Kinaxixe O mercado que era um símbolo de Luanda já não existe

Entre as décadas de 40 e 60, vários arquitectos formados em Portugal construíram edifícios modernos em Angola. Aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe, foi demolido e no seu lugar vai nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres. Mas há outros exemplos desse "modernismo tropical". Por Alexandra Prado Coelho

a Há um buraco vazio no meio de Luanda. Antes estava lá um mercado grande, que todos conheciam. Chamava-se Kinaxixe (alguns escreviam Qinaxixe outros Kinaxixi, mas todos sabiam do que falavam) e tinha sido construído, nos anos 50, por um arquitecto angolano de origem portuguesa, Vasco Vieira da Costa (1911-1982). Há cerca de um mês o Kinaxixe foi demolido, já não existe, e sabe-se que no vazio que deixou irá ser construído um centro comercial. Houve tentativas de travar o processo, houve indignações, mas o Kinaxixe, que fora construído entre 1950 e 52, veio mesmo abaixo. A Ordem dos Arquitectos de Angola insurgiu-se num manifesto: "Conhecido mundialmente como uma peça de arquitectura moderna notável, foi considerada pela UNESCO a hipótese de ser classificado património arquitectónico da Humanidade. Com lucidez e sabedoria o Kinaxixe seria o nosso "Edifício Manifesto": o corpo simbólico da nossa independência, do nosso grito de liberdade presente na cidade e de contestação ao regime colonial".
A arquitecta portuguesa Ana Magalhães fotografou o Kinaxixe em Julho, pouco antes da queda (são dela as imagens que acompanham este artigo). Era um dos edifícios - provavelmente o maior exemplo - da arquitectura moderna construída nas décadas de 40, 50 e 60 em Angola e também Moçambique (tema de um livro que Ana Magalhães está a preparar, e da sua tese de doutoramento intitulada Migração do Moderno - Arquitectura na Diáspora - Portugal, Brasil e África colonial (Moçambique e Angola), 1948-1974.
"É um tipo de arquitectura que fez escola", explica. "Quando se anda em Luanda praticamente não se vê a arquitectura mais colonial, porque o peso desta arquitectura dos anos 50 e 60 é tão forte que marca tudo". Percorrendo a cidade, a arquitecta foi fotografando esses edifícios - os que são referência e estão identificados, como o bloco da Mutamba, hoje Ministério das Obras Públicas (de Vasco Vieira da Costa) ou o edifício da Radiodifusão de Angola - e muitos outros, de arquitectos anónimos, mas que seguiram as linhas modernistas que a chamada "geração africana" lançou em Luanda e Maputo.
Viajou depois até ao Lobito, onde encontrou os edifícios construídos por Francisco Castro Rodrigues, o liceu, e a cine-esplanada Flamingo, que as fotografias da época mostram cheia de gente a ver os filmes projectados no grande ecrã, e que hoje está vazia, mas ainda preservada - sobretudo o chão, notou Ana Magalhães - e mantendo um charme decadente. Pelo meio do antigo cinema ao ar livre passam crianças pequenas, de mochilas às costas, a caminho de uma escola improvisada. Já não passam filmes, é possível até que alguém habite dentro da cabina de projecção, e no meio das paredes rosa e dos desenhos de flamingos as crianças sentam-se em pequeninas cadeiras de plástico a ouvir a professora.
Obras para clima tropical
Os arquitectos partiram - alguns deles já morreram, outros voltaram para Lisboa - os edifícios ficaram, atravessando períodos conturbados da história de Angola. Hoje são cada vez mais olhados como obras de arquitectura com um valor único. "É uma arquitectura que não tivemos em Portugal por circunstâncias específicas nossas", explica Ana Magalhães. Os arquitectos que estudaram em Portugal e que foram, nessa época, para Angola e Moçambique gozaram, por um lado, de "maior liberdade" e, por outro, tiveram "a possibilidade de fazer uma arquitectura tropical que aqui não seria possível".
Uma arquitectura que não precisava de se preocupar com o frio, mas que tinha que lidar com questões como a chuva ou a ventilação. "[Estes arquitectos] fizeram o que hoje designamos por arquitectura sustentável, que procura dar respostas não com a ortodoxia e ideias feitas, mas explorando os sombreados, criando lugares de circulação do ar, espaços de transição que não estão dentro nem fora", diz a arquitecta Ana Tostões, autora de vários livros sobre a arquitectura moderna portuguesa.
A arquitecta confirma que "em Portugal, na mesma época, não existe nada comparável", em grande parte porque "as encomendas institucionais eram altamente vigiadas", e só no final dos anos 50, graças às encomendas dos municípios, é que começamos a ter "obras mais arriscadas".
"O Vasco Vieira da Costa é um dos arquitectos da geração moderna que faz uma obra de alguma forma contra o regime", considera Ana Tostões, que é também representante de Portugal no Docomomo, organização internacional de defesa do património arquitectónico moderno. Aliás, defende, é precisamente no hemisfério Sul (em África, mas sobretudo no Brasil) que "a arquitectura moderna ganha grande liberdade e toma uma expressão brilhante como resposta a uma situação muito diferente da da Europa".
