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Afeganistão. Nascer e morrer em Kandahar

No Sul do Afeganistão, quase todas as mulheres têm os filhos em casa. A maioria nunca viu um médico. Muitas morrem antes de serem vistas por um homem. Há muitos bebés com malformações fatais. Cada mãe perde em média dois filhos. O país está no fim do mundo em saúde materna e infantil. Com os feridos de guerra, esta é uma prioridade no Hospital de Mirwaiz. Uma série de reportagens no Afeganistão.

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Sari vem da Europa e isto é Kandahar. "Aqui vejo coisas que só conhecia dos livros." Mães que andaram anos com o útero de fora. Todas as semanas bebés com espinha bífida. Todos os dias bebés que já morreram. "A maior parte das mulheres tem os filhos em casa e vem ter connosco muito tarde, com os filhos mortos." Coisas que atiram o Afeganistão para o fim do mundo.

Mortalidade materna? Pior só na Serra Leoa.

Em Kandahar estão uns 40 graus à sombra. A finlandesa Sari puxa o lenço do pescoço e cobre o cabelo porque chegou a hora de voltar ao hospital. Continua a parecer uma nórdica demasiado loura e robusta para parecer afegã. Mas, escada acima, escada abaixo, e sem ar condicionado, não deixará descair o lenço até ao fim do dia.

E o mesmo faz a outra nórdica das redondezas, Turid, uma norueguesa miúda, ruiva e sardenta.

Sari Silventoinen é médica obstetra, Turid Andreassen é enfermeira pediátrica e ambas integram a equipa do Comité Internacional da Cruz Vermelha em Kandahar. Vieram, como todos os dias, almoçar à delegação e agora vão regressar ao hospital que, além de servir a cidade, serve todo o Sul, três milhões de pessoas.

O Hospital de Mirwaiz é o eixo da vida e morte nesta parte do Afeganistão disputada ao governo e aliados estrangeiros em combates reacesos no começo do Verão.

Primeiro os taliban tomaram de assalto a prisão de Kandahar, libertando centenas de militantes e prisioneiros. Depois ocuparam aldeias no vale fértil de Arghandab, um pouco a norte. As tropas afegãs e canadianas foram reforçadas.

Agora o ar está tenso como um balão.

Até na Cruz Vermelha, onde 15 internacionais vivem e trabalham, entre 130 afegãos. Há pequenos jardins floridos, livros, piscina e barbecue, mas também há barricadas de sacos de areia, rede anti-granadas e bunker subterrâneo.

Dois anos depois do derrube dos taliban, um dos sinais de que tudo podia rebentar no Afeganistão foi o assassinato deliberado de um membro da Cruz Vermelha, o engenheiro suíço-salvadorenho Ricardo Munguia, em 2003, pelos taliban.

O Comité Internacional da Cruz Vermelha não é a ONU. Não representa partes, não envia tropas. Tem um mandato de neutralidade perante todos num conflito. E o Afeganistão representa uma das suas maiores operações humanitárias.

A morte de Ric