Portugal 1969, um lugar estranho

o Verão de 1969, havia 390 mil televisões em Portugal, mas nenhuma em minha casa. Era uma "recusa militante", não um acaso qualquer. O meu pai, que tinha 27 anos, uma filha recém-nascida - eu - e pensamentos proibidos, não queria "informação governamental intoxicante na sala". Não sei se, à conta disso, ele alguma vez viu Vitorino Nemésio no Se Bem Me Lembro, o Zip-Zip ou as Conversas em Família, que Marcello Caetano começou em Janeiro desse ano "para conversar directamente com as pessoas, sem formalismos nem solenidades".
A 20 de Julho, o dia em que o homem pisou a Lua pela primeira vez, soube-se ao jantar que a cápsula Eagle já tinha alunado - mas seis horas antes de Armstrong sair e dizer a frase célebre - e por isso houve tempo para organizar uma sessão na casa de um amigo do prédio. O "espanto" - uma palavra daquela geração - foi pela "capacidade técnica e pela resistência do homem". O "gozo", do mesmo dicionário dos anos 1960, foi sobre os "comentários do cientista Varela Cid, professor de aerodinâmica do Instituto Superior Técnico, que eu ouvi na rádio dizer que o bip-bip do Sputnik era pura invenção da propaganda soviética e que era impossível lançar no espaço um satélite artificial" (sim, é o meu pai a falar). Ele também se lembra de todos terem ficado preocupados com "o Aldrin, que a certa altura deu um salto na Lua" - "e os nossos corações ficaram apertadinhos de medo".
Portugal, em 1969, era um país com medo, mas por outras razões. E era sobretudo um lugar estranho. Mais de 30 por cento da população não sabia ler nem escrever, Simone cantava a Desfolhada (incluindo o verso "quem faz um filho, fá-lo por gosto", que a censura deixou passar) e Georgina Henriques foi eleita a Mulher Ideal Portuguesa no concurso do Clube das Donas de Casa. Já havia doping no ciclismo e já havia Porfírios na Baixa de Lisboa, que trazia roupas de Londres e se tornou depois a loja da minha adolescência, e, "embora clandestinos e perseguidos, havia partidos e correntes políticas", diz Luís Sá em Eleições e Igualdade de Oportunidades (Caminho, 1992). A ponte da Arrábida, no Porto, e a do Tejo, em Lisboa, eram novinhas em folha e o diário A Capital acabara de nascer. Lisboa tinha 70 mil pessoas a viver em barracas e 40 por cento das casas portuguesas não tinham casa de banho nem electricidade. Quando entrei na escola primária e fui para um colégio na Avenida Gago Coutinho, que une o aeroporto ao Areeiro, passei a ir todos os dias ao Cambodja, um bairro de lata onde hoje está a Bela Vista. Íamos de carrinha buscar a Fernanda, que morava num improviso de zinco e tábuas e a quem o colégio oferecia a educação.
Em Julho de 1969 - quando o homem chegou à Lua e eu cheguei ao mundo - Salazar era apenas um corpo presente num regime em agonia. Onze meses antes, segundo a versão mais popular, a cadeira de lona onde ele estava sentado desmanchara-se, atirando o velho ditador para o chão, desamparado. Certo é que a sua escrita estava agora ilegível e ele era um homem apático "com dificuldade em movimentar os membros direitos", escreve Joaquim Vieira em Portugal, Século XX. Crónica em Imagens (Círculo de Leitores, 2000). Só no início do ano é que teve alta do hospital e quando veio à janela, em São Bento, para se mostrar, foi uma farsa mal disfarçada. Basta olhar para a fotografia e percebe-se imediatamente que ele está em pé apenas porque uma enfermeira e um assistente o estão a segurar - e com tanta força que
o casaco de Salazar está todo engelhado e puxado para cima.
Estávamos no oitavo ano de guerra em África, com três frentes abertas e num "esforço extraordinário", escreve Vieira, um esforço cinco vezes superior em percentagem ao dos americanos no Vietname. Em 1969, havia 160 mil soldados em África, 21 por cento de refractários e metade do Orçamento do Estado era gasto na guerra.
Em Nova Iorque, um mês antes de Armstrong e Aldrin pisarem a Lua, o Comité de Descolonização da ONU condenara a política do regime nas colónias (com 96 votos contra Portugal e apenas 13 a favor) e a UNESCO acabara também de suspender toda a ajuda a Lisboa em protesto contra "a política de dominação colonial e discriminação racial" do regime. Nas praias, as crianças pediam "cigarros para os soldados" e o Movimento Nacional Feminino ia aos cais de Alcântara e da Rocha de Conde de Óbidos dar maços inteiros aos soldados antes da partida para a guerra. Havia bailes de debutantes e madrinhas de guerra. Florbela Queirós era um sex-symbol dos soldados e Cecília Supico Pinto desdobrava-se em visitas às tropas. A guerra não era falada nas homílias. "Convenceram-nos de que Portugal tinha o maior Império do mundo e que a sociedade portuguesa era multirracial", diz o sociólogo António Barreto na série Portugal, Um Retrato Social (RTP). "Mas na metrópole não se via ninguém que não fosse europeu, branco e católico." "Inventaram um Portugal único, do Minho a Timor", concluiu. E inventaram o português suave, desde as ideias das pessoas às casas de Raul Lino. Portugal era um país rural onde se acreditava que a sabedoria popular era uma coisa muito boa e por isso aprender era desnecessário - e ainda hoje pagamos por isso.
1969 foi um ano de "eleições" - foram em Outubro e por isso no Verão estava-se em plena campanha, com Minis e Hilmans, os pequenos carros da classe média, cobertos de cartazes da CEUD e da CDE, os novos movimentos democráticos. Parece uma piada chamarmos àquilo "eleições", mas foram inesquecíveis. Porque marcaram a entrada na Assembleia da República da "ala liberal" da União Nacional, pró-regime, e deram esperança a quem acreditou na "abertura" marcellista (ainda clandestino, o Avante! de Fevereiro de 1969 chamou às "boas intenções" de Marcello e à ideia da "Primavera em Lisboa" uma "encenação perigosa"). Mas foi inesquecível também porque as mulheres votaram pela primeira vez. Não todas, mas mais do que alguma vez no passado. Até aí, só podiam votar as mulheres que fossem "chefes de família" ou tivessem um curso médio ou superior; a partir daqui, podiam todas as mulheres alfabetizadas (mas, claro, ainda foram precisos cinco anos para que as mulheres pudessem viajar para o estrangeiro sem terem de pedir autorização aos maridos).
Mesmo assim, foi uma minúscula minoria que votou. Só 20 por cento da população estava inscrita e, dessa pequena percentagem, só 42,5 por cento votou. Em Lisboa, havia 1,3 milhões de pessoas, mas só 350 mil estavam inscritas e menos de metade votaram. No Porto, como noutras cidades, a proporção foi igual. "Mas a entrada da ala liberal representa o fim do monolitismo em São Bento", escreve Luís Sá. Julgando ainda governar, Salazar votou no carro - levaram-lhe a urna quase ao colo. Acabou por morrer no Verão seguinte.
Eu não podia ter nascido num ano mais esquisito e talvez isso explique muita coisa. Seguramente uma parte do que eu sou (e sim, mais tarde a televisão chegou e tivemos anos e anos de Vasco Granja). a