Estas escolas são exemplares

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O Complexo Educativo dos Arcos é frequentado por mais de 200 alunos do 1.º ao 6.º ano do ensino básico ENRIC VIVES-RUBIO

Há seis edifícios em Portugal que a OCDE escolheu para figurarem na lista dos bons exemplos de arquitectura escolar de 28 países. Quem os concebeu acredita que ter boas notas é mais fácil quando o espaço de aprendizagem é estimulante. Por Bárbara Wong

a Foi há dois anos. Leonardo chegou à nova escola e ficou deslumbrado. Nunca vira um edifício assim. E havia tantos colegas. "Fiquei feliz, porque era tudo muito grande", revela o menino que na sua antiga escola do plano centenário, logo à entrada de Óbidos, tinha apenas 11 companheiros. No Complexo Educativo dos Arcos, que agora frequenta, há alunos do 1.º ao 6.º ano, mais de 200.

Os mais pequenos percorrem os corredores em fila indiana, a maior parte das vezes acompanhados por monitores. Os mais velhos aproveitam uma zona no 1.º andar, entre as salas, para tirar os sapatos e dançarem durante um intervalo da manhã. É uma escola, mas não foi assim baptizada. Chama-se complexo educativo, porque faz parte de um programa "mais completo e complexo", diz Claudio Sat, o arquitecto argentino responsável pela concepção daquele espaço.

O complexo dos Arcos é um dos que vão fazer parte do compêndio de edifícios escolares considerados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) bons exemplos de arquitectura.

A cada cinco anos, a OCDE reúne um júri que selecciona escolas que aliam a inovação do design com o objectivo para que foram construídas, a sustentabilidade e a segurança. Para a próxima edição do compêndio da OCDE, que será publicada em Setembro de 2011, concorreram 166 projectos de 33 países. Foram escolhidos 60, de 28 Estados. Seis são escolas portuguesas. Ao lado do complexo de Óbidos figuram cinco estabelecimentos de ensino, três públicos, recentemente recuperados pela Parque Escolar, um pertencente a uma instituição particular de solidariedade social (IPSS) e um último construído por uma Misericórdia.

Leonardo, que está no 6.º ano, diz que tem pena do dia em que tiver que abandonar o complexo escolar, rumo à Josefa de Óbidos, a escola dos mais velhos e sede de agrupamento do concelho. "Já lá fui, mas não me lembro bem... Tenho um bocadinho de receio, mas acho que vai ser giro...", diz timidamente e sem grandes certezas. Por agora, gosta da sua rotina, de chegar cedo, das aulas com os vários professores, de brincar com os melhores amigos, o David e a Sheila. "Gostamos de jogar às cartas, à apanhada e às escondidas."

"Sem correr!"

A terça-feira é o melhor dia da semana para Leonardo, porque tem as suas disciplinas preferidas: Educação Física e Português. É um dia bastante preenchido, que permite aos alunos da sua turma usar diferentes espaços da escola: trabalhar nas mesas articuladas da sala de Educação Visual e Tecnológica; aprender a tocar flauta na sala insonorizada de Educação Musical; experimentar os diferentes instrumentos guardados na arrecadação; usar o enorme pavilhão multiusos, que está preparado para os alunos fazerem jogos de equipa como andebol, basquetebol ou futebol e tem condições para todos se refrescarem depois do esforço físico, nos balneários preparados para receber crianças deficientes motoras.

Junto ao pavilhão há uma sala para os professores se reunirem e uma porta com saída directa para a rua - a ideia é que o pavilhão possa ser usado pela comunidade exterior, sem ser necessário passar por dentro da escola para lá chegar. "Além de ser um edifício escolar, é também um edifício público, um edifício cultural e social", justifica Claudio Sat, que teve a preocupação de conceber um projecto que possa, no futuro, ter "formas mais criativas de utilização".

"Convém não esquecer que o acto de projectar implica sempre um exercício de antecipação, tendo em conta que a vida útil de um edifício [transcende a do arquitecto e das gerações que agora o utilizam]", acrescenta.

O 4.º C acaba a aula de Educação Física e começa a abandonar o pavilhão, numa corrida para a sala de aula. Alguns, mais calmos, seguem devagar. Um deles, em cima de umas sapatilhas com rodinhas, desliza, escorrega e cai. "Sem correr, sem correr!", avisa uma funcionária, mas os meninos não ouvem e atravessam a escola em direcção à sala na excitação de quem terminou de fazer exercício físico.

Seguimos a turma. Ao sair do ginásio, passam pelo refeitório, uma sala envidraçada, com mesas azuis e cadeiras coloridas, onde os monitores preparam as mesas para o almoço. Seguem para o átrio principal da escola, onde estão localizados os serviços camarários que tratam, por exemplo, do transporte das crianças.

Atravessam o sector social - onde estão o refeitório, o bar e os serviços administrativos - e entram num longo corredor do qual saem três braços, para três edifícios rectangulares (visto de cima, o complexo parece um "E"). Em cada um desses edifícios há várias salas de aula, umas a seguir às outras, e, no final, uma sala grande que tem diferentes funcionalidades, conforme o edifício onde nos encontramos.

No primeiro está a biblioteca - estantes cheias de livros, sofás junto a uma grande parede de vidro. Ali está Maria, que diz ter sido expulsa da aula de música, para logo rectificar: "Não fui expulsa... Só não trouxe a flauta."

