Portugal perdeu os seus chefes mas a revolução fez-se

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Postal ilustrado em homenagem a Miguel Bombarda e Cândido dos Reis OS POSTAIS DA PRIMEIRA REPÚBLICA

Morreram com poucas horas de diferença e sem ocupar as pastas que lhes estavam destinadas, a dos Negócios Estrangeiros para Miguel Bombarda, a da Marinha para Cândido dos Reis. Anticlericais ferozes, as suas mortes provocaram fúria no povo republicanizado de Lisboa, que assim perdia os seus dois chefes. Por Joaquim Romero Magalhães

Preparava-se o abanão que devia derrubar a Monarquia. Um era o chefe civil; outro o chefe militar. Miguel Bombarda (1851-1910) e Carlos Cândido dos Reis (1852-1910) morreram com algumas horas de diferença, na alvorada da revolução que implantaria a República. Revolução em que estavam totalmente empenhados. Bombarda a 3 de Outubro, baleado por um louco que tratara, Cândido dos Reis na madrugada de 4 de Outubro vítima de desesperada exaltação, ou assassinado... sabe-se lá. Falecidos quase ao mesmo tempo...

Um, lente da Escola Médica de Lisboa e director do hospital de alienados em Rilhafoles, outro, vice-almirante na reforma. Ambos com lugares marcados no governo provisório do regime a proclamar. Bombarda tomaria a pasta dos Negócios Estrangeiros, Cândido dos Reis a da Marinha. Para além de não-comprovadas competência e habilidade ministerial, ambos faziam falta a um mal arrumado grupo de inexperientes ministros. Da sua autoridade moral precisavam as instituições que se estreavam. Fora "a grande fatalidade", escreveu Brito Camacho.

Uma obra além da política

O cientista Miguel Bombarda era um traga-jesuítas, que presidia à Junta Liberal. Anticlerical já o era, antes de ser republicano. Envolvido em polémicas com eclesiásticos, fazendo propaganda em que exaltava Joaquim António de Aguiar, o liberal mata-frades, e o Marquês de Pombal, exterminador da Companhia de Jesus. Organizando enormes manifestações contra as cedências monárquicas a padres e a frades - como a que espantou Lisboa em Agosto de 1909 - que reuniu muitos milhares de pessoas na rua, para pedir o cumprimento da legislação anticongreganista.

A obra de Bombarda excede a mera intervenção política. Dedicado ao exercício da sua profissão, em que destacava, na clínica e no ensino. Em 1899 publicara A Consciência e o Livre Arbítrio, contra que polemiza o padre Manuel Fernandes de Santanna, professor do Colégio de Campolide, fazendo sair Questões de Biologia? O materialismo em face da Sciencia. Não demora que Miguel Bombarda replique contra o jesuíta: A Sciencia e o jesuitismo replica a um padre sábio. Não é ainda propaganda republicana, mas certamente que é propaganda anticlerical.

"Eu não vou responder ao fluxo incontinente que jorra da coroa d"um padre." Livro cujo fim é "fazer vulgarização do que são jesuítas e sobretudo do que é a sua moral". Acontecera anos antes de se filiar no Partido Republicano. Pode dizer-se que Miguel Bombarda chegou à República pelo anticlericalismo.

"A história da ciência é a história das cruentas lutas em que, na dor, na tortura, no martírio, a verdade foi mil vezes estrangulada pelos defensores ferozes e sanguinários do ideal católico." É uma obra de combate, em que acusa a Bíblia como "o terrível inimigo da libertação do pensamento". O arremesso é directo contra os adversários. Que naturalmente eram seus ferozes adversários. Intelectual vigoroso, Miguel Bombarda era, porém, um homem calmo, guardando a frieza mesmo nos momentos agónicos em que sobreviveu aos tiros que o abateram. Fez-se conduzir ao Hospital de São José. Fez entrega de documentos para a revolução que se preparava para daí a algumas horas. Morreu com insuportável sofrimento, depois de ter sido operado por Francisco Gentil e Augusto de Vasconcelos, seus colegas. "Façam a República, façam-na", ainda disse a Brito Camacho.

A notícia da sua morte nos placards de O Século, no Rossio, desencadeou fúrias, que provocaram a "montaria" a padres, acusados de culpas no assassinato do médico. Pelo povo republicanizado de Lisboa era tido como "o mais vigoroso inimigo da reacção clerical, e o seu assassinato não podia deixar de consistir n"uma vingança torpe dos jesuítas que o odiavam de morte". Assim diz Hermano Neves, que acrescenta: "O sentimento popular degenerou na sede de vingança, e ao começo da noite grupos excitados percorriam as ruas, clamando contra os jesuítas." Dois padres vêem-se atrapalhados no Rossio, um deles não escapando a ser mergulhado num dos tanques ornamentais. Além dos jesuítas, também culpas foram atribuídas à rainha D. Amélia, acusada de cúmplice do clero. Há vaias e apupos, e pedras atiradas contra a redacção de O Portugal, agressiva folha monárquica.

Se a notícia da morte de Bombarda logo se espalhou, o Partido Republicano e os seus dirigentes procuraram evitar que houvesse grande excitação em torno dela. Não convinha alertar o governo e as forças leais de que a revolução estava decidida para essa mesma noite. Os caudilhos republicanos evitam mostrar-se. Em vão. Teixeira de Sousa, o Presidente do Conselho, conta: "O silêncio que fui encontrar em volta do cadáver de Bombarda trouxe-me a suspeita de que, se a sua morte trágica não reunia ali os chefes republicanos, isso era devido a que estavam planeando graves acontecimentos." Não eram momentos de ódio ou de confrontos fatais. A serenidade estava instalada em ambos os lados. A uns a certeza de que as forças armadas defenderiam o regime, como haviam jurado, a outros a certeza de que a força popular ia mudar as instituições.

