Regadio de Alqueva dará sempre prejuízo

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Regadio da Barragem do Alqueva está subaproveitado paulo RICCA

Conclusão está em estudo da KPMG sobre a gestão da barragem, que estima igualmente que olival intensivo e superintensivo reduz para metade o consumo de água de Alqueva

Todos os cenários pensados para a gestão dos 22 blocos de rega de Alqueva que, no seu todo, somam 110 mil hectares, concluem que o maior empreendimento hidroagrícola alguma vez construído em Portugal dará sempre prejuízo ao longo do seu tempo de vida útil de 40 anos.

Esta é uma das conclusões inseridas no estudo Uma visão estratégica para um desenvolvimento sustentável do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA), apresentado no último sábado em Beja, pela empresa KPMG Consultores de Gestão, SA, que o elaborou para o Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas.

Os contornos da realidade Alqueva tornam-se cada vez mais definidos, à medida que a conclusão do projecto de regadio se aproxima do fim. Com efeito, "o modelo só é sustentável se houver uma gestão integrada das valências agrícola, energética e turística", realça o estudo, destacando um dos maiores constrangimentos que estão a ensombrar o sucesso do projecto de regadio: "Toda a infra-estrutura foi implementada e suportada em tecnologia de última geração, para obter uma produção agrícola competitiva". O problema é que "estamos a falar de agricultores habituados à agricultura de sequeiro", refere Pedro Silva, coordenador do estudo da KPMG.

Os cenários negativos vão-se sucedendo. Com cerca de metade dos 22 blocos de rega concluídos, constata-se que a taxa de adesão dos agricultores ao novo modelo de regadio se fica pelos 30 por cento, quando o objectivo está "acima dos 80 por cento".

Verifica-se que a realidade (agrícola) de hoje já é diferente daquela com que se partiu para a construção do projecto (em 1995), e desde logo no consumo de água. O volume inicialmente estimado apontava para os 6.000 metros cúbicos/hectare/ano. Nas culturas actuais, a estimativa é de que "estamos na ordem dos 3.000 metros cúbicos", cerca de 50 por cento abaixo do ponto inicial de onde se partiu.

"Sejamos claros", observa o ministro da Agricultura, António Serrano, chamando a atenção para um facto incontornável: "Sem apoios do Estado, não há regadio que seja viável", garante, chamando a atenção para o investimento "brutal", superior a dois mil milhões de euros, que, numa perspectiva económica e financeira, não serão recuperados "nem daqui a 40 ou 50 anos."

Para mitigar os resultados financeiros negativos resultantes do baixo consumo de água, causa directa do tipo de culturas que Alqueva suporta actualmente, "evidencia-se a necessidade" de potenciar a gestão integrada da valia agrícola, energética e turística.

Ao mesmo tempo, o estudo defende que seja a "EDIA a fazer a gestão global do perímetro de rega", competindo aos agricultores pugnar para aderirem a culturas que consumam "muita água", propõe Pedro Silva.

Outras propostas para viabilizar o regadio passam por rentabilizar a mais-valia energética, nomeadamente para instalar uma central de biomassa, e concessionar terrenos propriedade da EDIA para a construção de empreendimentos turísticos.

O estudo da KPMG deixa um aviso. Dentro de quatro ou cinco anos, nalguns dos sistemas de regadio já concluídos, haverá necessidades de manutenção "com um peso considerável", obrigando a fazer "um forte investimento".

Críticas dos agricultores

No imediato, os agricultores foram convidados a pronunciar-se sobre três modelos de gestão (Isolada, Partilhada e Mista - ver caixa) do regadio de Alqueva que a KPMG lhes propôs.

A proposta defende que a Gestão Partilhada é o modelo mais "sustentável a médio e longo prazo" e a que apresenta o défice mais baixo até 2050, de 78,1 milhões de euros, contra os 79,4 milhões da Gestão Mista e os 102,8 milhões de euros da Gestão Isolada.

Qualquer destes três cenários não teve o acolhimento das associações de agricultores, que teceram duras críticas ao modelo "estatizante" que a proposta apresentava.

Castro e Brito, presidente da Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo, sentiu-se "ofendido pela incapacidade sistematicamente repetida sobre a inutilidade e ignorância dos agricultores" para gerirem a rede secundária de rega.

Mira Coroa, que se apresentou como agricultor de regadio, vê na proposta apresentada "um modelo a tender para o socialismo". E José Núncio, presidente da Federação Nacional de Regantes, lembrou que tanto em Espanha como em França são os agricultores que gerem a rede secundária.

Carlos Trindade, da Agrogés, considera a taxa actual de 30 por cento de adesão dos agricultores ao regadio "baixíssima", mas os "80 por cento dificilmente são atingíveis", frisando ter dúvidas de que os modelos apresentados "potenciem" a preferência dos agricultores pelo regadio.

Por seu lado, José Maria Pós de Mina, presidente da Câmara de Moura, face ao enorme volume de água que deixa de ser necessária para o regadio, fez uma proposta. "Não é possível avaliar o alargamento do perímetro de rega que optimize o aproveitamento da água?" E revelou que lhe foi dito pela KPMG que esta hipótese chegou a ser estudada, mas que não há indicação de que exista verba ou disposição do Governo para que se proceda a uma expansão da área de regadio.