O clã Monteiro aprende a arte de ser outra pessoa

Comunidade cigana da Baralha, em Santa Maria da Feira, prepara-se para interpretar Romeu e Julieta no único festival de teatro de rua do país. O realizador Marco Martins coordena o projecto artístico, a actriz Beatriz Batarda ensina a improvisar. Uma história sem princípio, meio e fim, mas com final feliz. Por Sara Dias Oliveira (texto) e Paulo Pimenta (fotos)

América Garcias diz a frase num fôlego: "Sinto-me morta por dentro e agora vou para a morte." Depois do ponto final, pensa um pouco e corrige: "Não é assim. O que tenho de dizer ao Romeu é: "Sinto-me morta por dentro e para a morte vou". Assim é que é."

Cabelo longo apanhado numa trança, olhos verdes, América, de 17 anos, sorriso constante, nunca tinha ouvido falar de Romeu e Julieta. De Shakespeare, tão-pouco. "É uma história de amor que acaba mal. É uma história muito bonita, mas tenho vergonha de a fazer", confessa, sem saber explicar a razão. Nunca viu uma peça de teatro e agora aprende a ser Julieta. Como Cristiana Monteiro, de 20 anos, loura, olhos azuis, olhar tímido, filho no colo. "É preciso fazer muita coisa e acho que não tenho cabeça para isto." Prefere ser outra personagem. "Já fiz de mãe de Julieta e correu bem."

Sexta-feira, dia 13. Lava-se roupa à mão, varre-se o chão das cozinhas, as crianças brincam, há fumo a sair das chaminés das casas de chapa e de madeira - as mais coloridas pintadas de azul e cor-de-rosa - na comunidade cigana da Baralha, freguesia de Sanguedo, Santa Maria da Feira.

A actriz Beatriz Batarda prepara-se para mais uma tarde de sessões de expressão dramática, improvisação, leitura, exercícios clássicos. Ensina a 36 dos 70 elementos do clã Monteiro a arte de ser outra pessoa. "Há uma necessidade de perceberem o que estão a fazer. E temos um feedback de prazer: vão e voltam." As aulas são apenas para quem participa, não há lugar para estranhos.

Até Maio do próximo ano, o clã Monteiro concentra-se na história de Romeu e Julieta criada por Shakespeare. Aprende a arte de representar e improvisar, tenta decorar frases, abre as portas de casa e deixa-se filmar para os vídeos que farão parte de um espectáculo, interage com os criativos que chegam com missões específicas. O realizador Marco Martins coordena o processo.

Há várias Julietas e Romeus para a interpretação da peça que está a ser ajustada à realidade da comunidade da Baralha. Algumas frases do clássico da literatura, que nunca por ali tinham sido escutadas, cruzam-se com a linguagem do quotidiano, mas sem a mescla de português, espanhol e algumas palavras de romani que aqui se fala. Ao mesmo tempo, há uma máquina de filmar que se movimenta para documentar o empenho da comunidade no novo projecto e captar as histórias que são temas de conversa.

O resultado é apresentado no Imaginarius - Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira, em Maio, nas casas habitadas pelos ciganos e espaços exteriores.

Samaritana Soares, de 22 anos, morena, olhos e cabelos escuros, argolas nas orelhas, braços constantemente cruzados, espera por mais uma aula. "Não pareço nada a Julieta. Ela é muito linda, alta, magrinha, loura e branca", comenta. A preparação para ser o amor de Romeu começou e Samaritana garante que está preparada para o papel. "Já fiz muitas coisas sobre Julieta... quando Romeu foi à festa... e tanta coisa que já não me lembro." Conhecia a obra de Shakespeare? "Quem?"

António, de 10 anos, não quer perder nada do que anda a acontecer. E conta a história quase sem respirar. "A mulher toma o remédio de dormir e depois achava que estava morta, mas a mulher acorda e olha para baixo e vê que o homem estava morto também, pega numa faca e pum." Esse pum é acompanhado por um gesto em direcção à barriga.

Ao início da tarde, António Monteiro, de 19 anos, dá uma ajuda na obra da única casa de pedra e cal. Não se lembra de nenhuma deixa, confessa que o tempo não é muito para estudar as frases de Romeu. "Sei que tenho de falar com a Julieta, pedi-la em casamento e fugir com ela." A experiência? "Está a ser boa, mas às vezes não dá muito jeito porque tenho de ajudar o trolha", responde com um olhar fugidio.

O projecto está no início e não se resume à interpretação da história de Shakespeare, de que ninguém da Baralha tinha ouvido falar. Na próxima edição do Imaginarius, as casas da terra são o palco para a apresentação de vídeos e curtas cenas assumidas pelas julietas e pelos romeus. De 27 a 29 de Maio de 2010, há um work in progress condensado que resulta de meses de trabalho, cumplicidades, experiências. Gonçalo Waddington, Dinarte Branco já aqui estiveram e vão voltar. Clara Andermatt, Filipa César, André Príncipe, João Salavisa, Alexandre Estrela, Tiago Rodrigues e João Pinto Custódio estão a chegar.

"Mato o Mercúrio"

É domingo e ouve-se música cigana quando se passa pelo meio das casas. A chuva não pára e altera o plano das filmagens. As nuvens afastam-se um bocadinho e passa-se para o exterior. Dois amigos convencem Romeu a ir a uma festa para esquecer Rosalina, a namorada que não lhe presta atenção. É preciso argumentar. Beatriz Batarda faz um ensaio e à segunda filmagem há parabéns. Augusto Monteiro, de 23 anos, é Romeu. Não conhecia a história, mas tem-se preparado como deve ser. "Tenho ensaiado muitas vezes. Li duas ou três vezes os textos que me deram, do livro da história." António, de 20 anos, é o padre, o frei Lourenço, e repete a frase que diz a Romeu: "Vocês amam com os olhos e não com o coração."

