Nem sempre o baptismo corre sobre rodas

Opel Ascona: um rubor lusitano
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Opel Ascona: um rubor lusitano

Muitos construtores adoptam apenas códigos alfanuméricos para baptizar os seus modelos. Temos o Audi A6 ou o BMW 316i, por exemplo. Mas outros, em busca de maior identificação com o público, torturam as meninges dos seus responsáveis à procura de belos nomes. Estas histórias nem sempre têm um final feliz. Por Luís Francisco

Há coisas que não se fazem. Por exemplo, oferecer um Buick La Crosse a uma jovem canadiana do Quebeque, ou um Mitsubishi Pajero a algum mancebo de Espanha. Está fora de questão. Não porque os veículos em causa não sejam, ou tenham sido, lídimos representantes do brio da indústria automóvel. Nada disso. Não se faz porque os construtores destas viaturas lhes deram nomes que têm conotações desagradáveis. É verdade: no mundo dos automóveis, nem sempre os baptismos correm sobre rodas.

É preciso contextualizar a coisa: na maioria dos casos, os trocadilhos ou tristes sinónimos acontecem porque, apesar de estudarem as línguas dos diversos países do mercado, os responsáveis das multinacionais não dominam expressões do calão ou a gíria de alguns locais. E é por isso que a jovem francófona do Quebeque e o mancebo de Espanha ficarão realmente embaraçados por se verem sentados a bordo de automóveis que, na gíria daquela região do Canadá e no calão castelhano, acabam por significar o mesmo: masturbador.

Não lembra ao diabo, mas não há português que não tenha reparado no desconforto de quem, há algumas décadas, se via forçado a declarar-se proprietário de um Opel Ascona. Pois se até o desodorizante se passou a chamar Rexina, por que razão se mantinha aquela, aquela... terminação? Bom, se calhar para evitar que a emenda se aproxime ou se mostre mesmo inferior ao soneto em termos de qualidade...

Em Espanha, o Mitsubishi passou a chamar-se Montero, significando esta alteração que o seu proprietário deixou de ser um fã do onanismo e se transformou num atleta sexual. Não há como não ver nisto um progresso, só que as sensibilidades mais finas continuarão a sentir-se molestadas. Já o La Crosse passou a chamar-se Allure na terra da Polícia Montada, mas esta ligação pode tornar-se incómoda porque parece que, em regiões da Mongólia, "a-llure" é a expressão para uma doença crónica que afecta o pêlo dos camelos.

O Toyota que chateava

A culpa há-de ser das pessoas, que vêem sexo em tudo. Ou talvez não haja culpados só de um lado. Sempre que podem, os grandes construtores dão uma ajuda nesta fixação pelas mais variadas declinações da necessidade instintiva de procriar. Não há grande volta a dar quando um mercado anglófono se depara com o Dodge Swinger, ou quando os consumidores latino-americanos enfrentam o cenário de se tornarem proprietários de um Mazda Laputa...

O nome deste foi eleito em homenagem a uma banda desenhada japonesa, dizem uns. Alude à ilha voadora de que falou Jonhatan Swift em As aventuras de Gulliver, contrapõem outros. Seja lá como for, do México a Portugal, de Cabo Verde às Honduras, de Espanha ao Brasil, só a profissão mais antiga do mundo parece ter sido homenageada pelo construtor japonês.

Mas os homens que baptizam os modelos nem sempre andam distraídos. Em Portugal, por exemplo, os Fiat Punto e Seicento versão Sporting perderam as últimas três letras. Ficaram Sport e ficaram muito bem. Porque três letras podem significar a diferença entre o sucesso e a catástrofe.

Em França, bastou um número. Quando saiu, o Toyota MR2 teve de perder o algarismo final. É que a sigla tinha tudo para se confundir com a expressão emmerdeur, que significa, basicamente, "chato", "complicativo", "quezilento", "empata". Na Alemanha, o processo teve de ser mais extenso: o Rolls-Royce Silver Mist passou a chamar-se Silver Shadow, porque, em alemão, mist! é uma interjeição que significa "merda!". Ou qualquer outra coisa do género - não vale a pena estarmos com preciosismos quando o assunto já cheira mal.

Onde os alemães foram bem-sucedidos, fracassaram os ibero-americanos: apesar de o seu nome significar claramente "não anda", o Chevrolet Nova manteve-se nos mercados centro e sul-americanos. Até parece ter sido bem-sucedido, mais piada, menos piada. E igual sorte teve o Ford Comet, chamado Caliente no México, onde o calão (sempre ele!) associa esta palavra ao apetite sexual.

Um carro chamado Gremlin

Já cá faltava o sexo... Mas, uma vez que voltámos ao assunto, que dizer do tremor de excitação que percorreu toda uma geração de portugueses, adolescentes nos quentes anos pós-25 de Abril de 74, ao saberem que há um protótipo da BMW chamado... Gina? No Brasil, o Ford Pinto também deu origem a piadas, uma vez que a efervescente linguística de Vera Cruz usa o nome do filho da galinha para designar o órgão sexual masculino. Passou a chamar-se Corcel.

Desengane-se quem vir nesta listagem de exemplos a prova de que os latinos são uns degenerados ou que os grandes capitalistas louros não se preocupam com a cultura dos países que não falam inglês. Para provar que a parvoíce pode ser universal a este nível, aí estão o Daihatsu Charade ou o Ford Aspire - este último um carro que não era grande coisa, pelo que os seus donos não escapavam à piadola fácil de que aspiravam a conduzir um dia qualquer coisa de melhorzinho.

O Renault Mégane tem um significado muito especial no Japão ("megane" quer dizer "óculos"), o VW Jetta soa vagamente a azar em Itália, o Nissan Moco deixa os espanhóis a pensar na limpeza nasal, o Ford Fiera lembra a alguns habitantes de países que falam castelhano velhotas de aparência física pouco recomendável.

E, como não podia deixar de ser, mais um tropeção de carácter sexual: o Honda Jazz começou por se chamar Fitta, palavra que, em alguns países escandinavos, serve para designar o órgão sexual feminino. Mudaram-lhe o nome, mas os mais atentos não deixam de lembrar que, na origem etimológica da palavra que denomina o género musical está uma expressão depreciativa que remete para o esperma.

Por outro lado, há casos em que nem mesmo um campeão da bonomia consegue dar o benefício da dúvida. O AMC Gremlin não faz sentido nenhum, seja lá onde for. E a KIA conseguiu chamar Besta a um modelo e Borrego a outro. Não há paciência! Já agora, sabiam que o Mitsubishi Starion era para se chamar, na realidade, Stallion (garanhão), mas foi um japonês a dar o recado?

(Esta é só anedota, mas fica bem na fotografia.)