Uma companhia como metáfora para uma cidade

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Cena de dr

No Barreiro, o Arte Viva viu crescer, ao longo de 30 anos, uma cidade à sua volta. A história da companhia está contada num livro comemorativo que mostra a "sociedade criativa e mais participativa" que quis ajudar a criar. Por Tiago Bartolomeu Costa

a A história de uma cidade pode ser contada de muitas formas. Mas, numa cidade como o Barreiro, onde o associativismo é uma força e uma forma de estar, contá-la a partir do percurso de uma companhia de teatro é também contar um pouco sobre a vida de quem nela habita.

O caso da companhia semiprofissional Arte Viva - Teatro e Comunicação, a celebrar 30 anos, é, nesse aspecto, paradigmático. A sua história foi agora fixada pela jornalista e investigadora Paula Magalhães no livro Arte Viva - Memórias... e outras histórias da Companhia de Teatro do Barreiro 1980/2010, que reúne fotografias de ensaios e das peças, esboços de figurinos e cenários, e depoimentos de muitos dos intervenientes desta história.

Em 1980, eram "mais um grupo de carolas", escreveram no programa do primeiro espectáculo, A Fuga, de Hélder Lobo, escrito propositadamente para ser interpretado pela companhia por um "tipógrafo que escrevia umas coisas com piada no Jornal do Barreiro". A cena inicial serve de imagem para esse nascimento: "várias pessoas saíam a correr de um armário, que se encontrava vazio". No fim da peça perceber-se-ia que eram pacientes a residir num manicómio. Louca, eventualmente, a ideia de criar uma companhia na esteira do "vazio teatral" criado pelo desaparecimento, em 1978, do Teatro de Ensaio do Barreiro, fustigado por um incêndio que destruiu todo o património de uma companhia que existia desde 1962.

Para este grupo, reactivo à "travessia no deserto" que se seguira, "nada acontecia por acaso", por mais "incongruente e estranha que em certos momentos pudesse parecer". No livro, que apresenta depoimentos de quem lá está desde o início e de outros que se foram juntando pelo caminho, fala-se da vontade de "comunicar com as pessoas, ir ao encontro dos seus problemas, dos seus anseios e esperanças". Havia, diz a autora, citando Jorge Cardoso - o jovem que na altura estudava advocacia e se tornou na figura tutelar da companhia -, o desejo de "constituir um projecto válido de diálogo, de expressão de ideias e de luta por um ideal".

O estigma do dormitório

Falar de ideias e diálogo no Barreiro é falar sobre uma comunidade que se organizou ao longo dos anos no interior de uma cidade cuja identidade era feita sob o estigma de ser um dormitório de Lisboa. Atendendo à forte presença das fábricas, como a CUF e a Quimigal, ou das oficinas como a da CP, o Barreiro foi encontrando, "como outras cidades limítrofes", modos de relacionamento que fossem "factores de coesão social", diz a autora.

Não tendo estudado outros exemplos no país, reconhece, contudo, que, no caso específico do Barreiro, "o factor de proximidade é fundamental". "Há uma maior ligação das pessoas à cidade, e mesmo uma capacidade de maior valorização da própria cidade". Isso é, acredita, "mais visível em cidades como o Barreiro", onde, "para muitos, o rio é um obstáculo".

Mesmo que não tenha sido uma estratégia consciente, certo é que desde cedo a companhia se escusou a fazer um teatro simplista e que prolongasse o êxito dessa primeira peça, uma "sátira popular, que se pretendia revista mas que acabou por não seguir à risca os cânones do género".

Apresentada naquilo que chamavam "caixa de cimento", a cave do Externato D. Manuel de Mello, com relações próximas à Igreja de Santa Maria, a peça prometia, segundo o Jornal do Barreiro, "manter viva a chama do teatro no concelho". Mas o colectivo acreditava ser da sua responsabilidade "a divulgação de autores portugueses e a escolha de peças que não servissem unicamente de entretenimento, reflectindo os interesses e as preocupações que sobravam da espuma dos dias de todos os seus elementos".

"Houve uma altura em que a questão social esteve presente", recorda a autora, citando o exemplo da peça Amanhã, de Manuel Laranjeira, apresentada em 1983, e na qual se falava abertamente da questão do aborto, apesar de ser um texto do início do século XX. Ainda que reforce a ausência de estratégia programática, é o próprio Jorge Cardoso que diz ter sempre preferido um "teatro de perguntas". Nesse sentido, o livro dá exemplos do modo como a escolha de autores portugueses se focava "na dramaturgia que questionava a realidade de forma directa ou indirecta". Para além de Amanhã, também "as reflexões de Raul Brandão sobre o mundo e o homem em O Doido e a Morte (1985) ou as inquietações com O Desconcerto do mundo, do homem e dos seus valores, nas palavras de Jaime Salazar Sampaio (1987)" ou, mais tarde, e usando exemplos de autores estrangeiros, Dámabrigo (2000), de Barrie Keefe, "que relata o sequestro de dois professores por um aluno, apresentado numa altura em que a violência nas escolas estava na ordem do dia", ou Justamente (2008), de Ali Smith, "levado à cena numa altura em que a justiça era continuamente questionada na praça pública".

