Romenos que não são vistos como cidadãos

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Acabados de chegar à Roménia, expulsos de França RADU SIGHETI/REUTERS

Três em cada quatro vivem em pobreza. A directora adjunta da organização European Roma Rights Center sabe o que os levou até aí

Isabela Mihalache, directora adjunta da organização internacional European Roma Rights Center, não quer que lhe chamem cigana. Tigan, na Roménia, é sinónimo de escravo. E os ciganos romenos não desejam perpetuar uma história de servidão. Querem um nome limpo - querem ser roma.

A socióloga desfaz o estereótipo dos roma da Roménia, que estão a ser expulsos de vários países europeus, França, mas também Itália, Alemanha, Dinamarca e Suécia: "Não querem trabalhar, vivem às custas da segurança social, roubam, mendigam, não se vêem atrás de uma secretária a trabalhar num computador."

A questão pode parecer insignificante, mas nada é insignificante quando os indicadores formam uma espécie de maré negra. A população de etnia cigana é a mais desfavorecida de toda a Roménia: três em cada quatro vivem na pobreza - a discriminação é uma realidade quotidiana.

O nome roma foi aprovado na primeira conferência internacional de grupos de etnia cigana, em Inglaterra, em Abril de 1971. Não vingou durante o regime liderado por Nicolae Ceausescu . A mudança oficial de nome é uma conquista da revolução de 1989. Todavia, a ameaça paira.

Por estes dias, Isabela leu notícias sobre uma iniciativa a apresentar na reabertura do ano legislativo. E ficou surpreendida, porque ainda há dois anos o Partido da Grande Roménia levou a discussão à Câmara dos Deputados. "Querem evitar qualquer confusão entre roma e roman [palavra romena para romeno]. Não querem que se pense que todos os romenos são roma."

Podia estar dias e dias a falar sobre discriminação. Sempre se sentiu olhada com suspeição, apesar de ser filha de um conselheiro municipal. Aos 14 anos, teve de fugir enquanto uma família roma era atacada num apartamento próximo. Agora, que tem 32, luta pelos direitos civis da minoria.

Enquanto vai respondendo às perguntas, ao telefone, desde Budapeste, envia uma dezena de documentos por e-mail - como o relatório Racismo na Roménia, que a Rede Europeia Antiracismo publicou em 2008. Como se tivesse medo de se esquecer de algum detalhe importante para traçar o perfil do seu povo. E lá estão os indicadores negros sobre habitação, emprego, educação, saúde, acesso a bens e serviços públicos, ataques racistas.

"As crianças roma continuam a ser vítimas de segregação escolar", diz, sem perder urgência na voz. Em 2007, as directivas de igualdade da UE foram transpostas para a legislação nacional, mas ainda há escolas só com ciganos, turmas só com ciganos ou cantinhos de sala só ciganos.

As taxas de abandono escolar mantêm-se elevadas - 18 por cento dos menores de 16 anos é iletrado. Por causa da salvaguarda da virgindade e do casamento precoce, mas também porque nos intervalos ou no fim das aulas muitas crianças não-roma maltratam crianças roma.

Inquieta-a o número dos que vão parar ao ensino especial: "Os testes não estão adaptados. As crianças roma não identificam alguns objectos porque não fazem parte da sua realidade. No ensino especial, não podem progredir a partir de certo ponto e não passam para o ensino regular. Sem escolaridade, não arranjam trabalho decente. Sem trabalho decente, não saem da pobreza. "

A via do respeito mútuo parece-lhe acertada. Ora, a história dos roma nem consta nos manuais escolares romenos. Se constasse - arrisca - talvez a maioria conseguisse perceber como é que a maior minoria se converteu no que é; talvez houvesse menos preconceito, mais tolerância.

Condição de escravos

Chegaram à Valáquia e à Moldávia no início do século XI vindos do Noroeste da Índia. E, pouco a pouco, espalharam-se por todo o continente - alcançaram Portugal no século XVI. Alguns historiadores sugerem que a condição de escravos lhes era intrínseca enquanto membros de uma casta inferior ou que foram forçados a venderem-se para pagar as suas dívidas. Outros argumentam que a escravatura resultou das lutas entre proprietários de terras da região. Seja lá como for, suportaram a escravatura ao longo de séculos.

No século XIX, compreendeu-se que escravizar era sintoma de barbárie. A escravatura foi abolida em 1856, três anos antes de Valáquia e Moldávia se unirem para criar a Roménia moderna. Muitos roma partiram. Os que ficaram não receberam terras. Dedicaram-se a trabalhar madeiras e metais, a procurar e a vender garrafas, a adivinhar o futuro alheio ou a mendigar.

A história pode ler-se em artigos e livros disponíveis até na Internet - como Roma da Roménia, de Cathy O"Grady e Daniela Tarnovschi. "As organizações não governamentais estão a fazer pressão para que seja vertida nas salas de aula", refere. "Só há pouco tivemos um primeiro-ministro a admitir que os roma foram vítimas do Holocausto." As autoridades estimam que tenham morrido 36 mil ciganos romenos durante a Segunda Grande Guerra. Depois, a Roménia tornou-se um Estado comunista sob directo controlo da União Soviética. Não se podia ser diferente. Nem aí, nem durante o governo de Nicolae Ceausescu.

Ferramentas e cooperativas

Como outros romenos, os roma foram desapossados das ferramentas e dos materiais que usavam nas artes tradicionais e integrados em cooperativas metalúrgicas e em explorações agrícolas. As crianças passaram a ter igualdade de acesso à educação. Só que a taxa de abandono escolar manteve-se alta e as investidas policiais frequentes. Quando o regime caiu, a maior parte dos roma não tinha propriedades para receber. Nem grandes níveis de escolaridade para oferecer. A economia de mercado repeliu-os.

Agora, a Roménia nem sabe quantos dos seus 22 milhões de habitantes são ciganos. Os censos de 2002 registaram 535,140, só que as estimativas mais modestas atiram para um a dois milhões. Alguns assimilaram por completo a cultura dominante, outros desejam evitar o estigma. Mas a memória também conta. No Governo de Ion Victor Antonescu, houve um censo geral da população que serviu de base às deportações dos ciganos para a Transilvânia entre 1942 e 1944.

"Nós somos cidadãos, mas nunca somos vistos como tal. O Estado não assume a sério a sua responsabilidade de enfrentar os problemas dos roma", avalia a também consultadora do Conselho da Europa. Há fundos estruturais aos quais a Roménia pode recorrer. Os idosos, as crianças e os roma constituem as prioridades. "Falta garantir que as verbas são canalizadas para promover a habitação, a saúde, a educação, o emprego da maior minoria étnica do país", remata. Só isso poderá parar o êxodo que tanta agitação provoca pela Europa fora.