Palácio das Cinzas

a O Presidente não estava particularmente bem disposto. Quando cheguei, o palácio parecia vazio. Construído entre ruínas e edifícios queimados, a habitação do Chefe de Estado assumia o ar inquietante e sinistro do resto do bairro. Passou-me pela cabeça que o palácio estivesse fechado, para férias, ou para obras. Que o Presidente estivesse em viagem, ou num súbito e secreto exílio. Não se via ninguém.Uma secretária acabaria por me vir receber, à porta. Não sabia quem eu era, apesar de a entrevista ter sido marcada e confirmada. Relutante, levou-me ao Presidente. Atravessámos vários corredores, vazios. Reinava o silêncio. Achei estranho que no palácio não trabalhasse ninguém. Onde estavam os funcionários, os assessores, os lobbies? Onde estava a azáfama própria do principal centro de decisão de um país? Nada. O Presidente estava sozinho.
Entrei e vi-o, no meio da sala. Voltou-se, mas não me cumprimentou. Fez uma expressão de desagrado, como se tivesse sido interrompido. Mas não me pareceu que estivesse a fazer alguma coisa. Não tinha papéis nas mãos, nem um telefone, não ditava uma carta, não fazia nada do que imaginamos que um Presidente possa fazer no seu gabinete. Permanecia de pé, no meio do tapete, com um olhar perdido e triste. À primeira impressão, pensei que ele estava chorar. Talvez estivesse. Depois disfarçou, mas, ainda hoje, tenho quase a certeza de que ele estava a chorar.
Lembrei-me subitamente de que aquele lugar se chamava Palácio das Cinzas. Baptizaram-no assim por ter sido construído entre escombros, para simbolizar um renascimento conseguido à custa de muito sangue e destruição. A ideia era poética, mas não deixava de ser agoirenta. Quem gostaria de viver num lugar chamado Palácio das Cinzas?
Liguei o gravador e começámos a entrevista, mas nem eu nem o Presidente estávamos realmente ali. As primeiras perguntas e respostas foram mecânicas e esquisitas. Tive a sensação de que tanto eu como ele iríamos dizer coisas de que mais tarde nos arrependeríamos. A situação era demasiado íntima, demasiado desprotegida. Claramente, ele não estava com vontade de ser Presidente, naquele momento, e eu não me apetecia ser jornalista. Mas tive de fazer as minhas perguntas, e ele teve de responder, contrariado e acintoso. Divagámos por assuntos sem interesse nenhum, porque eu não sabia como orientar a entrevista. Não sabia o que tinha interesse. E ele também não.
Lá fora, preparavam-se as eleições, e temia-se que rebentasse de novo a violência. Tropas estrangeiras patrulhavam as ruas. Grupos de jovens dos bairros pobres corriam a capital, armados de catanas e dardos envenenados. Quase não falámos disso. O Presidente preferia usar metáforas ou discorrer sobre pormenores sem contexto. A certo ponto, a conversa era totalmente surrealista. É disso que guardo memória, apesar de, na entrevista que foi publicada, terem sido proferidas algumas afirmações com lógica. Não me lembro quais. Recordo apenas aquela fragilidade terrível de um Presidente, um palácio, um país.