Um crime do Estado Novo esquecido há 45 anos

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Muitos dos habitantes de Lourosa não querem reavivar o que viveram há 45 anos

A Igreja queria transferir o jovem padre de Lourosa. As mulheres da terra não deixaram. No dia 14 de Outubro de 1964, centenas de GNR cercaram a aldeia, mataram duas jovens e feriram mais 20

Pelas 11h00 da manhã do dia 14 de Outubro de 1964, centenas de soldados da GNR - há quem garanta que eram mais de mil -, muitos deles armados com metralhadoras, cercaram a aldeia de Lourosa, no concelho de Santa Maria da Feira. Traziam consigo várias ambulâncias, indicando que se preparavam para um confronto potencialmente violento.

Que ameaça representava a pequena povoação de Lourosa, já então conhecida pelas suas fábricas corticeiras, para que o regime tenha montado uma tão gigantesca operação repressiva? Na verdade, nenhuma. A população desejava simplesmente conservar o seu padre, que a hierarquia da Igreja pretendia transferir. Durante algumas semanas, as mulheres de Lourosa organizaram uma vigília permanente, 24 sobre 24 horas, para garantir que ninguém lhes levava o seu pároco. Faziam turnos, com a conivência dos patrões das fábricas, que as deixavam largar o trabalho, e do próprio presidente da junta de freguesia.

Tudo começara no ano anterior, quando o jovem padre Damião, de 26 anos, viera para Lourosa coadjuvar o velho sacerdote da freguesia, Benjamim. Com a morte deste último, em Junho de 1964, Damião assumiu a paróquia, para contentamento da população, que gostava deste padre que visitava as fábricas e só cobrava honorários por baptizados, casamentos ou missas fúnebres a quem tinha meios para os pagar.

Um dia, por meados de Setembro, chega a Lourosa a notícia de que o administrador apostólico do Porto, Florentino de Andrade Sousa, que substituía o então exilado bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, ordenara a transferência de Damião. A população não se conforma. Começa então um braço-de-ferro com as autoridades eclesiásticas, que irá ter um desfecho sangrento a 14 de Outubro, no mesmo dia em que Martin Luther King, de quem poucos habitantes de Lourosa teriam então ouvido falar, recebia o Nobel da Paz.

Por motivos difíceis de explicar, o país nunca soube desta matança, nem sequer depois do 25 de Abril de 1974. E os testemunhos dos poucos que, em Lourosa, se dispõem agora a recordar os acontecimentos nem sempre concordam nos detalhes. Mas não restam dúvidas de que a GNR matou duas mulheres, nenhuma delas, aliás, envolvida na vigília, e que baleou mais umas 20, que seriam depois transportadas para os hospitais do Porto.

Margarida Santos, uma das alvejadas, passou três meses no Hospital de S. João. Conta que saiu à rua por curiosidade, a ver o que se passava, e que foi apanhada pelo tiroteio da GNR. Assistida pelo marido, que a acompanhava, foi depois transportada para o Porto e conseguiu sobreviver. Ainda teve tempo de ver tombar perto de si a sua conterrânea Maria de Lurdes de Oliveira, de 17 anos, que teve menos sorte e foi mortalmente atingida. Caiu junto a umas alminhas, onde ainda hoje algumas pessoas da terra, a cada 14 de Outubro, vão colocar velas e rezar.

A algumas centenas de metros, noutro dos muitos caminhos que iam dar à igreja, todos eles barrados pela GNR, Rosa Vilar da Silva regressava a casa, vinda do trabalho. Foi alvejada na cabeça e teve morte imediata. Faria 21 anos no mês seguinte e estava grávida. "A Rosa despegava às 11 e vinha todos os dias a casa fazer o comer", diz Maria Alice Cosme, hoje com 76 anos, garantindo que a vítima "nem sequer estava metida na vigília". Em 1945, tal como em 2009, o dia 14 de Outubro calhou a uma quarta-feira. Rosa ia casar-se no sábado seguinte.

O tiroteio, que se estendeu por toda a aldeia, durou duas ou três horas, até que, finalmente, a GNR partiu, levando consigo o padre. "Havia muita gente ferida, a tirar balas dos braços, da barriga", recorda Maria Alice. Uma bomba adormecida

Reconstituir com algum detalhe os acontecimentos do dia 14 de Outubro não é fácil. A imprensa daépoca não pôde noticiar o assunto e muitos dos habitantes de Lourosa que testemunharam a matança não querem reavivar, 45 anos depois, um episódio doloroso e que se esforçaram por enterrar. Acresce que praticamente ninguém terá tido uma perspectiva global do que estava a passar-se: cada um assistiu apenas ao que ocorreu no local onde se encontrava nessa manhã.