Os alunos do 4.º C moram no segundo braço da escola, na sala ao lado da de Educação Musical. Do lado de fora não se ouve nada, mas quando a porta se abre, saem as notas que compõem o famoso No woman, no cry, tocado nas flautas dos alunos do 2.º ciclo. Eles tocam, cantam e fazem gestos, tudo ao ritmo de Bob Marley e do CD que a professora tem a tocar. A porta fecha-se.

No terceiro braço está o núcleo de laboratório de ciências e a sala de Educação Visual e Tecnológica.

"O ensino é melhor"

Pedro, nove anos, aluno do 4.º C, é escolhido pela professora para falar com o P2. Com grande à-vontade, gesticula como um adulto para enfatizar o que vai dizendo: "Gosto de andar nesta escola. O ensino é bom e o ambiente de trabalho também."

Nunca perde a compostura e conta que chegou de Lisboa, "uma cidade boa mas onde havia muita poluição e assaltos", onde andou numa escola "muito velha e pouco moderna". Por isso, a mudança foi definitivamente para melhor. "Nesta escola, o ensino é melhor, as professoras ensinam muito bem e dão-nos actividades para fazer." E continua: "Aqui passam poucos carros, ouvem-se os pássaros a cantar, é muito bom!"

Todas as salas de aula têm duas portas, uma para o corredor e outra de saída para a rua, para um pátio que é comum ao mesmo edifício - ou seja, há três pátios diferentes para cada um dos braços do complexo. Se o dia estivesse bonito, no intervalo, os pátios estariam cheios de meninos a correr e a jogar, mas agora estão vazios, porque chove e as crianças brincam no corredor.

Joana, do 4.º B, recorda a escola antiga - "era velhinha, com o quadro de giz" - e a professora de quem tem saudades. Mas a nova escola "é fixe", diz muito rapidamente como que a combater as saudades. "Podemos andar para todo o lado, tem muitas divisões, a minha professora é simpática, se não percebemos alguma coisa, ela repete e, quando fazemos anos, dá-nos um presente... Eu só faço em Março!", conta, enquanto os monitores, jovens contratados pela autarquia para acompanhar as turmas, reúnem as crianças que, em fila indiana, se dirigem ao refeitório. No final do almoço, cada uma lavará os dentes - há um móvel branco com escovas de dentes, uma para cada aluno que, nos lavatórios que existem na sala de refeições, fazem a higiene oral.

No enorme corredor que une os três edifícios existem escadarias que ligam ao 1.º andar, onde funciona o 2.º ciclo. Tal como nas salas dos mais novos, também os estudantes dos 5.º e 6.º anos têm cacifos embutidos na parede da sala, com portas coloridas, quadros interactivos e uma sala confortável, apesar de estar forrada a azulejo. É também no 1.º andar que funcionam os serviços administrativos, da escola e da câmara, e a sala dos professores.

Para Pedro, o pior dia da semana é sexta-feira. É o dia em que deixa a escola e os amigos.

Aulas de dança no átrio

Para além do Complexo Educativo dos Arcos, Claudio Sat desenhou também, a pedido da autarquia de Óbidos, os complexos escolares do Furadouro e do Alvito, muito semelhantes ao primeiro - e que começaram a funcionar no início deste ano lectivo.

Todas as crianças estão concentradas nos três complexos do concelho - em Óbidos já não há as escolas de 1.º ciclo nas aldeias - e é aí que devem fazer os primeiros seis anos de escolaridade. A autarquia disponibiliza os transportes, as actividades extracurriculares e o prolongamento de horário através do programa Crescer Mais, onde os meninos fazem trabalhos usando materiais reciclados.

Tanto no Furadouro como no Alvito foi possível melhorar o projecto dos Arcos, admite o arquitecto. Apareceram outras peças, explica, como a sala polivalente e de música, e um palco que pode ser usado dentro da sala, mas também ao ar livre, porque cresce para o exterior do edifício.

Nos dois complexos há ainda campos de jogos e espaços reservados para futuros tanques de natação. Há ainda uma "sala de dentista" que poderá ser usada pelos alunos e por pessoas exteriores à escola. "Era importante que as freguesias sentissem que as escolas lhes pertencem", defende Fernando Silva, director do agrupamento Josefa de Óbidos, de que os complexos fazem parte.

A sala de música do Alvito é usada com frequência por uma turma de ensino articulado de música e no enorme átrio do edifício, Margarida Reis, coordenadora da escola, aproveita para dar aulas livres de dança. A professora quer que a escola seja vivida pelas famílias e já há pais que tomam o pequeno-almoço no bar do complexo, orgulha-se, enquanto mostra a paisagem vista de uma das janelas. Dali vê-se o vale verdejante, a barragem e a vila de Óbidos ao fundo.

Para Isabel Quaresma, coordenadora do complexo do Furadouro, aquela "é a escola mais bonita" das três, brinca. Aquele conjunto de edifícios é que devia ser referenciado no compêndio da OCDE, defende.

Estas escolas podem contribuir para o sucesso escolar? Fernando Silva ainda não tem elementos para dar garantias, mas tudo indica que sim, diz. Já o arquitecto Claudio Sat não tem dúvidas. "Um espaço confortável e estimulante permite que estejamos física e existencialmente melhor, mais disponíveis, mais concentrados nas tarefas", defende o arquitecto, que gosta de visitar as escolas e de observar o "carinho e respeito" com que alunos e professores intervêm no espaço por ele criado, personalizando-os.

Antes de se despedir, Isabel Quaresma é peremptória: "O sucesso está nas mãos das pessoas e não apenas no edifício."