Passagem por Le Corbusier
Fernão Simões de Carvalho foi um desses arquitectos (e, no caso dele, também urbanista). Nascido em Luanda, estudou em Portugal e depois foi para Paris onde, numa mistura de coragem e algum descaramento, foi bater à porta do atelier do grande arquitecto Le Corbusier [com quem Vieira da Costa também trabalhou), propondo-se como estagiário - e conseguiu lá ficar durante quatro anos. Foi só em 1959/60 que voltou para Angola e começou a trabalhar para a Câmara Municipal de Luanda.
Ao contrário de outros colegas, Simões de Carvalho não saíra de Portugal por razões políticas, por isso não sentiu que em Luanda houvesse mais liberdade para fazer arquitectura do que havia, na mesma altura, em Lisboa ou no Porto. "Nunca me impuseram soluções, nem lá nem cá. Aliás, nunca me meti na política, a minha política é o urbanismo". Mas concorda que os edifícios que ali nasceram naquela época têm características especiais. "Os quebra-sóis, as protecções solares, as varandas... qualquer arquitecto tem que fazer arquitectura adaptada ao clima. Se é no interior é de uma maneira, se é na faixa marítima é de outra. Claro que havia ali soluções que não fariam sentido para a Avenida António Augusto de Aguiar, por exemplo".
Regressou a Portugal em 67, e depois do 25 de Abril foi para o Brasil - "o país onde fui mais acarinhado, onde trabalhei mais, projectei três cidades". A Angola não voltou. Sabe que o plano director que fizera para a cidade nunca chegou a ser aplicado, desconhece se alguns dos projectos que desenhou chegaram ou não a ser construídos, mas sabe que o edifício da Radiodifusão, que fez com José Pinto da Cunha e Fernando Alfredo Pereira e de que muito se orgulha, é tratado com carinho pelos luandenses e é também para eles um motivo de orgulho na cidade.
Um "shopping multiusos"
Mas também ouviu coisas menos positivas. "Tenho notícia de algumas asneiras que fizeram lá, prédios altos no centro da cidade, quando os prédios altos equivalem a muito mais automóveis. A baixa de Luanda está atulhada de arranha-céus e assim ninguém pode circular".
A estes juntar-se-á, nos próximos quatro anos (tempo previsto para a construção) o centro comercial que ocupará o lugar do Kinaxixe e que o Semanário Angolense, a partir de uma conversa com o director técnico do projecto, Luciano Dzik, descreve como "um shopping multiusos com seis pisos e duas torres comerciais situadas nas laterais norte e sul, com 20 pisos cada" e que terá ainda uma cave de cinco pisos destinada ao estacionamento. O Shopping Center Kinaxixe terá 200 lojas, sete salas de cinema e um piso inteiro para restauração. Quanto às duas torres, destinam-se a escritórios e terão caves com dois mil lugares de estacionamento.
O Semanário Luandense explica que há quatro anos, quando o Grupo Macon (ligado aos transportes públicos) recebeu a concessão sobre o Kinaxixe, chegou a organizar uma gala para apresentar, em tecnologia digital, o novo centro comercial. Mas durante quatro anos nada aconteceu. Segundo Dzik, foi o tempo necessário para o "aprimoramento" do projecto e a sua adaptação à "realidade actual". "O desenho do shopping daquela época [há quatro anos] seria inadequado para os dias de hoje", afirmou ao jornal. Grande parte do debate durante esse período teve a ver com a possibilidade de se aproveitar a estrutura original do Kinaxixe - hipótese que acabou por ser afastada.
Desapareceu, portanto, o velho mercado de Luanda, peça essencial de uma arquitectura a que começa agora a dar-se o devido valor. Mas qual é o nosso olhar - de portugueses - hoje sobre este património? O manifesto da Ordem dos Arquitectos de Angola diz claramente: "Os edifícios nas cidades são marcos da identidade civilizacional dos povos", e, mais à frente, "Vasco Vieira da Costa era um Arquitecto Angolano (alguém diria... 'mas nasceu em Aveiro'... mas quantos angolanos nasceram e nascem em Londres, Paris, Joanesburgo ou Rio de Janeiro?)". Os subscritores deste manifesto vêem o Kinaxixe como um edifício "que se queria assumir como um grito de liberdade e oposição ao regime colonial português" e que "desafiava o regime pela imposição de uma nova postura da arquitectura".
João Rodeia, presidente da Ordem dos Arquitectos portuguesa, (mas que faz estas declarações ao P2 a título individual) defende que temos que olhar para estes edifícios como "uma coisa que não é nossa, é património dos países onde está, mas que tem uma ligação com a nossa cultura arquitectónica". Estamos, portanto, perante uma arquitectura que é "por um lado internacional, porque acrescenta novas lições ao movimento moderno, tem alguma raiz portuguesa dada a formação dos seus autores, mas é sobretudo arquitectura africana dentro da modernidade".
O Kinaxixe pertencia - como pertencem outros edifícios - à ideia de uma Luanda "cosmopolita, aberta ao mundo, sofisticada", sublinha Rodeia. "Numa altura em que as cidades competem entre si através das diferenças, uma cidade com ambição não pode dar-se ao luxo de atirar para o lixo um edifício que atrairia turismo especializado e a colocaria na rota do mundo".