A religião traz a felicidade ou ela já está no cérebro?

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Há uma felicidade do instante, outra associada à participação na vida cívica, outra identificada com Deus ou a religião. A felicidade confronta-se com o mal e o sofrimento. Será que podemos saber onde ela mora?

Pode ser que a felicidade esteja aí, ao virar de uma esquina do cérebro.

Será assim tão fácil chegar a ela? Talvez a felicidade se encontre em algum momento efémero. Ou num estado de vida. Ou no coração.

E o que é a felicidade? Há quem a identifique com Deus ou com a religião. Há quem a assemelhe ao prazer, mais ou menos momentâneo. A felicidade será pelo menos a ausência de mal - mas devemos perguntar se seria possível um mundo sem mal e sem sofrimento. E a ciência terá já descoberto onde mora a felicidade - será ela acessível ao bisturi?

"Há partes do cérebro mais associadas aos sentimentos. A felicidade tem vários níveis: há uma felicidade do instante, outra associada à nossa participação na sociedade, à posição da nossa vida ou à nossa relação com o universo. Quanto mais generalizado é esse sentimento de felicidade, mais partes do cérebro são utilizadas." A explicação é de Nicolás Lori, um físico que trabalha no Instituto Biomédico de Investigação da Luz e Imagem (IBILI), da Universidade de Coimbra. O cientista foi um dos intervenientes no recente colóquio sobre Religião e (In)felicidade, dos Missionários da Boa Nova, em Valadares (Gaia), organizado por Anselmo Borges, padre e filósofo.

Todos buscamos a felicidade. Sabemos, através da neurociência, que "temos naturalmente tendência para sermos felizes", explica o investigador. "Quanto mais neurónios estiverem satisfeitos com a relação entre os dados recebidos e os dados esperados, mais eles estarão satisfeitos em termos fisiológicos e dos nutrientes que recebem. Essa satisfação, essa tranquilidade com as coisas que acontecem, induz à felicidade."

De que precisamos, então, para estarmos satisfeitos ou tranquilos? O organizador do colóquio recorda que "para se ser feliz é necessária uma multidão de coisas e condições". E cita: saúde, fruição da paz e dos direitos humanos, algum prazer, uma vida familiar agradável, amor, realização profissional mínima, reconhecimento social, algum dinheiro, amigos, um projecto de vida viável, um governo competente e decente.

Será possível a felicidade, com tantos requisitos? Será ela um sentimento mais longínquo do que pensamos? Nicolás Lori vai buscar a tradição da psicologia positiva: "A emoção ou o sentimento básico é o sentimento positivo. Os sentimentos negativos serão indicações da nossa distância em relação ao sentimento positivo. O sentimento mais forte, mais fundamental em nós, seria esse sentimento positivo."

Prazeres necessários

É preciso sorte, também, recorda ainda Anselmo Borges. Por isso mesmo, há palavras cujo étimo assume as duas ideias em conjunto, felicidade e sorte. O glück alemão remete para ambas, a raiz da happiness inglesa é happ, que quer dizer acaso ou fortuna, tal como acontece com o grego eudaimonia ou o francês bonheur.

A felicidade identifica-se muitas vezes com o prazer. Anselmo Borges distingue entre os prazeres "naturais e necessários, os naturais que não são necessários, outros que nem são naturais nem necessários". Nestes últimos, coloca os desejos de glória, riqueza e poder. "Eles votam-nos inevitavelmente à insatisfação", diz.

Entre os prazeres naturais que não são necessários estão os desejos gastronómicos. Mas, "os únicos desejos bons", continua o padre, "são os naturais e necessários para a própria vida (comer, beber), para o bem-estar do corpo (ter que vestir e um tecto), para o bem-estar da alma (amizade e filosofia)".

E o consumo? Sabe-se hoje que o acto de consumir é impulsivo para muita gente. A ponto de o filósofo francês Gilles Lipovetsky escrever que "não haverá salvação sem o progresso do consumo".

Teresa Toldy, professora de Filosofia na Universidade Fernando Pessoa, recorda os cinco paradigmas propostos por Lipovetsky, "que comandam a inteligibilidade do prazer e da felicidade nas nossas sociedades": um "interminável sistema de estímulos" que, prometendo a felicidade ao alcance da mão, "mais causa a decepção e a frustração"; a celebração dos "prazeres do consumo e da vida presente"; a "corrida generalizada à excelência", vendida em manuais sobre saúde, comida, comunicação, trabalho, desporto ou sexualidade; o consumo da intimidade; ou o hiperconsumo, que se impõe "como o nosso único horizonte".

Toldy critica a proposta de Lipovetsky: "Apesar da aparente exaltação do consumo, Lipovetsky defende a possibilidade de uma era "pós-consumo"." Mas "não se percebe" como quer ele chegar a outra cultura que "reavalie o lugar dos prazeres imediatos". Pior ainda: Lipovetsky esquece "quase dois terços da humanidade", tomados apenas como "pedintes do mesmo nível de consumo das classes mais abastadas".

Deus no cérebro?

A religião pretendeu sempre apontar para prazeres menos imediatos. A felicidade estaria no além, numa promessa escatológica sem correspondência no quotidiano terreno.

O factor religioso é comum na condição humana, diz a ciência. A fé numa entidade suprema que explica o mundo ou que nos salva, apesar do mundo, atravessa diferentes culturas, épocas históricas ou estratos sociais.

