Câmara de Loures não volta atrás, ciganos não voltam ao bairro

Acampamento montado junto à câmara não demove autarca: a única solução é mesmo o regresso ao bairro

a Mantém-se o impasse para as 53 famílias ciganas do bairro da Quinta da Fonte que estão a viver desde quinta-feira no jardim frente à Câmara de Loures. "Ou [voltam] para aquele bairro ou para nenhum", reiterou-lhes ontem o presidente do município, o socialista Carlos Teixeira. "Ou então têm de escolher outro bairro por conta própria", acentuou, depois de uma reunião com os advogados dos ciganos que não querem voltar para a Quinta da Fonte."Não aceito que sejam os munícipes a custear estas situações." Até porque, sustentou Teixeira, "de todos os que estão ali [no jardim da câmara], só três têm as rendas em dia e estamos a falar de 4,26 euros de renda" mensal. O autarca garantiu que "tudo o que tinha de ser resolvido pela câmara está resolvido" e que, se a comunidade cigana se queixa de falta de segurança, "essa é uma questão que compete às autoridades policiais e ao Ministério da Administração Interna". Teixeira lembrou que o ministro da tutela, Rui Pereira, já garantiu que serão asseguradas as questões de segurança no bairro, apontando a garantia do policiamento de proximidade "que já existe e que vai continuar".
O Alto Comissariado para a Imigração e Minorias (ACIDI), organismo dependente da Presidência do Conselho de Ministros, mantém a mesma posição. "Não vão ter de fugir e deixar que os bandidos fiquem a tomar conta do bairro. As pessoas têm de confiar que estão criadas condições de segurança. E, sendo assim, o regresso é a única solução, porque só ela é que garante que são dados aos ciganos os mesmos direitos dos outros portugueses", disse ao PÚBLICO Luís Pascoal, do Gabinete de Apoio às Comunidades Ciganas do ACIDI.
Carlos Teixeira diz que apenas dez por cento da comunidade cigana da Quinta da Fonte assentou arraiais frente à Câmara de Loures, o que os manifestantes negam. "No bairro estão só cinco casais ciganos", garantia ontem Rui Alfredo, acabado de regressar da Quinta da Fonte, onde fora aos correios.
Relativamente à solução das tendas de campanha montadas à entrada do bairro para as oito famílias que continuam com as casas vandalizadas - as 45 casas dos restantes já estão habitáveis -, o autarca assegurou terem sido os próprios ciganos que "escolheram que a melhor solução seria contentores ou tendas". Uma mulher dizia na quarta-feira que a câmara até podia arranjar um acampamento, acrescentando também que fosse "em qualquer sítio que não seja a Quinta da Fonte".
"Protesto não me afecta"
Carlos Teixeira disse ainda que o protesto frente à câmara não o afecta "pessoalmente" e que não vai "exercer qualquer influência para estarem ou deixarem de estar [no jardim]". "Isto é uma questão de segurança e não é a primeira vez que passam aqui a noite", sublinhou. "E se um munícipe o encontrar na rua e lhe perguntar quando é que a comunidade vai sair daqui?", perguntou um jornalista. "Não sei", respondeu o autarca.
Ontem, no segundo dia de protesto junto aos paços do concelho, as famílias garantiam que dali não arredarão pé se a solução for voltar ao bairro. As exigências e as lamentações repetem--se. Ao final da tarde, um dos advogados e o representante da comunidade cigana iam à Quinta da Fonte, durante a visita que a governadora civil de Lisboa ali fez, "entregar-lhe um documento" com uma lista das pessoas que estão no jardim da câmara. À mesma hora, o autarca de Loures abandonava a autarquia para as festas da cidade. Um aceno aos manifestantes valeu-lhe uma ovação das cerca de 40 pessoas que prometiam passar ali mais uma noite ao relento.