Cheias rápidas: perigosas e potencialmente mortíferas

a São perigosas e podem ser mortíferas, têm como causa chuvadas fortes, concentradas num curto lapso de tempo, e acontecem nas pequenas bacias hidrográficas. No essencial, é isto que caracteriza as chamadas "cheias rápidas", explica Eusébio Reis, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa. E foi exactamente isto que se passou na madrugada de ontem.O impacto e magnitude destas cheias que afectaram o distrito de Lisboa foram, no entanto, muito inferiores ao verificado nas de 1967 (na região de Lisboa-Loures), ou ainda nas de 1983 e de 1997 - aquelas que Eusébio Reis considera "as mais devastadoras cheias rápidas" que o país já viveu.
A 26 de Novembro de 1967 a estação meteorológica do Monte do Estoril registou em cinco horas 129 milímetros de precipitação. Na noite de ontem, entre as 0h00 e as 5h00, a estação meteorológica do aeroporto de Lisboa, por exemplo, registou uma precipitação de 65 milímetros.
Em termos de chuva concentrada, Lisboa não registou ontem nenhum recorde. O maior pico horário, entre as 4h00 e 5h00, foi de 36 milímetros de chuva, na estação do aeroporto. É muito, mas já houve episódios mais graves. No dia 19 de Novembro de 1983, em uma única hora choveram 53 milímetros. Mas nunca em Fevereiro tinha chovido tanto ao longo de um dia inteiro. A quantidade de precipitação entre as 9h00 de domingo e as 9h00 de ontem, no aeroporto, foi de 118 milímetros, o maior valor desde 1864. Antes disso, não há séries fiáveis de registos.
Episódios como os de ontem não são invulgares, sublinha Eusébio Reis. Entre 24 e 25 de Outubro de 2006, por exemplo, choveu, nalguns pontos do país, o equivalente ao que seria normal para o mês inteiro. Bragança bateu recordes, em Pombal a chuva transformou as estradas em rios e uma pessoa morreu.
Uma coisa é certa, a tendência é para que, "à medida que o tempo passa, a mesma quantidade de precipitação venha a ter consequências cada vez mais graves" nas zonas urbanas onde "há cada vez mais água a circular acima da superfície e cada vez menos a circular abaixo da superfície".
A crescente impermeabilização dos solos que resulta da construção de infra-estruturas - em última instância "se toda a água se infiltrasse nunca haveria cheias" -, a ocupação dos leitos de cheia, a ineficácia dos sistemas de escoamento contribuem para que as cheias sejam mais graves.
As cheias rápidas distinguem-se das "cheias progressivas" - que resultam de períodos de chuva abundante, contínuo, e afectam sobretudo as grandes bacias. Em 1979 o vale do Tejo foi atingindo pela maior cheia deste tipo de que há memória. Durou nove dias. A.S. e R.G.