Sócrates deu OK ao repatriamento de presos via base das Lajes

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Base das Lajes. Sócrates autorizou o seu uso para repatriamentos CARLOS LOPES/arquivo

Governo afirma que EUA fizeram "diligências" para uso do território para repatriamentos de Guantánamo, mas que esses voos não se realizaram

Diplomatas norte-americanos em Portugal referem que José Sócrates permitiu aos Estados Unidos utilizar a base aérea das Lajes, Açores, para repatriar presos de Guantánamo, revela a edição de hoje do El País. O diário espanhol cita os telegramas da embaixada dos EUA em Lisboa enviados ao Departamento de Estado, que constam da documentação da WikiLeaks.

Num telegrama de Setembro de 2007, a embaixada norte-americana congratula-se pelo primeiro-ministro "ter permitido aos Estados Unidos utilizar a Base das Lajes nos Açores para repatriar presos de Guantánamo". Esta autorização foi avaliada pelos próprios diplomatas "como uma decisão difícil que nunca foi tornada pública". Pelo que, de acordo com o jornal, o teor da comunicação é de agradecimento. Quatro meses depois, a 30 de Janeiro de 2008, Sócrates asseverou no Parlamento que o Governo "nunca" tinha recebido qualquer pedido dos EUA "para sobrevoo do nosso espaço aéreo ou para aterragem na Base das Lajes de aviões que se destinassem ao transporte ou à transferência de prisioneiros". E acrescentou: "Nenhum membro do Governo faltou à verdade sobre este caso."

Contactado pelo PÚBLICO, o Governo reafirmou as declarações no plenário e remeteu ainda para as respostas de Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros, no Parlamento, na passada semana: os EUA fizeram "diligências" em 2006 com o Governo para o uso do espaço nacional com vista ao repatriamento de presos de Guantánamo, mas esses voos não se realizaram, disse, distinguindo ainda "voos da CIA" e "repatriamento" de detidos quando os EUA começaram a falar no encerramento da base em Cuba.

Os funcionários norte-americanos destacam, também, a posição do Presidente da República sobre os voos que, em 2008, provocaram celeuma internacional. "Portugal tem uma imprensa muito suave", disse Cavaco, tranquilizando os seus interlocutores norte-americanos. O PÚBLICO tentou obter um comentário da Presidência da República, mas até à hora de fecho desta edição tal não foi possível.

A Amado, Washington não poupa elogios, destacando que a ele se deve a iniciativa de levar países europeus a acolher presos de Guantánamo e assim ajudar ao encerramento da prisão. "Amado foi um grande amigo dos EUA, tanto no seu anterior cargo de ministro da Defesa como no actual", refere um telegrama de Setembro de 2009. A mesma comunicação assinala que Amado "é equilibrado, reflexivo e procura sempre oportunidades para se coordenar politicamente com os EUA, se há discrepâncias prefere discuti-las discretamente".

Chávez, Kosovo e Afeganistão

Já as boas relações de Portugal com Hugo Chávez provocam apreensão à diplomacia norte-americana, embora esta reconheça como factores condicionantes a presença de 500 mil portugueses na Venezuela e a necessidade de diversificar o abastecimento energético. Contudo, os telegramas não deixam de notar que Sócrates se reuniu quatro vezes com Chávez em 2008, mas citam fontes governamentais portuguesas para garantir que, em privado, Lisboa transmite duras mensagem a Caracas. Esta atitude do Governo de Lisboa, assinalam, é também justificada pelo Presidente da República.

Outros dois pontos perturbam a relação de Portugal com os EUA: o tardio reconhecimento da independência do Kosovo e uma redução, decidida em 2007, dos efectivos no Afeganistão.

Em ambos os casos, os diplomatas norte-americanos atribuem a responsabilidade a Cavaco. "Suspeito que a grande pressão de Cavaco Silva para a redução das tropas no Afeganistão é motivada, em parte, pelo mal-estar pessoal de nunca ter sido recebido pelo Presidente Bush", escreve o embaixador Alfred Hoffman, depois de manter contactos com Cavaco em Novembro de 2007.

O El País cita ainda um telegrama de outro embaixador, Thomas Stephenson, reiterando esta interpretação: "Os nossos interlocutores sugerem que [os problemas com o Afeganistão e o Kosovo] estão vinculados ao mal-estar de Cavaco Silva" por não ter sido recebido por George W. Bush, de cujo pai "se considera amigo pessoal".

A embaixada revela ainda preocupação pelo desenvolvimento da "extrema-esquerda" como consequência da viragem ao centro do PS. Sócrates é classificado como um político carismático ao qual "desagrada partilhar o poder". De Cavaco destaca "o esforço por ser um mandatário bipartidista". Ferreira Leite é definida como "protegida de Cavaco, capaz, amplamente respeitada pelo seu intelecto e experiência", mas "sem carisma". Por fim, Manuel Alegre é referido como "dinossauro esquerdista" ou "Alegresaurius".

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