Um parque temático nocturno é insustentável

A especialização exclusiva do Bairro Alto em actividades próprias de um parque temático nocturno é insustentável, defende uma dissertação académica defendida em 2004, na Universidade Lusófona.

A preservação da identidade do bairro passa pela manutenção dos seus habitantes, pela fixação de novos moradores e também por levar lá visitantes durante o dia, diz a sua autora, Rita Folgosa. Mas haverá maneira de compatibilizar o ruído provocado pela animação nocturna com a função residencial? "Torna-se necessário aplicar critérios de intervenção e gestão urbana", defende a tese, apresentada como trabalho final de licenciatura no curso de Geografia e Desenvolvimento Regional.

Num outro estudo, publicado em 2009 pela Câmara de Lisboa, e desenvolvido por Pedro Costa, são identificados desafios idênticos, que podem comprometer o futuro do bairro. À guerra entre os antigos habitantes, que reivindicam sossego, e os frequentadores do local somam-se "os problemas associados à [pequena] marginalidade e, sobretudo, à toxicodependência", que "podem ser crí- ticos para o dinamismo de determinadas actividades".

Numa tentativa de resolver a questão, a autarquia prepara-se para instalar câmaras de videovigilância, estando também prevista a abertura de uma nova esquadra. Por outro lado, como dizem os sociólogos, o Bairro Alto está a gentrificar-se: ao lado dos tradicionais habitantes moram hoje pessoas que, em termos de capital cultural pertencem à classe média ou média-alta, "com estilos de vida mais orientados para os campos artísticos e estéticos". Toda esta movida inflacionou os preços de lojas e habitações, nota Pedro Costa, o que "tem feito partir muitos daqueles que viviam intensamente a vida do bairro - alguns dos quais marcavam indelevelmente a sua imagem".

Soluções? Em 2004, Rita Folgosa sustentava que a reabilitação dos edifícios teria de ser acompanhada da criação de equipamentos sociais e serviços de apoio aos residentes, de forma a "manter um funcionamento normal e equilibrado da vida urbana". "Caso contrário, poderá ocorrer um forte risco de estagnação e uma descaracterização da identidade do bairro", avisava.

Pedro Costa pensa que a "gestão duradoura e sustentável deste bairro cultural" depende também "de uma antecipação estratégica nas novas actividades culturais". E os poderes públicos têm aqui um papel. Já o fecho de parte do bairro aos carros é encarado como positivo, mas a necessitar de aperfeiçoamento. Ana Henriques