dez anos acima dos sete por cento, o limite acima do qual o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, dissera, no ano passado, que se justificaria uma intervenção da UE e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Nos últimos dias, as afirmações políticas têm, aliás, ido direitas à UE, denunciando os receios de que os líderes europeus não consigam chegar a um acordo sobre a resolução da crise da dívida na cimeira extraordinária da zona euro marcada para 11 de Março. Depois de o ministro das Finanças e do secretário do Tesouro terem criticado as indecisões europeias, ontem foi a vez do ministro da presidência, Pedro Silva Pereira, defender a necessidade de uma "resposta europeia".

"Temos que ter consciência que o enfrentar desta situação implica uma resposta europeia e toda a demora numa resposta europeia eficaz prejudica todos os países e prejudica também o próprio euro", disse ontem Silva Pereira, no final do conselho de ministros. A sugestão foi directa: "A Europa precisa também de fazer a sua parte e dar uma resposta à altura das circunstâncias".

De acordo com o ministro da presidência, Portugal tem feito o trabalho de casa, apresentado "excelentes resultados" ao nível da consolidação orçamental. O próprio secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, admitiu ontem à Bloomberg que Portugal e Espanha têm sido "absolutamente exemplares" no combate aos problemas orçamentais.

Falta de procura?

Até ao momento, Portugal tem conseguido financiamento nos mercados, mas a prova de fogo será quando o país já não conseguir atrair investidores. Na quarta-feira, a emissão de Bilhetes do Tesouro a um ano teve uma procura 1,9 vezes superior à oferta, um nível inferior ao da emissão realizada no início do mês. Em Espanha, a emissão de 3,5 mil milões de euros realizada ontem também surpreendeu pelo baixo nível de procura. O Estado português tem, inclusive, procurado "fugir" ao mercado, através colocações privadas de dívida. Ontem, segundo a Bloomberg, houve mais uma no valor de 50 milhões, com maturidade em 2019.

Mas, enquanto os investidores parecem afastar-se da dívida pública, há quem dê sinais de interesse. É o caso da China que, segundo o jornal China Daily, prometeu comprar seis mil milhões de euros em dívida espanhola e também quer adquirir mais dívida grega e portuguesa.