Claudio Magris entre a guerra e a paz

Foto
Claudio Magris

O escritor italiano recebeu ontem na Feira do Livro de Frankfurt o Prémio da Paz dos editores alemães

Claudio Magris recebeu ontem o Prémio da Paz dos editores alemães no valor de 25 mil euros e que todos os anos é entregue no último dia da Feira do Livro de Frankfurt. O escritor italiano, de 70 anos, no discurso que fez na cerimónia que decorreu na Paulskirche, em Frankfurt, afirmou que "mesmo quando há uma guerra, ninguém fala dela. Mesmo quando as bombas estão a cair, ninguém explica porquê".

0 autor deDanúbio(Dom Quixote),Ilações sobre um Sabre(Difel) eUm Outro Mar (Asa) referia-se aos bombardeamentos de Belgrado e da Sérvia pela NATO, em 1999, e à forma como na altura esse conflito foi relatado pelos jornais. "Este medo de olharmos arealidade nos olhos - neste caso, o me-do de vermos que uma guerra esta-va a acontecer à nossa frente - só faz com que o horror que queremos afastar se espalhe ainda mais, como se fosse um cancro que um doente prefere ignorar."

"Mesmo se a maioria dos europeus tenham tido a sorte de não pagar com as suas vidas, a Terceira Guerra Mundial já começou. Desde 1945, a guerra matou cerca de 20 milhões de pessoas, e, ao contrário do que aconteceu com os mortos da Segunda Guerra Mundial, estes factos permaneceram quase desconhecidos."

No seu discurso, o ensaísta, germanista, crítico e escritor começou por falar de um Diego de Henriquez, professor excêntrico que dedicou a sua vida a recolher material de guerra porque tinha o sonho de fundar "um museu histórico da guerra ao serviço da paz" em Trieste, Itália, cidade onde Magris nasceu. Essa exposição universal da guerra seria tão impressionante que acabaria de uma vez por todas com a ideia da guerra no coração dos homens. Este professor, contou Magris, acabou por morrer misteriosamente durante um incêndio nesse museu, mas o escritor nunca o esqueceu.

"Tudo conspira para nos convencer que a guerra é necessária e que nos temos que resignar a ela", disse. Para ele não é coincidência que a literatura ocidental tenha começado com um poema como A Ilíadae queMahabharataeO Velho Testamento também sejam livros sobre a guerra.

"Como alguém que ama a Itália, só posso esperar que o meu país - que continua a ser uma terra mágica - não volte a tornar-se pioneiro no mau sentido outra vez", disse o escritor, acrescentando que é preciso não esquecer que foi a Itália que inventou o fascismo europeu.

"O novo populismo - que hoje se pode encontrar em diversos graus por toda a Europa - cria democracias sem democracia, como já disse um historiador. Trata-se de um grande perigo para a democracia e para a paz. Mesmo que não tenha nada a ver com o fascismo tradicional, qualquer ameaça à democracia é uma ameaça à paz", afirmou.

A Feira do Livro de Frankfurt, queeste ano teve a China como país con-vidado, terminou ontem com uma grande quebra no número de visitantes (até sábado contavam-se menos nove mil do que em 2008). No próximo ano, a Argentina será o país convidado.