Morte misteriosa

A decisão de fazer a revolução a 4 de Outubro de 1910 deveu-se a Cândido dos Reis. Enquanto alguns tergiversavam, o seu chefe militar determinava que o levantamento seria à 1h desse dia. Dizia serem as condições mais favoráveis: avaliava a justeza do momento para a operação - a ordem de saída dos navios do Tejo apressava a explosão revolucionária. A marinha era o sector mais seguro com que os republicanos podiam contar e não se devia esperar. Assim o exigia também a pressão popular organizada na Carbonária. Cândido dos Reis era um marinheiro de prestígio - que ninguém na marinha igualava -, com notáveis qualidades de bravura, "calculada e fria", sabendo comandar homens. "Ele foi a alma de todo o movimento revolucionário", testemunhou Ladislau Parreira. Tanto mais importante quanto o essencial das forças militares se contava na armada.

Conforme projectado, Cândido dos Reis devia embarcar para um dos navios surtos no Tejo, a fim de comandar as operações. Tenta o embarque, mas foram avisá-lo - e fê-lo alguém em quem tinha confiança - de que tudo estava perdido, que a revolução falhara, que a sublevação dos regimentos não ocorrera. Cândido dos Reis afasta-se da beira-rio, sendo mais tarde encontrado morto numa azinhaga em Arroios. O suicídio quadra com o seu temperamento, que lhe impunha uma rígida conduta e a total assunção de responsabilidades. Não tinha a serenidade de Miguel Bombarda. Como ele próprio dissera a Machado Santos, "é possível que não nos tornemos a ver". Também não é impossível que tivesse sido atraiçoado e ao engano levado a afastar-se do Tejo e depois assassinado. A sua morte ficará sempre misteriosa.

Revolução tranquila

Cândido dos Reis não tinha obra publicada nem se metera em polémicas intelectuais para as quais não estaria preparado. Mas era também um anticlerical. Deve-se-lhe uma conferência realizada na benemérita Associação dos Lojistas de Lisboa e editada como propaganda antijesuítica pela Junta Liberal: As perseguições religiosas atravez da Historia. Proferida em 1910, terá publicação póstuma (talvez de 1911) que o vice-grão-mestre da Maçonaria dr. José de Castro prefaciará. Texto sem originalidade, que repete as habituais expressões e depreciações dos monarcas e da sua ligação com a religião: "Foi o inchado Salomão de Mafra, o lúbrico devoto de Odivelas, que mandou queimar o poeta cómico António José da Silva." Afonso VI e D. Maria I eram mentecaptos, Pedro II criatura duma incapacidade enciclopédica, em Portugal um terço da propriedade era da igreja e da fradalhada, safava-se o Marquês de Pombal, sabe-se porquê. Esse o estilo e o escopo em que o vice-almirante se revela curioso da história e um tanto conhecedor da sua evolução, mesmo se enviesando as interpretações.

Os dois chefes desapareciam. E foi mesmo a marinha que se revelou essencial para a luta armada pouco agressiva que se desenrolou em Lisboa em 4 e 5 de Outubro. Com o principal grupo revoltado na Rotunda da Avenida da Liberdade com comando de Machado Santos (comissário naval), e sem Cândido dos Reis para comandar as operações, acabou por ser o primeiro-tenente Ladislau Parreira a chefiar. E todos os navios - Adamastor, São Rafael e D. Carlos - ficaram com comandantes republicanos, Cabeçadas, Tito de Morais, Carlos da Maia. A ameaça de actuação da armada sobre o Quartel General (no Palácio Almada) fez apressar a rendição. Já não havia forças leais dispostas ao combate por uma monarquia de mais de setecentos anos cujo rei saíra para Mafra a caminho de Inglaterra. A revolução de 4/5 de Outubro de 1910 fez vítimas: entre 50 e 60 mortos e uns 700 feridos, muitos deles ligeiros. Como disse Afonso Costa a um jornalista espanhol, "foi uma revolução belíssima, quase incruenta. Portugal esperava-a e recebeu-a com os braços abertos, com a doce e tranquila emoção do filho que vê chegar a sua mãe".

O funeral nacional dos dois republicanos ilustres ocorreu no dia 16 de Outubro. Toda a Lisboa popular compareceu. De fora chegaramas associações republicanas. Da Câmara Municipal ao Alto de São João foi um estirado e sentido acompanhamento, com meia centena de bandas de música que tocavam A Portuguesa. A guarda de honra da marinha enquadrava os armões de artilharia onde seguiam os féretros. Ao funeral não faltou todo o Governo Provisório, encabeçado pelo seu Presidente (e Presidente da República) Teófilo Braga. Na Rotunda, lugar fulcral da revolução, falou António José de Almeida, o tribuno mais estimado da propaganda e agora ministro do Interior. "Manifestação imponente", reconhece o Conde de Mafra. Por todo o Portugal houve homenagens aos ilustres precursores, sendo os seus nomes postos em ruas e praças: que se mantiveram, um pouco por toda a parte.

Historiador

AmanhãO "dia inicial" da República, por Amadeu Carvalho Homem

Esta série tem o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República