Tudo radica no cérebro? "Diferentes relacionamentos com os conceitos de Deus, religião e Igreja activam diversas zonas do cérebro de forma diferente", diz Nicolás Lori. "Ou seja, o consumo energético de diversas partes do cérebro será diferente dependendo do tipo de relação que temos com Deus."

Convém, então, separar o sentimento e a emoção: "A emoção acontece no nosso corpo, enquanto o sentimento é uma representação das áreas cerebrais mais evoluídas dessa emoção. Por isso, o nosso relacionamento com Deus está sempre associado aos sentimentos e às emoções."

A ligação a Deus e à religião está por vezes associada à forma como cada um se relaciona "com a vida, com o cosmos, com o destino último", diz Lori. E entre cérebro e coração, qual deles está mais perto de Deus? Ou da felicidade? Emoções e sentimentos são referidos quando se fala do cérebro, diz o físico de Coimbra. "Há uma relação entre o estado do coração e a informação que o cérebro quer processar. Essa separação, na nomenclatura da neurociência, já não se utiliza tanto. Pode falar-se de comportamentos do cérebro mais racionais ou mais emocionais."

Anselmo Borges enuncia factores que perverteram a identificação da religião com a felicidade: o terrorismo ou a violência em nome da religião, as culturas arrasadas a par da generosidade missionária, as "vidas sexuais envenenadas" (abusos sexuais ou celibato obrigatório)...

Teresa Toldy recorda: "O cristianismo propõe um outro programa: o das bem-aventuranças. Contudo, as formas como ele é apresentado nem sempre o tornam muito atraente."

Basta ver: "A pobreza (mesmo que de espírito), o sofrimento, a mansidão, a fome e sede de justiça, a misericórdia, a pureza de coração, a promoção da paz, a perseguição por amor da justiça, os insultos, a perseguição e a calúnia em consequência da profissão de fé não parecem fazer parte dos horizontes de felicidade" do quotidiano.

É verdade que o prazer e a felicidade podem estar em lugares diferentes: um crente pode ver o sublime numa liturgia, mas também o pode experimentar num concerto rock, diz Teresa Toldy. Ou ao contrário, achando que a liturgia não lhe fala do transcendente. E um não crente pode reconhecer, numa celebração litúrgica, uma qualidade estética que o eleva.

Afastar o mal

Em tempos de miséria, dureza, dores e sofrimentos, Deus foi, é ainda, tantas vezes, o alívio para muitos, recorda Anselmo Borges. Referindo-se só ao presente português, o organizador do colóquio afirma: "Hoje há pelo menos 30 mil famílias que sobrevivem com a ajuda da Igreja Católica. E todas as religiões participam nesta ajuda, no contexto da terrível crise em curso."

Andrés Torres Queiruga, teólogo galego, mudou a sua teologia quando leu no livro bíblico do Êxodo a frase que Deus diz a Moisés, o líder que levou os judeus a deixar a escravatura do Egipto: "Escutei o lamento do povo."

"Deus só tem sentido se é puro amor e salvação, se apoia o povo na sua luta contra o mal, na preocupação com o órfão e a viúva. Os que respondem verdadeiramente ao projecto de Jesus são os que lutam contra o mal", diz Torres Queiruga.

Perante uma tragédia - um tsunami na Ásia, um terramoto no Haiti, chuvas torrenciais na Madeira -, surge muitas vezes a pergunta: "Porque permite Deus o mal?" Há mal no mundo porque o mundo produz o mal, afirma Queiruga. "Há um equívoco de fundo", diz o teólogo. "Parte-se do pressuposto de que o mundo podia ser perfeito. Mas o problema do mal é eterno e precisa de ser colocado de outra maneira." Por isso o teólogo espanhol se espantou com a frase que leu na Bíblia: "Amar alguém é dizer-lhe: "Tu não podes morrer." Por isso Deus pode resgatar-nos do último mal, que é a morte."

Esta será uma resposta do crente, mas pode haver outras: "Um crente tem que dizer porque é que, apesar do mal, acredita em Deus; ou porque a fé em Deus pode ajudar a enfrentar o problema do mal. Um ateu também tem que dar essa resposta."

Mesmo o crente pode fazer perguntas ao seu Deus, afirma o teólogo. "Temos direito a perguntar porque é que, sabendo que o mundo iria ter o mal, Deus criou o mundo... É a mesma pergunta que um filho pode fazer ao pai ou à mãe. Porque, apesar do mal, pensamos que a existência vale a pena e podemos fazer o bem. Se Deus me cria livre, é para exercer a minha liberdade."

A experiência do amor completa a da liberdade: "Deus, ao criar-nos, quer ser consequente com a sua criação, está a apoiar-nos na nossa luta contra o mal. E aí podemos ficar mais felizes com a felicidade do outro do que com a própria."

Paulo Borges, líder da União Budista Portuguesa, diz que a experiência do Oriente vai no mesmo sentido: "Segundo a tradição do Buda, todos os seres viventes procuram a felicidade; é isso que é necessário respeitar: o interesse de não sofrer. A partir daí, é preciso assumir a vida como um compromisso ético de não fazer sofrer e contribuir para a felicidade dos outros."

Para chegar à felicidade, teremos sempre o sofrimento? Teresa Toldy cita ainda uma história narrada pelo brasileiro frei Betto: "Em Fortaleza, no Nordeste brasileiro, jazia uma criança subnutrida, com uma doença de estômago. A mãe procurava consolá-la: "Vais para o Céu, meu menino." A criança olhou para a mãe, abriu muito os olhos e perguntou: "Há pão no Céu, mãe?""