Para além da morte trágica de Sita Valles

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Crença na revolução levou a militante comunista a adoptar a violência - e depois a ser uma das suas vítimas

Sita Valles teve uma morte horrorosa. Foi torturada, violada e executada com vários tiros destinados a provocar sofrimento. Conta-se que se portou de forma corajosa e enfrentou os torcionários. E também ninguém duvida de que a orgia de violência desencadeada pelo regime de Agostinho Neto depois do 27 de Maio de 1977 foi um crime só comparável aos grandes massacres políticos do violento século XX.

Mas isso não faz de Sita Valles uma heroína. Ou, pelo menos, não devia fazer. Contudo, foi muito essa imagem que passou para os jornais aquando do lançamento do último livro de Leonor Figueiredo, Sita Valles - Revolucionária, Comunista até à Morte. Isto apesar de o livro, que mais do que uma biografia é uma reportagem longa, não apresentar a antiga militante e dirigente da UEC - União dos Estudantes Comunistas - apenas como uma idealista sem mácula. Isto talvez porque a obra não nos esclarece sobre o tema mais difícil: o da real responsabilidade de Sita na violência que, na Angola pós-1975, não surgiu apenas com a perseguição dos chamados "nitistas" após o golpe fracassado.

Quem era realmente Sita Valles? Uma revolucionária e uma comunista, como se diz no título do livro. E seguramente uma idealista, como alguns dos que com ela conviveram a descrevem. Mas também uma fanática, como se percebe de algumas passagens da obra e como o seu percurso confirma sem margem para dúvidas. Por isso valeria a pena ir um pouco além do seu martírio para tentar perceber os mecanismos do radicalismo político, sobretudo do radicalismo dos jovens intelectuais que aderem a ideologias extremistas.

O livro ajuda-nos nesta procura de respostas. Nascida em 1951, Sita cresceu na Luanda colonial numa família de origem goesa da classe média alta. Era bonita e inteligente, sabia utilizar o seu encanto e gozava de grande autonomia. Até entrar na Universidade não teve actividade política, na Faculdade de Medicina de Luanda ainda se aproximou de uns grupos maoístas, mas foi em Lisboa, para onde veio estudar em 1971, que mergulhou por completo na militância comunista e na UEC, onde se tornaria uma das figuras de maior destaque ao lado de Zita Seabra. Adepta entusiasta do regime soviético (estava em Moscovo no dia 25 de Abril, a assistir a um congresso), decidiu regressar a Angola no Verão de 1975 para, naquela que considerava a sua pátria, participar na revolução. Em Luanda aproximou-se ao sector ideologicamente mais ortodoxo do MPLA, de clara obediência soviética, encabeçado por Nito Alves e José Van-Dunem.

A adesão de Sita ao marxismo-leninismo foi uma adesão intelectual, muito no espírito do tempo que viveu. E o porquê da sua adesão a uma doutrina "global" é bem retratada nesta reflexão de Marcelo Caetano, apesar desta se referir ao integralismo lusitano: "O jovem, não tendo experiência, rejeita o empirismo. À medida que a sua inteligência se vai abrindo ao mundo das ideias, gosta de conquistar certezas resultantes de raciocínios ou neles apoiadas, quer poder discutir numa argumentação sem falhas, precisa de ter a segurança de uma doutrina bem estruturada".

As cartas à família, citadas abundantemente no livro, revelam alguém que não duvidava das suas certezas, os muitos testemunhos recordam uma militante com grande capacidade de argumentação e não faltam também os que recordam terem-na desaconselhado de voltar para Angola invocando a sua falta de experiência. Ou seja, a Sita Valles que nos é retratada é muito mais do que uma idealista, é uma militante capaz de abdicar de tudo em nome das suas certezas - e poucas doutrinas "armam" os revolucionários com tantas "certezas" como o marxismo-leninismo. O sectarismo e o radicalismo de Sita, que tantos ódios lhe granjeou na Luanda pós-independência, foi por certo apenas a manifestação exterior desse universo de "certezas" em que vivia.

Até aqui a jovem comunista não se distinguiria muito da grande maioria dos militantes radicais dessa época - ou só se distinguiria por ser mais trabalhadora, mais organizada, mais brilhante e... mais bonita. Só que Sita, em Angola, foi mais do que uma militante. Não restam grandes dúvidas de que desempenhou um papel maior no grupo de Nito Alves e José Van-Dunem. E, apesar de aí este livro ser quase omisso, também não deviam restar grandes dúvidas de que este grupo defendia soluções para Angola no mínimo tão radicais, e tão brutais, como as do grupo de Agostinho Neto. As prisões de Angola não ficaram cheias só depois do 27 de Maio. E, no próprio 27 de Maio, durante os confrontos que Sita acompanhou num comando de operações, os "nitistas" também fizeram muitas vítimas (existem mesmo dúvidas se não terão mesmo executado sumariamente alguns ministros afectos à linha de Agostinho Neto).

Que papel teve Sita Valles nestes acontecimentos? Até onde vai a sua responsabilidade na violência política? Este livro, como muitos outros, é omisso. Mas nada nos indica que esta "Comunista até à Morte" tenha sabido, ou conseguido, parar antes de se envolver na violência política - até porque a doutrina em que acreditava previa, e defendia, essa violência política. Mais: como notou Isaiah Berlin em The First and the Last, "causar dor, matar e torturar são actos geralmente condenados; mas se não foram cometidos para meu benefício pessoal e sim em prol de um ismo - socialismo, nacionalismo, fascismo, comunismo, de crenças religiosas fanáticas, do progresso, ou do cumprimento das leis da História -, então esses actos são aceitáveis".

Paul Hollander, que estudou a adesão dos intelectuais ao comunismo em livros como O Fim do Compromisso, também notou que "o culto da sinceridade, dos sentimentos fortes, e do desejo de agir consoante os mesmos - quer isto dizer, da autenticidade - tornou-se especialmente pronunciado na década de 60", uma época em que "a orientação para a acção cativou os radicais e tornou-se a sua marca característica". Sita Valles era, sem dúvida, uma filha desses tempos, alguém que levou ao limite a condição de "verdadeira crente", alguém que acreditava numa "doutrina infalível" e, assim, ficava imune não só às incertezas como às realidades quando estas se revelavam desagradáveis. Isso cegou-a - e levou-a a não ver a tragédia que se preparava e da qual seria, ela também, vítima. Jornalista (www.twitter.com/jmf1957)