Mas Américo Teixeira, da associação cultural Amigos da Encosta d"Além, está determinado a reconstituir opuzzle e, com o auxílio de Rosa Silva - que chegou a estagiar no PÚBLICO, em 1992, e nunca se libertou totalmente, segundo ela própria diz, "do bichinho do jornalismo" -, tem vindo a recolher depoimentos gravados, que tenciona deixar "para memória futura". E estão ambos a organizar uma sessão pública, que terá lugar na próxima sexta-feira à noite, convidando os seus conterrâneos que viveram o 14 de Outubro a comparecer e a deixar o seu testemunho.

Até ontem, ainda não havia muitas presenças confirmadas. "As pessoas têm uma atitude muito fechada", explica Rosa Silva, que só há quatro anos regressou à sua terra natal. "Levaram uma vida dura, de fome, de muito trabalho, e, tantos anos depois, quando lhes aparece alguém a fazer perguntas, dizem que não guardam rancor e que não querem falar do passado." E mesmo as que aceitam prestar declarações para um gravador nem sempre querem dar o nome e recusam-se a contar em público a sua versão da história.

Tanto Américo Teixeira como Rosa Silva admitem que "é uma incógnita" o que poderá vir a passar-se na sessão de sexta-feira, intitulada "Lourosa - onde pára a nossa história? 14 de Outubro de 1964: Damião é nosso". Mas não é tanto o facto de poder não aparecer muita gente que preocupa Américo Teixeira. Militante do PSD e homem ligado ao futebol, tinha 13 anos em 1964 e sabe como a sua geração e a dos seus pais ficaram marcadas por esse episódio a que, em Lourosa, todos chamam, simplesmente, "o 14 de Outubro". Para usar a sua expressão, o que o inquieta é saber que poderá ser co-responsável por "fazer estourar uma bomba". Adormecida há meio século, mas não necessariamente desactivada.

Ele próprio é a prova de que o assunto ainda mexe com as emoções das pessoas. Quando começou a contar ao P2 aquilo a que ele próprio assistiu e o que depois foi sabendo por outras pessoas, fê-lo sem nenhuma carga dramática, e até ia pontuando a narrativa com algumas histórias do anedotário local. Mas, de repente, a voz embargou-se-lhe, os olhos embaciaram-se-lhe e, durante algum tempo, foi incapaz de prosseguir. Só conseguia dizer "porra", mostrando que era o primeiro a surpreender-se com a sua súbita comoção. A seu lado, Rosa Silva garantia que muitas das pessoas com quem conversara nos últimos dias tiveram reacções semelhantes. "Parece que nunca se falou nisto", diz. "É uma espécie de terapia de grupo." Ordem para matar

Na manhã de 14 de Outubro, Américo vinha a descer o caminho do Calvário, que ia ter ao largo da igreja. Dirigia-se à sociedade columbófila de Lourosa, cujo bar era gerido por um seu irmão. O pai de ambos também lá estava, a dar uma ajuda ao filho. A associação ficava em frente à igreja e tinha paredes meias com o Café Central, que ainda hoje existe, mas que, na época, tinha um grande pátio à entrada.

Depois de ter estado algumas semanas no centro paroquial, guardado pelas mulheres da terra, o padre Damião tinha-se instalado, uns dias antes, na casa de uma senhora da aldeia, D. Altamira, que morava por cima do dito Café Central. A vigília mudara-se, pois, para o pátio do café.

Todo o dia e toda a noite, mantinha-se ali um grupo de mulheres, a quem a população trazia alimentos e bebidas. Quando havia alguma novidade a dar aos habitantes, ou se aparecia algum desconhecido a rondar nas imediações, os sinos da igreja tocavam a rebate e todas as operárias saíam das fábricas e acorriam ao local da vigília.

Américo vinha mandado pela mãe, que, ao ver passar o contingente da GNR em camiões militares, receou que o marido pudesse ter alguma reacção impensada. Mas, ao aproximar-se do largo da povoação, o rapaz encontrou, a tapar-lhe o caminho, "uns 20 ou 30 guardas, com grandes capacetes e armas aperradas". Como não podia passar, atravessou uns silvados e entrou pelas traseiras da casa onde o pai se encontrava. Este enfiou-o numa caixa, e foi dentro dela, sem poder assistir a nada - mas ouvindo "um grande tiroteio" -, que Américo viveu o seu 14 de Outubro. Quando finalmente as coisas se acalmaram e pôde sair, ainda viu, estendida no chão, Rosa Vilar da Silva, que fora alvejada ali perto. Não sabia ainda que Lurdes de Oliveira, filha de um primo do seu pai, tivera a mesma sorte.

