Campos e Cunha quer contar voto em branco na AR e "gela" PSD

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Ex-ministro de Sócrates propôs número de deputados variável Miguel Manso

Dia 1 das jornadas: Villaverde Cabral desafia a moção de censura e fica sem resposta. Ernâni Lopes sugeriu cortes de 20 por cento nos ordenados

Foi uma tarde sombria. Pelos discursos. Pelo pessimismo dos convidados do PSD para reflectir nas jornadas parlamentares sobre os bloqueios do país e a alternativa ao PS. Um dele, o antigo ministro Ernâni Lopes, chegou a gelar a sala com a proposta de redução de 15 a 20 por cento nos salários da função, incluindo os políticos. Campos e Cunha, o ex-ministro das Finanças de José Sócrates, falou de economia, mas também ele gelou a sala com a ideia de a Assembleia ter um número de deputados variável, tendo em conta o voto em branco, ou ainda o cálculo de ordenados dos políticos com base numa média do IRS, acrescida de 25 por cento.

Logo a abrir o debate ficou o desafio do sociólogo Manuel Villaverde Cabral de o PSD apresentar uma moção de censura. Ficou sem resposta da direcção, cuja estratégia é a contrária a essa. Ontem, Passos Coelho, que jantou com os deputados, evitou dizer o quer que fosse e remeteu para hoje tudo o que tiver a dizer. É ele que encerra as jornadas e prepara-se para anunciar propostas do PSD.

"Alternativa" era o tema central para a reunião dos deputados. Villaverde Cabral foi claro. Era uma moção de censura: "Obrigaria o PCP e o BE a salvar Sócrates." Aliás, diz o sociólogo, "está em curso uma aliança de esquerda a nível presidencial", com Manuel Alegre, e há "uma espécie de Bloco Central" na aprovação de medidas de austeridade, entre Sócrates e Passos. O argumento de que é preciso reconquistar a credibilidade externa é uma "desculpa de mau pagador". E duvida dos benefícios para o PSD, tendo em conta a vantagem "mínima" do PSD nas sondagens.

Seguiu-se o ex-ministro das Finanças Ernâni Lopes. Defendeu uma solução "à irlandesa", ou seja, com cortes de 15 a 20 por cento dos salários da função pública. "A cru. Sem explicar nada." O paralelo é com o impasse as Scut. Com tanta negociação "só vai pagar quem for parvo." O corte na despesa é "inexorável". Foi o que disse o economista e conselheiro de Estado Victor Bento - que avançou com números, sombrios. O problema do endividamento é grave e, estimou, só com um crescimento económico à volta dos sete por cento se poderia "travar o endividamento".

O mesmo tom foi o de Campos e Cunha. O antigo ministro até admitiu que o país pode chegar ao fim do ano com um crescimento positivo, mas há riscos. Da crise internacional, mas também de fenómenos como o dos rumores sobre o bcp Millenium. O problema da economia portuguesa continua a ser a competitividade. Ou a instabilidade das "políticas macroeconómicas".

Além da economia, Campos e Cunha tinha também ideias para as reformas do sistema político. Uma delas, o voto em branco contar, porque é "um voto consciente", e que quanto maior fosse, menos deputados fossem eleitos. Outra, que as direcções "pudessem designar" (sem ser eleitos) dois deputados para evitar o que aconteceu a Passos Coelho: como não é deputado, não pode entrar nos debates com o primeiro-ministro. Tudo ideias recebidas com um enorme silêncio pelo PSD.