Economistas consideram irrelevante necessidade de coligação

Soluções não são políticas mas de organização económica, dizem Vítor Bento, César das Neves e João Rodrigues

A importância e a urgência de um Governo de coligação que assegure a estabilidade governativa a médio prazo é desvalorizada pelos economistas Vítor Bento, João César das Neves e João Rodrigues, ouvidos pelo PÚBLICO. Vítor Bento é mesmo radical na forma como afasta a tese segundo a qual a solução para o país passa por arranjos governativos entre os dois principais partidos. "A "minha abordagem" do problema é mais "vista de Marte" e não acho relevante para a sua resolução o que se passa na espuma das actuais circunstâncias políticas (embora possa ser relevante para o seu agravamento)", afirma Vítor Bento em resposta enviada por mail.

Vítor Bento defende que "o contrato social tem de ser renegociado, porque o actual modelo é insustentável, já que o bolo que produz não cresce e senta cada vez mais comensais à mesa". E acrescenta que "não é preciso ser economista para perceber que as fatias vão ser cada vez menores e toda a gente vai ficar cada vez mais insatisfeita".

Como alternativa, o presidente do conselho de administração da SIBS (Sociedade Interbancária de Serviços) e conselheiro de Estado garante que "é necessário fazer crescer o bolo - o que implica aumentar muito a competitividade da economia e, entre outras coisas, flexibilizar muito mais as condições laborais e o funcionamento dos mercados protegidos e perceber que não é nas infra-estruturas que está o caminho". E sublinha ainda que "é necessário ter um escrutínio muito maior sobre os comensais que podem sentar-se à mesa". Ora, conclui Vítor Bento, "uma renegociação dessas é complicada e tem de envolver quer as principais forças políticas quer os parceiros sociais".

Também João César das Neves não acredita em coligações salvíficas. "Sinceramente, a questão do suporte parlamentar do Governo parece-me perfeitamente secundária neste momento. O essencial era o Governo apresentar uma estratégia sólida, equilibrada e realista, a médio prazo para o país", defende este economista, acrescentando: "Se fizesse isso com seriedade e elevação, penso que os partidos de oposição iriam apoiar, porque eles não querem eleições."

Este ex-assessor económico de um governo de Cavaco Silva lamenta que se assista a "uma abordagem improvisada, apressada, usando expedientes de curto prazo que não resolvem nada da situação de base e apenas prolongam as dificuldades". E destaca que "o mais curioso é que, apesar disso, a oposição não se oponha, o que prova que ela não quer mesmo precipitar uma crise política e prefere ter o Governo a sofrer o desgaste da crise".

Por seu lado, João Rodrigues considera que "esta conversa sobre engenharia política em torno de coligações enfraquece as escolhas democráticas" e lembra que "cabe aos eleitores decidirem", pois "as maiorias não se podem decretar". Este economista, doutorando em economia política na Universidade de Manchester, afirma também que "já existe uma convergência PS e PSD para permitir a governabilidade e ela vai durar até às eleições presidenciais". A prova é que o PS e o PSD "têm conseguido entender-se nos programas de austeridade e na política orçamental". E conclui: "Não me parece que coligações vão resolver o problema essencial. A solução "bloco central" é a continuidade de políticas que não resolvem as questões de fundo." S.J.A.

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