Câmara do Porto aprovou demolição do Aleixo e privatização da recolha do lixo

Rui Rio promete dialogar com os moradores, mas a permanência destes no bairro está fora
de questão. Providência cautelar avança a seguir à ratificação da assembleia municipal

a Havia ontem, enquanto estava reunido o executivo da Câmara do Porto, duas manifestações à porta dos paços do concelho: nas traseiras, um pequeno grupo do Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local protestava contra a privatização da recolha de lixo, que vai, alegam os sindicalistas, aumentar as tarifas e fragilizar os vínculos contratuais dos trabalhadores; diante da fachada principal, cerca de meia centena de moradores do Bairro do Aleixo (mulheres, crianças e Superdragões) entoavam palavras de ordem contra a proposta que prevê a demolição das cinco torres de habitação social. Num caso e no outro, os protestos de nada valeram, já que as duas propostas foram aprovadas, com os votos favoráveis da maioria e do PS e com o voto contra, isolado, da CDU.Esta posição levou os manifestantes a vitoriarem o deputado municipal Artur Ribeiro, que esteve no exterior a explicar a posição dos comunistas. Pouco antes, num directo para um canal de televisão, já Rosa do Aleixo tinha lançado a candidatura do ex-presidente de câmara Nuno Cardoso às próximas eleições municipais. "Vai ser o próximo presidente da câmara", garantia. O actual, lá dentro, devia ter as orelhas a arder. "Mentiroso", "Bin Laden", "traidor" e "exterminador social" foram apenas alguns dos "mimos" que os manifestantes dedicaram a Rui Rio.
Na sala de reuniões, a análise da proposta foi interrompida, perante o aviso de Rui Sá que, em lado algum, estava descrita a obrigatoriedade de realojar 20 por cento dos moradores na Baixa. Clarificada a percentagem, a votação continuou.
O grupo vindo do Aleixo acabou por concentrar a atenção dos jornalistas e do corpo policial mobilizado, mas quando, cerca das 13h30, os vereadores aprovaram a demolição do bairro, a reacção foi frouxa. As crianças tinham já começado a destruir os cartazes aos pés da estátua de Almeida Garrett, sobretudo aqueles em que se lia a frase "Rui Rio [com um insulto colado ao nome] só vês o cif$ão", que entretanto tinham sido escondidos.
Consumada a derrota, os manifestantes, então já em número bastante reduzido, juntaram os cartazes que sobraram das brincadeiras dos petizes e abandonaram o local, não sem antes garantir que a contestação vai continuar já hoje, durante a assembleia municipal (AM) em que a proposta será ratificada. "Está aprovado? Então o bairro vai abaixo?", perguntava, desanimada, Rosa Teixeira, a célebre líder da Associação de Promoção Social da População do Bairro, "Rosa do Aleixo, comendadora", conforme fazia questão de se apresentar.
"A justiça serve para alguma coisa", comentava um dos manifestantes, aludindo à providência cautelar que deverá ser apresentada após a aprovação da demolição do bairro em AM. Até esse momento, Tiago Machado, o advogado, explicara pela enésima vez a intenção de suspender o processo pela via legal, obrigando a câmara a discutir uma solução consensual que permita aos moradores continuarem a viver onde sempre viveram.
"Uma promessa eleitoral"
No final da reunião de câmara, Rui Rio não prometeu consenso, mas garantiu diálogo. "Haverá diálogo e as preferências das pessoas do Aleixo serão atendidas, desde que seja possível", garantiu.
Para a estrutura concelhia do PS, a proposta de Rui Rio para o Aleixo resume-se a "uma promessa eleitoral" a concretizar até 2013, o que o presidente local dos socialistas, Orlando Soares Gaspar, considera "demasiadamente pouco" ao fim de oito anos de mandato.