Joana dos anjos caídos

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A coreógrafa em residência artística em Coimbra fotos: nelson garrido

Coreógrafa do impulso e da forma, Joana Providência regressa aos palcos para uma retrospectiva em Coimbra

Quando se Mecanismos estreou, em 1989, foi apontado à sua coreógrafa, Joana Providência (n. 1965), um paradoxo: "É raro encontrar um coreógrafo que na sua primeira obra seja tão cruel para si próprio, ao afirmar implicitamente nessa mesma obra que nada de novo lhe é permitido criar, uma vez que, actualmente impera a sensação comum de que tudo já foi dito, criado, coreografado." António Pinto Ribeiro, hoje programador e na altura crítico no Expresso, escrevia ainda que era o assumir de "uma postura céptica face à criação ab initio", resultando "na fabricação de um espectáculo excelente".

"É muito engraçado vê-la [Mecanismos] com esta distância", diz a coreógrafa. A peça, na altura interpretada por Cristina Santos, Carlota Lagido e Ofélia Cardoso, é "um tipo de trabalho que não voltou a acontecer", diz, referindo-se à obra criada num período especial para a dança contemporânea portuguesa. 1989 foi o ano em que tudo, ou quase tudo começou. Mecanismos, assente num minimalismo feito da repetição e da acumulação de movimentos, "chegou a um desenho mais forte do que a própria interpretação que o leva a ele". "A minha intenção era fazer uma homenagem aos bailarinos", de alguma forma "comunicadores de uma mensagem de um coreógrafo".

Essa ideia sobre os intérpretes como "anjos caídos" persiste 21 anos após a estreia, tendo sido desenvolvida ao longo do tempo através do seu trabalho como pedagoga na Academia Contemporânea do Espectáculo.

Depois de uma retrospectiva em 2009 no Cine-teatro Constantino Nery, em Matosinhos, a peça regressa agora aos palcos, integrando uma residência artística que a coreógrafa, que mora no Porto, inaugura hoje em Coimbra, no Teatro da Cerca de São Bernardo.

São quatro peças, documentários e conversas que traçam um arco criativo onde encontramos essa "urgência do refazer, do redizer, do recoreografar, como prática contingente e definidora do estatuto do autor" que modelou todo o percurso de Joana Providência. Menina do Mar (hoje, 21h30), Ladrões de Almas (sexta-feira, 29, juntamente com Mecanismos, 21h30), e Mão na Boca (sábado, 30, 21h30), a que se junta a apresentação final de um workshop (sexta-feira, 29, 16h), são, para Joana Providência, uma "oportunidade para partilhar com o público uma forma de pensar o movimento".

"Trabalho a partir do que os intérpretes me dão", diz. "Não me interessa tanto a forma que o movimento toma, mas o impulso que o faz mover daquela maneira", afirma. Sublinha, por exemplo, sobre o trabalho em Mão na Boca, criado em 2004 no âmbito da exposição retrospectiva de Paula Rego na Fundação de Serralves, co-produtora da peça: "Há um impulso que me leva ao movimento que é complicado de retrabalhar, porque está muito enraizado em memórias e situações dos próprios intérpretes."

Ao falar dos intérpretes como "anjos caídos", portadores de um discurso, e de uma imagem que é potenciadora de sentidos, onde o "desenho da forma" passa pela presença em palco, "próxima do chão", a coreógrafa prolonga aquilo que a definiu ao longo dos anos - paisagens que mostravam uma relação com o corpo assente numa fisicalidade expressiva que interfere e amplia as inspirações que estão na base das peças. No caso, Sophia de Mello Breyner (Menina do Mar, 2010), Herberto Hélder (Ladrões de Almas, 2008, co-produção Culturgest) e Paula Rego (Mão na Boca).

Criadora com um tempo próprio, confessa que precisa de espaço para "arrumar ideias". No calendário futuro está uma estreia, a 30 de Setembro do próximo ano, inspirada na obra de Graça Morais, a convite do museu que tem o nome da pintora transmontana.