Américo diz que a primeira coisa que a GNR fez foi deitar a mão ao homem encarregado de tocar os sinos, e congratula-se por isso, já que, doutro modo, centenas de operárias teriam saído das fábricas e a catástrofe poderia ter sido muito mais grave. Também nunca ouviu dizer que as mulheres tenham esboçado qualquer resistência, e está convencido de que não existia a menor motivação política por trás do movimento. Damião era um padre com uma atitude democrática, mas não constava que fosse do reviralho, como então se dizia.

Uma das mulheres que foram feridas no tiroteio, D. Dorinda, contou a Rosa Silva uma história um pouco diferente. Tinha 14 anos e, tal como Américo, já trabalhava na cortiça. Diz que ouviu tocar os sinos e que, por isso mesmo, saiu com as restantes trabalhadoras para ver o que se passava. Também elas encontraram a GNR a tapar o caminho e, ao que afirma, algumas mulheres atiraram-lhes pedras. Um dos guardas ausentou-se então para telefonar a pedir ordens, e, passado uns momentos, a população foi avisada de que, a partir daquele momento, os soldados atirariam a matar. Atingiram de imediato uma mulher nas pernas e impediram que lhe fosse prestado auxílio. Seguiu-se uma rajada de tiros e Dorinda foi apanhada pelo ricochete de uma bala, tendo acabado por ser assistida numa ambulância que já se encontrava no local.

"O povo vai-se borrar"

Há também versões diferentes sobre a posição assumida pelo próprio padre Damião. Uns dizem que o padre tentou convencer a população a deixá-lo partir, garantindo que procuraria persuadir os seus superiores a permitir-lhe que voltasse. Mas, segundo Alice Cosme, Damião terá indirectamente contribuído para o movimento que se formou, ao, alegadamente, ter dito na missa que, "se as mulheres de Lourosa quisessem, ele não iria embora". Damião, actualmente pároco em Agrela, ainda é vivo e o seu testemunho poderia ser muito esclarecedor, mas o P2 não conseguiu contactá-lo e, ao que parece, terá dito a algumas pessoas de Lourosa com as quais ainda mantém contacto que não quer falar sobre o caso.

Hoje com idade muito avançada, está também vivo aquele que era, na época, o seu superior directo, o padre Julião Pires Valente, vigário de Paços de Brandão, que, nos dias imediatamente anteriores à tragédia, tentou falar com Damião na casa onde este se encontrava. Numa breve declaração a Rosa Silva, confirma a tentativa, mas diz que não chegou a sair do carro, porque se sentiu ameaçado - as mulheres batiam-lhe com os guarda-chuvas no tejadilho -, e que se limitou a informar da situação o bispo do Porto.

Enquanto durou a vigília, os habitantes de Lourosa foram várias vezes avisados de que estavam a pisar o risco e que poderiam sofrer consequências desagradáveis. Veiga de Macedo, que fora ministro das Corporações de Salazar e era natural da região, dava-se com vários industriais de Lourosa e, segundo Américo Teixeira, terá dito a alguns deles: "Olhai o que fazeis, que isto já cheira mal, já estais assinalados a vermelho como uma aldeia problemática."

E, segundo conta Alice Cosme, uma embaixada de lourosenses que, na véspera da tragédia, fora recebida pelo vigário de Paços Brandão, regressara à terra com uma mensagem tão breve quanto inquietante. O padre Julião ter-se-ia limitado a assegurar: "Amanhã, o povo de Lourosa vai-se borrar pelas pernas abaixo."

Fora já este mesmo padre Julião que, mal se formara o movimento contra a transferência de Damião, requerera a intervenção das autoridades, segundo se depreende de uma nota que o Governo Civil de Aveiro fez publicar n"O Comércio do Porto, a 17 de Outubro: "A autoridade concelhia foi desde logo posta ao corrente dos acontecimentos pelo reverendo vigário do concelho, que solicitou a necessária intervenção policial." A nota adianta que, "depois do último convite à boa razão, a GNR procedeu à libertação do reverendo padre", e lamenta que, para responder "aos diversos ataques e às pedradas da população enfurecida", tenha tido de disparar "alguns tiros para o ar" e que, "na luta", tenham "aparecido duas mulheres gravemente feridas que, lamentavelmente, vieram a falecer".

