A guerra dos pessimistas e dos optimistas

Todos os portugueses são pessimistas até ao momento em que se tornam ministros ou pelo menos secretários de Estado

Segundo o primeiro-ministro, Portugal é habitado por duas tribos separadas e hostis: a dos crentes no "progresso" e a dos "bota-abaixo" - ou, conforme a tradução jornalística, "optimistas" e "pessimistas". É uma tese curiosa, mas limitada por esta razão: todos os portugueses são pessimistas até ao momento em que se tornam ministros ou pelo menos secretários de Estado.O pessimismo, em Portugal, faz parte das boas maneiras. Quem não está no governo ou não tem lá amigos precisa, nos seus contactos sociais, de dizer coisas como "isto está cada vez pior" ou "isto sempre foi assim" - frases que, no pessimismo nacional, têm o mesmo sentido. E isso é verdade para o taxista, o barbeiro ou o cronista, porque todos sabem que é isso que clientes e leitores esperam deles, para se sentirem parte do clube selecto, mas muito camponês, dos "a-mim-não-me-enganam-eles". Portanto, se o primeiro-ministro quer erradicar o pessimismo em Portugal, só tem uma solução: expandir o governo ou a rede de relações dos ministros. Não tenha dúvida: cada ministro a mais será um pessimista a menos.
Durante o debate do estado da nação, Francisco Louçã recordou ao primeiro-ministro a sua antiga dor sobre o desemprego. Para fazer Sócrates sofrer outra vez com tal assunto, só há um meio: pô-lo fora de S. Bento. Não é aliás difícil de prever o que aconteceria se amanhã, por acaso, Ferreira Leite e Sócrates trocassem de posições. Haveria naturalmente uns meses de nojo, em que Sócrates defenderia a sua herança e Ferreira Leite se queixaria dela. Mas um dia Ferreira Leite começaria a descobrir rebentos de esperança por todo o país e Sócrates a angustiar-se com o mau rumo da nação. Um dia, Ferreira Leite esperaria ser felicitada pelos seus orçamentos e Sócrates atirar-lhe-ia à cara com a "grave crise social". Um dia, Ferreira Leite acordaria autocrática e arrogante e Sócrates reclamaria diálogo e respeito pelo Parlamento. Um dia, Ferreira Leite descobriria a salvação numa qualquer auto-estrada e Sócrates exigiria factura detalhada. Em suma: um dia, Ferreira Leite seria optimista e Sócrates pessimista. Esta é a guerra do alecrim e da manjerona que a nossa classe política joga há anos.
O que é que, à parte a situação ministerial, fundamentalmente opõe pessimistas e optimistas? A semana passada, Constança Cunha e Sá jurou-nos aqui, com um admirável optimismo, que ser "pessimista" é ser lúcido. Não é necessariamente verdade, e na maioria dos casos é precisamente o contrário. O pessimismo rotineiro, banalizado pela chicana parlamentar, pela crónica jornalística e pela conversa de táxi, nada tem a ver com a crítica ou a realidade. Ajuda até o público a menosprezar toda a análise, por mais sustentada, como um divertimento inócuo: "Lá está ele a dizer mal." Esse pessimismo é, como o optimismo, apenas outra maneira de ser avestruz.
O optimista e o pessimista em Portugal têm outra coisa em comum: nunca "vislumbram" (é o verbo por eles consagrado) alternativas. O pessimista, porque julga que nada se pode fazer; o optimista, porque acredita que só se pode fazer o que ele faz. Foi assim que Sócrates comentou, no Parlamento, a crítica de Paulo Rangel: "Nenhuma solução." Para o optimista, não pode haver problema sem a respectiva solução, de preferência sob a forma de uma "medida concreta". E assim vivemos as últimas décadas em Portugal, de "medida" em "medida". Estamos atrasados? Auto-estradas. Continuamos atrasados? Educação. Alguém reparou que as taxas de crescimento económico nunca pararam de descer? Tal como o pessimismo não é sinónimo de lucidez, o optimismo também não é de eficácia.
Até agora, os que argumentavam a favor de reformas em Portugal, irritando igualmente pessimistas e optimistas, pouco mais puderam do que fazer exortações. Sim, já quase toda a gente decorou qualquer coisa acerca da nossa natalidade ou endividamento. Nada, porém, chegou para abalar a indiferença nacional. Não apenas por a fé em "salvações" ter decrescido (como notou Vasco Pulido Valente), mas sobretudo porque, no passado, nunca houve alarme que tivesse tido sequência. Em 1985, já se falava da absoluta urgência das "reformas estruturais". Foi até o pretexto para romper o Bloco Central. Mas logo a baixa do preço do petróleo e o dinheiro europeu vieram dispensar complicações. Pouco se fez e tudo correu bem. Só que, entretanto, o mundo mudou, e também neste país onde nada acontece algo vai ter de acontecer. Há quem não queira ver: uns por optimismo, outros por pessimismo. Abençoados. Historiador

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