No tempo de Maria Matos

Paula Magalhães fala de "um enriquecimento pessoal dos elementos do grupo", nomeadamente "nos que o formaram e que ainda lá estão hoje". "As pessoas sentem-se valorizadas por pertencerem à companhia", diz, citando o exemplo de uma das mais antigas participantes, Maria Matos, que ali foi parar porque, como sempre acontece nestas coisas, "acompanhava o marido, Duarte Matos, nos ensaios do espectáculo A Fuga".

"Ela ia mais feliz para o trabalho porque sabia que à noite ia para o ensaio. Era como se lhe desse uma alegria especial [que lhe permitia aguentar] viajar de barco, de metro, ou o autocarro que tivesse de apanhar. Nem todos enfrentamos com a mesma alegria a rotina do dia-a-dia, mas ela enfrentava-o com maior alegria nos dias em que sabia que ia ensaiar, ou estava a fazer uma peça", conta a autora, sublinhando que a relação das pessoas com a companhia tem mais a ver com "um enriquecimento pessoal do que uma ambição profissional", que os leva a pensarem-se também enquanto indivíduos naquele território.

"Para as pessoas mais novas", diz, "que têm os pais no Barreiro e andam aqui na escola, a proximidade é sempre um factor muito importante e, a não ser que haja uma vontade muito grande [de se tornar profissional], é a possibilidade de fazer-se teatro com pessoas que são do mesmo sítio que tu". "Algumas destas cidades têm essa lacuna. Hoje os escapes são muito maiores, estamos em casa a ver televisão, filmes no DVD e Internet, mas há uns anos havia uma grande necessidade de sair e criar formas de escape, encontrando coisas que levassem as pessoas a uma outra forma de se relacionarem".

Modelos para o público

Quando em 1977 a companhia abandonou o Externato D. Manuel de Mello, após acordo com a Câmara Municipal do Barreiro para a cedência do Teatro Municipal, abandonada que estava a ideia de instalação de uma sala de cinema - era chegado o tempo dos multiplexes -, "houve a sensibilidade de tentar optar por projectos que levassem mais gente ao teatro", diz. "Durante anos não houve preocupação social de ir buscar textos que respondessem a determinadas premissas", refere ainda, salientando que a companhia se concentrou em responder aos desafios traçados pelo protocolo com a câmara: "sensibilizar a população para o teatro e criar um público fiel na região".

Centrada num encenador - "como muitas companhias em Portugal", salienta -, diz que, ao longo dos anos, o Arte Viva "tem perdido essa centralidade. Isso não funciona de forma aglutinadora de estratégia por parte de uma companhia, mas com a receptividade de outros encenadores que apresentam os seus projectos". "É difícil perceber se, de há uns anos a esta parte, isso foi sempre uma preocupação", sublinha. "Devia tê-lo sido, e acho ainda que em algumas alturas não houve uma estratégia correcta da parte da companhia. Hoje tentamos convocar esse interesse sob pena de irmos perdendo lugar", acrescenta.

"Trinta anos depois, ainda há quem não saiba que o Arte Viva existe no Barreiro", salienta, reflectindo uma preocupação da companhia em encontrar modelos que possam responder aos interesses da população e, em particular, dos seus elementos.

No texto que introduz o livro, a autora refere que os elementos mais antigos da companhia nunca estavam longe de imaginar que, 30 anos passados, o Arte Viva ainda estivesse de pé. Para esse sucesso, acredita, em muito contribuiu o projecto de formação criado em 2001, por iniciativa de Célia Figueira, que levou a que a companhia começasse a renovar os seus elencos de forma sistemática. "Há vários projectos há anos nas cabeças dos membros da companhia que não se podem fazer por falta de actores".

A escola, que decorre numa sala integrada no próprio teatro, tem hoje 100 alunos divididos em dez turmas, entre adultos, jovens e infantis. "Todos os projectos de formação têm uma componente social e este não é diferente", diz. "Há pessoas que, mesmo entrando em todas as peças, continuam a não querer deixar a escola. Isso é um sinal de empenhamento que enriquece a própria companhia". Paula Magalhães não tem dúvidas em afirmar que também a escola é "um factor de coesão social", dando ao próprio concelho um outro modo de "integrar a população".Paula Magalhães,

jornalista

e investigadora