Um candidato sozinho e triste na hora da derrota

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Candidato pediu desculpa "por não ter conseguido fazer melhor" daniel rocha

Menos de duas horas depois de Maria de Belém, mandatária nacional da candidatura, assumir a derrota, Alegre entrou na sala Petrópolis, no Hotel Altis, em Lisboa, não disfarçando um semblante triste. Ao seu lado estavam José Sócrates, líder do PS, e Almeida Santos, presidente do partido, e atrás seguiam António Costa, Edite Estrela e Ana Paula Vitorino. "Assumo pessoalmente esta derrota", começou por dizer. E, antecipando as perguntas dos jornalistas, acrescentou que "rejeitaria" qualquer "comparação com outras eleições", numa referência directa ao facto de ter conseguido recolher mais votos em 2006 (20,7 por cento), numa candidatura independente, do que agora (19,75 por cento), apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda (BE).

A mensagem da "derrota pessoal" foi repetida ao longo da breve intervenção que fez, diante de uma assistência onde escasseavam dirigentes do PS, em contraste com a presença destacada de membros da direcção do BE. Num tom tristonho (em consonância com a atmosfera da sala), afirmou que "sempre" valorizou a "diversidade das candidaturas" e frisou nunca ter apelado ao "voto útil", embora, ao longo da campanha, tenha insistido na "união das esquerdas" (vulgo, voto útil).

Depois de o primeiro-ministro ter afirmado, alguns momentos antes, na sede do PS, que os portugueses tinham "optado por não mudar, pela estabilidade política", Alegre não tinha outra alternativa se não sublinhar a derrota individual. "A derrota é minha e não daqueles que me apoiaram", disse, notando que "em democracia não é vergonha perder; vergonha é fugir aos combates". E sob um longo aplauso despediu-se com a frase: "Peço desculpa por não ter conseguido fazer melhor."

Apesar de ter defendido novamente o carácter suprapartidário da sua candidatura - "não foi o PS que perdeu este combate", afirmou -, em convergência com as declarações de Sócrates e de Francisco Louçã, que relevaram a "candidatura independente" do socialista, não deixaram de se ouvir vozes críticas ao fraco envolvimento do PS na campanha.

Helena Roseta, vereadora da Câmara de Lisboa e responsável pelo site da candidatura, notou que "o PS estava dividido, como toda a gente viu" e assumiu que "houve responsáveis do PS que nunca concordaram com esta candidatura". E isso terá contribuído para o resultado? "Não sei se prejudicou. Mas é um dado do problema. O Manuel Alegre foi a única pessoa que teve coragem para enfrentar este desafio tão difícil", respondeu.

Cerca de meia hora antes, já Garcia Pereira, líder do PCTP/MRPP, tinha responsabilizado o PS pela derrota, acusando o partido de ter prestado um apoio "titubeante e não decidido". Contudo, numa crítica velada a Alegre, disse que, "se a candidatura tivesse mantido um maior distanciamento e independência, teria ganho com isso".

E Francisco Louçã, que chegou ao Altis depois da saída de Sócrates, fez o BE regressar ao seu lugar habitual. Explicou ao PÚBLICO que apoiou Alegre "pela sua combatividade", mas saltou logo para o pós-eleições: refutando a ideia de que esta candidatura é um "embrião da aliança entre o PS e o BE", lançada ontem por Paulo Portas, líder do CDS, afirmou que "a coligação que há é a do PS/PSD, a do PEC, a do aumento dos impostos."

Ao contrário de 2006, a noite de Alegre terminou cedo. Tudo acabou às 22h10, com a sua saída do Altis, embora às 20h00, no 13.º piso do hotel, ele tenha percebido que, desta vez, estaria ainda mais sozinho na derrota.

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