Sujeita a censura, a imprensa não pôde dar outra versão dos acontecimentos, mas a história correu, tendo mesmo chegado às comunidades de emigrantes lourosenses no Brasil e na Venezuela. Já em Novembro, oCorreio da Feirapublicou uma pequena nota intitulada "Explicação", dando conta de que o jornal tinha recebido muitas cartas e telefonemas de "amigos e assinantes" de Lourosa, e também dos "filhos de Lourosa" no estrangeiro, estranhando que não tivesse sido feita "qualquer referência ao que de anormal ali ocorreu recentemente". OCorreio da Feira garante que "sente profundamente o que ocorreu", mas sem a menor referência concreta à ocorrência em causa.

A aldeia dos "terroristas"

Houve, no entanto, um jornal que contou o essencial da história, embora não tenham sido provavelmente muitos os lourosenses que o leram. No seu número de Novembro de 1964, oAvante!clandestino inclui um artigo, com o título "Um crime premeditado", que abre assim: "Como é já do conhecimento geral, no passado dia 16 [a data correcta é 14], a vila da Lourosa foi atingida pela fúria do governo salazarista. O sangue inocente de duas mulheres e uma criança [possível alusão à gravidez de Rosa Vilar da Silva] e, segundo se afirma, de mais duas pessoas, e ainda de cerca de duas dezenas de feridos, alguns dos quais gravemente, correu nas ruas da laboriosa vila do concelho de Vila da Feira." E o texto prossegue: "Porquê tão nefando crime? Simplesmente porque a população desejava que lhe deixassem o padre da freguesia, que, em vez de transformar a paróquia em centro de exploração, se esforçava por ajudar os mais necessitados." OAvante! termina apelando à população de Lourosa que se mantenha unida "para exigir o castigo dos criminosos e para que sejam concedidas indemnizações às famílias das vítimas".

É natural que o PCP tenha divulgado um episódio que embaraçava o regime. Mas era uma luta de motivações religiosas e na qual não tinha tido qualquer influência, de modo que a imprensa do partido não voltou a referir o assunto, nem procurou transformar as duas vítimas mortais em mártires do fascismo.

No entanto, se ignorarmos a repressão nas colónias, foi um dos crimes mais bárbaros e despropositados do Estado Novo. O historiador Fernando Rosas, especialista no período, diz que, embora fossem frequentes os incidentes em que as populações resistiam à transferência de padres, não recorda nada com a dimensão deste caso de Lourosa, que desconhecia.

Mas, apesar de reconhecer a singularidade do episódio, e sublinhe o facto invulgar de ter sido a Igreja a solicitar a intervenção policial, lembra que se viviam então "anos de chumbo" e que se trata de "um período de grande repressão", que inclui "o assassinato de Humberto Delgado, o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores e a prisão de muitos estudantes, que, pela primeira vez, começam a ser torturados na cadeia".

Que os lourosenses, depois da repressão brutal de 14 de Outubro, se tenham calado, não surpreende. O que é bastante mais estranho é que, logo após o 25 de Abril, quando toda a gente recordava os crimes do salazarismo, a história tenha permanecido por contar. Há várias explicações possíveis: os anos que tinham decorrido, o facto de muitos protagonistas ainda estarem vivos - incluindo, porventura, os guardas que dispararam as armas que mataram Rosa e Lurdes -, ou mesmo o facto de Lourosa ter tido, durante o PREC, uma sucessão de padres "esquerdistas", que a população aceitou muito mal e dos quais pode ter querido esconder um episódio que, de algum modo, legitimaria o radicalismo ideológico que alegadamente levavam para o púlpito.

Em 1989, o lourosense José Lima editou um pequeno opúsculo, de tom assumidamente panfletário, no qual narra o essencial do que se passou a 14 de Outubro, mas o texto quase não teve divulgação, e mesmo na actual cidade de Lourosa serão poucos os que alguma vez o leram.

Alice Cosme diz que, muitos anos depois dos acontecimentos de 1964, os habitantes tinham ainda fama de "terroristas" e eram olhados de revés pelas populações das freguesias vizinhas. "Quando havia futebol em Lamas, os polícias que iam vigiar o jogo tinham de passar por aqui e, quando chegavam, como eram poucos, mantinham sempre as espingardas apontadas, com medo do povo."