O ensaio corre bem. Linguagem actual, com poucas frases de Shakespeare. Filipe Monteiro, de 14 anos, é o primo de Julieta. "Mato o Mercúrio e o Romeu mata-me depois." Filipe culpa a chuva pelos pormenores que não correram tão bem. O céu não dá tréguas e a equipa começa a mudar o equipamento para o interior de uma das casas. A chuva continua a cair sem pedir licença.

Patrícia tem 14 anos e é a Julieta mais nova. Prepara-se para ser filmada na cena em que diz à ama que é muito nova para se casar, depois de saber que lhe escolheram um noivo. A família assiste no sofá da casa com panelas e tachos a reluzir e cobertores dobrados e alinhados ao milímetro. Há muita cor nesse compartimento de sala, cozinha e quarto, aquecido por um fogão a lenha. Marco Martins e Beatriz Batarda dão as últimas indicações e é hora de os estranhos se retirarem. "Contaram-nos a história e aprendi o que não sabia", adianta Patrícia, antes da gravação. "Ainda estamos a aprender e está a ser um espectáculo. Mas esta história vai terminar de outra maneira, com alegrias, com paz, à nossa maneira", desvenda.

Constância é a matriarca das 17 famílias da Baralha. O marido está doente, ela trata das lides domésticas e durante os trabalhos mal se vê fora da porta. "É um teatro que estão a fazer, do Romeu e Julieta." Sabe o que se passa. Viu o filme que foi projectado em Outubro e gostou. "É uma história muito linda e triste porque o Romeu morre e a Julieta mata-se." Olhos azuis intensos, cabelos brancos amarrados numa trança, impõe respeito. "Não tenho tempo para participar, isso é para as mais novas", comenta. "Andam todos animados e podem andar à vontade porque é tudo para nosso bem", diz, 63 anos no bilhete de identidade e 68 no corpo.

O projecto é uma produção do Centro de Assistência Social à Terceira Idade e Infância de Sanguedo (CASTIIS) e do Centro de Criação para o Teatro e Artes de Rua (CCTAR), responsável pela direcção artística do Imaginarius. "Não estamos a montar a peça Romeu e Julieta", avisa Marco Martins. Há um trabalho pedagógico que envolve expressão dramática, dança, vídeo e música. Preparam-se momentos performativos, filmam-se vídeos de partes da história, conversas com os moradores, as histórias dos jovens casais que se apaixonaram e fugiram até as famílias irem buscá-los, como manda a tradição cigana. "Será um espectáculo muito fragmentado, em que se cruzam vídeos documentais com momentos performativos." Como uma instalação, onde não há princípio, meio e fim. "O lado social sobrepõe-se sempre ao próprio espectáculo."

"Adorei o nome Baralha: define bem este sítio." Antes de dizer sim, o realizador conheceu a comunidade, viu vários locais para a apresentação da peça e concluiu que o melhor era não sair daqui. Os artistas que participam podem entrar ou não na peça. Fica ao critério de cada um. Beatriz Batarda poderá fazer um monólogo sobre a sua experiência na Baralha.

É a primeira vez que a actriz trabalha com uma comunidade cigana. "É uma vivência que me é nova, que me desperta muita curiosidade", admite. No terreno, é como gerir "qualquer outra circunstância pedagógica". Beatriz Batarda chegou há três dias e distribui beijos às jovens, carinhos aos mais pequenos, apertos de mãos aos homens. Chama pelos nomes, vai à procura de alguém para uma cena, bate às portas das casas. Já contou a história para que os "actores" se apropriem das características e consigam improvisar. "Há uma enorme curiosidade e dificuldades de timidez que passam pela vergonha. Mas é uma história com que se relacionam com bastante facilidade."

O teatro aparece na Baralha como uma introspecção. "O teatro como instrumento de conhecimento de si próprios e dos outros", explica Renzo Barsotti, do CCTAR. "Há a preocupação que o projecto sirva as duas comunidades: a comunidade cigana e a nossa e que não seja uma coisa demasiado folclorística." Uma aproximação pelo lado artístico. "É importante que este projecto também sirva aos criativos como uma matéria de trabalho, de investigação da cultura cigana."

Cenários de sucata

A comunidade cigana fixou-se na Baralha há mais de 10 anos. Desde então é acompanhada pelo CASTIIS, que há quase quatro anos tem no terreno o Desalojar a Exclusão. Um projecto de integração dos mais pequenos na escola, com vários workshops à mistura, onde nasceu a curta-metragem de animação Carro Preto, Carro Branco, que conquistou uma menção honrosa no Cinanima - Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho do ano passado. Os cenários foram feitos com restos de lixo de sucata.

Foi criada uma cooperativa de habitação, instalado um prefabricado com balneários, que serve de espaço para as oficinas e, neste momento, para as aulas de interpretação, reuniões, ensaios e filmagens. Os ciganos da Baralha estão integrados. Vivem da recolha e venda de sucata e do negócio de cavalos. As crianças vão à escola. E o novo projecto não foge do trabalho feito até aqui. "Pretendemos desenvolver uma dinâmica cultural que envolva toda a comunidade", diz Nuno Oliveira, sociólogo do CASTIIS. Pensou-se "na ideia do casamento maldito" e no clássico da literatura que melhor se adaptasse a uma realidade próxima da comunidade. "E tem sido extremamente positivo".