PCP vê as privatizações como "uma declaração de guerra"

É um cenário negro aquele que é traçado pelo secretário-geral do PCP caso o Governo concretize as privatizações previstas no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC). "Deixaria no final de 2013 o país numa situação bem pior do que aquela em que nos encontramos hoje", disse ontem Jerónimo de Sousa, acrescentando que o PEC é mesmo "uma declaração de guerra aos trabalhadores e ao povo português".

Jerónimo de Sousa falava na abertura de uma audição pública, que decorreu no Parlamento, de preparação para uma interpelação ao Governo sobre o assunto marcada pela bancada comunista para o próximo dia 6 de Maio.

O dirigente comunista lembra que o PEC prevê a privatização total ou parcial de 17 empresas do universo do Estado. Se algumas dessas privatizações se concretizassem "significariam pura e simplesmente o desaparecimento de algumas dessas empresas, o despedimento mais que certo de milhares de trabalhadores, a tomada pelo capital estrangeiro de novos sectores estratégicos, o aumento dos custos dos bens e serviços prestados às populações, o agravamento das assimetrias regionais e injustiças sociais", afirmou Jerónimo de Sousa. E avaliou que o Governo, com o apoio do PSD e do CDS, prevê "arrecadar seis mil milhões de euros em troca da delapidação" destas empresas, citando os CTT, a TAP, a ANA e a restante participação do Estado na REN, Galp e EDP, entre outras.

O dirigente comunista contraria um dos argumentos mais fortes dados pelo Governo para justificar as privatizações - o combate ao défice e abate da dívida pública. Mais de "100 privatizações" quando se provou - depois do processo iniciado em 1989 - que "não foi pelo facto de ter alienado as principais empresas públicas que o Estado reduziu a sua dívida pública", sustenta. Jerónimo fez uma antevisão negra do futuro com as lições que retira do passado. "Com as privatizações aumentou o domínio do capital estrangeiro na vida nacional, agravou-se a balança de pagamentos, perderam-se importantes elementos da soberania nacional, milhares de milhões de euros de riqueza (...) liquidaram-se directamente mais de 100 mil postos de trabalho", afirmou. E atribuiu as responsabilidades partilhadas por PS e PSD na "nomeação de conselhos de administração, uma pataca a mim, pataca a ti, às vezes com uns trocos para o CDS".