Uma voz do tamanho da alma

Nasceu e cresceu no seio de uma família pobre, mas transformou-se
no símbolo por excelência do fado. Revisitação de uma vida única

Amália no Olympia
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1920 - Amália da Piedade Rodrigues nasce em Lisboa, a 1 de Julho.
1939 - Na Primavera, estreia-se no Retiro da Severa, como fadista profissional, passando a cabeça de cartaz logo em Outubro.
1940 - Canta no Solar da Alegria, Retiro da Severa, começando a sua colaboração com o poeta do fado Linhares Barbosa e com Frederico de Brito. Estreia-se na revista Ora Vai Tu!. Inventa a fadista de negro com xaile negro.
1943 - Madrid. Primeira actuação no estrangeiro, iniciando aquilo a que chamará mais tarde uma carreira de cantora ibérica.
1945 - Dez meses no Brasil, actuando com a Companhia de Revista Amália Rodrigues, gravando os seus primeiros discos e criando Ai, Mouraria, de Valério.
1952 - Canta em Nova Iorque durante quatro meses, recebendo convites para actuar na Broadway.
1957 - Actua no Olympia como primeira vedeta absoluta, criando Ay, Mourir pour Toi, escrito para ela por Charles Aznavour.
1961 - Casa com o engenheiro César Seabra, anunciando abandonar a vida artística para ficar a viver em Copacabana.
1977 - Volta ao Carnegie Hall. Publicação do disco Cantigas Numa Língua Antiga, com música de Alain Oulman e poemas de poetas portugueses.
1985 - Reaparição triunfal no Coliseu dos Recreios, Olympia, Coliseu do Porto e Itália. O Ministro da Cultura francês Jack Lang condecora-a com a Ordem das Artes e das Letras, grau de comendador.
1989 - Grandes comemorações dos 50 anos artísticos.
1990 - Grande espectáculo de homenagem no Coliseu dos Recreios, onde recebe, em cena aberta, do Presidente da República Mário Soares a Ordem Militar de Santiago de Espada, grã-cruz.
1991 - Recebe de François Miterrand a Legião de Honra.
1997 - Falecimento do seu marido, César Seabra, após 36 anos de casamento. Publica Versos.
1999- Amália morre a 6 de Outubro.

a "Quando fizerem a minha história e eu já não for viva para dizer como foi, então é que se vão fartar de inventar. Mas sei que a minha história vai ser aquela que escolherem, aquela que é a mais interessante, aquela que não é a minha", disse um dia Amália Rodrigues. Quem foi, afinal, esta mulher com uma voz do tamanho da sua alma?
Amália Rodrigues nasceu no primeiro dia de Julho de 1920 - embora as certidões a façam mais nova 22 dias -, na rua Martim Vaz, na freguesia da Pena, então uma zona operária de Lisboa.
Cresceu no seio de uma família pobre que tentava sobreviver à grande depressão de 1930. Em Alcântara, Amália canta o fado pela primeira vez. Em 1938, aos quinze anos, concorre ao concurso Rainha do Fado. As adversárias invejam-lhe a voz e recusam-se cantar ao lado de uma "vendedeira de fruta"...
Em 1940 estreia-se a cantar numa casa de fados, o Retiro da Severa. Canta ali Mouraria, acompanhada pelos melhores guitarristas de Lisboa, Jaime Santos, José Marques, o mítico Armandinho. As vozes pertenciam a Alfredo Marceneiro, Adelina Ramos, Maria Albertina.
Estreia-se a cantar no estrangeiro, em 1943, na capital espanhola. Daí para a frente nunca mais perdeu o fascínio pela música espanhola que passou a ser parte integrante do seu reportório.
No ano seguinte, 1944, Amália descobre o Brasil e o cinema consagra-a como verdadeira actriz em Capas Negras, de Armando de Miranda, e Fado - História de uma Cantadeira, de Perdigão Queiroga.
A sua participação no filme Os Amantes do Tejo funcionaria como passaporte para Paris que lhe franqueia as portas do Olympia, em 1956, ponto de partida para uma carreira internacional sem precedentes no nosso país.
O teatro, onde se estreia em Junho de 1940, dá-lhe a conhecer uma forma mais segura e gratificante de contacto com o público. É ainda no meio teatral que aparece na sua vida o homem que lhe vai marcar a carreira, o maestro Frederico Valério. Os poetas descobrem em Amália o veículo privilegiado para os seus versos. Pedro Homem de Mello e David Mourão-Ferreira são dois dos principais. Mas é um alentejano, de Reguengos, com licenciatura em Farmácia, Alberto Janes, que a vai marcar de forma indelével.
No começo dos anos 60 encontra Alain Oulman e primeiro disco surge em 1962. Graças a ele, Amália conquista um público novo. Amália descobre-se em Povo que Lavas no Rio, revendo-se emocionalmente nos versos de Pedro Homem de Mello. Canta ainda outros poetas, como David Mourão-Ferreira, Luís de Macedo, Sidónio Muralha, Ary dos Santos, Alexandre O' Neill, Manuel Alegre e Camões.
Alberto Janes proporciona-lhe em 1968 um novo êxito: Vou Dar de Beber à Dor, o maior sucesso de vendas em toda a carreira de Amália.
Com o 25 de Abril, passa por momentos difíceis, sendo acusada de pertencer à polícia política do regime salazarista-caetanista. O francês Alain Oulman faz parte da minoria que a defende.
Nas duas últimas décadas de vida, porém, Amália afastou-se progressivamente dos palcos, cantando cada vez com menos assiduidade, a partir de meados dos anos 80, quase sempre, em espectáculos de homenagem. Portugal, entretanto, aprendera a fazer dela uma moda. Foi preciso esperar até Abril de 1985 para Amália Rodrigues se apresentar pela primeira vez em Portugal num concerto totalmente preenchido por si, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa e, uma semana mais tarde, no Coliseu do Porto. O mito tinha criado raízes.

Ela e o Eusébio eram, seguramente, as pessoas mais populares que existiam em Portugal. Foi uma pessoa com um destino excepcional
Mário Soares, político

Amália Rodrigues foi, ao lado do Frank Sinatra, uma daquelas vozes privilegiadas que foi um privilégio para o mundo que elas tenham existidoAntónio Vitorino de Almeida, compositor

Quando se fala em povo tem que se falar na Amália, quando se fala em aristocracia tem que se falar na Amália. É por causa dela que eu canto como profissional
João Braga, fadista

Era uma voz que vinha de dentro, vinha do fundo da história do povo. Ela era sobretudo uma voz para além dos regimes e para além das contingências históricasManuel Alegre, político e poeta

Amália Rodrigues elevou o fado a um grau de qualidade e importância sem precedentes. Podemos dizer que há o fado antes e depois de AmáliaVasco Graça Moura, tradutor
e poeta