Ascensão e queda da marca Cheyenne

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A Facontrofa subcontratava grande parte da produção nas redondezas PAULO RICCA

Grupo Paulo Serra & Irmãos e a Facontrofa foram declaradas insolventes e arrastam a marca que chegou a ter 25 lojas próprias

A Facontrofa poderia ser apenas mais uma empresa têxtil que está em processo de insolvência, mas é mais do que isso. Esta empresa comercializava a marca Cheyenne e chegou a ter uma rede de 25 lojas próprias, 23 em centros comerciais e duas de rua.

Essencialmente conhecida pelos jeans Cheyenne, a marca chegou a ser comercializada em vários países europeus, em lojas multimarca e, num número muito reduzido, em regime de franchising. Apesar de a marca não pertencer à Facontrofa, mas a uma sociedade do universo Paulo Serra & Irmãos, é muito pouco provável o seu regresso ao mercado.

Com a declaração de insolvência, em Maio, as lojas foram encerradas e a laboração na fábrica suspensa. Neste momento, o administrador de insolvência, Nuno Oliveira da Silva, propõe aos credores a liquidação do seu património, muito reduzido face aos créditos reclamados, que deverão atingir os 30 milhões de euros.

O prazo para a reclamação de créditos ainda não terminou, e há grandes credores, designadamente bancos, que ainda não reclamaram qualquer valor. Os créditos bancários sofreram alguma redução depois de o IAPMEI ter injectado perto de dois milhões no capital da sociedade, numa operação difícil de perceber (ver texto em caixa).

Criada em 1988, por vários sócios do Grupo Paulo Serra & Irmãos, também em processo de insolvência, a rede de lojas Cheyenne cresceu depressa e tinha planos ambiciosos de internacionalização, onde se incluíam o Dubai e o Qatar. Com uma unidade de produção reduzida - a que estavam afectos cerca de 50 trabalhadores, mais 250 da rede comercial -, a Facontrofa subcontratava grande parte da produção nas redondezas.

Como é que a empresa chega à situação de insolvência, requerida por um fornecedor? O relatório do administrador de insolvência, junto ao processo, responde a esta pergunta. Para além de factores externos à empresa, como a redução da procura, reflexo da crise nacional e internacional, e a falência de clientes estrangeiros, que geram incobráveis, há causas relacionados com má gestão da empresa. Entre os problemas apontados está "uma política de expansão da rede de lojas incompatível com a sua capacidade financeira, a ausência de rigor na gestão, que levou a que alguns sectores da sociedade insolvente estejam sobredimensionados e a uma estrutura organizacional pesada". São ainda apontados a "confusão nas relações entre empresas do grupo, nas quais se destacam a Paulo Serra & Irmãos, Lda e a Imobiliária das Pateiras, Lda", e o "conflito com o antigo sócio e gerente José Alexandre Serra Rodrigues".

O relatório do administrador de insolvência, a votar na assembleia de credores da próxima terça-feira, no tribunal de Famalicão, refere que o crescimento da Facontrofa "apoiou-se sobretudo na capacidade que tinha de se financiar junto de instituições bancárias e na capacidade que os seus sócios tinham de, a nível pessoal, garantir financiamentos". Destaca que a "abundância" de meios financeiros "não foi acompanhada de rigor na sua administração/utilização".

A saída do sócio e gerente José Serra, que o PÚBLICO tentou contactar sem sucesso, não foi pacífica. A nova equipa de gestão acusa a anterior de ter ocultado informação relevante.

Fundado antes da Facontrofa e com sócios comuns, o Grupo Paulo Serra & Irmão Lda, grossista de tecidos à peça, apresentou-se à insolvência, declarada também em Maio. A assembleia de credores está marcada para 19 de Julho, decorrendo ainda o prazo para reclamação de créditos.

Na Trofa, há várias famílias "Serra", algumas ligadas ao sector têxtil, mas em situação económica estável e sem ligação directa aos oito irmãos que estão associados às têxteis declaradas insolventes. Do grupo de oito irmãos, que inclui duas mulheres, Paulo Serra é o mais conhecido, pela actividade política, tendo estado na comissão instaladora do concelho da Trofa, e foi, nas últimas eleições, candidato à câmara pelo PP.