Arqueólogos avençados com situação desbloqueada mas dependentes de vagas

Caso foi ontem apontado por João Zilhão como mais um exemplo das "coisas inacreditáveis" que os governos têm destinado
ao sector da arqueologia

A O Ministério das Finanças desbloqueou a situação dos funcionários avençados do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico que tinham ficado a saber, poucos dias antes do final do ano, que os seus contratos desta vez não seriam renovados. A informação foi divulgada pela agência Lusa ainda na sexta-feira à noite. Não é no entanto possível saber, para já, quantos destes cerca de 40 profissionais - na sua grande maioria arqueólogos - conseguirão renovar o contrato, uma vez que esse número está dependente das vagas atribuídas ao instituto (Igespar), no âmbito da reforma da administração pública. A direcção do Igespar deverá analisar a situação durante a próxima semana, adiantou ontem ao PÚBLICO a assessora de imprensa do instituto, Maria Resende. A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, tinha já dado parecer favorável à manutenção destes avençados. Faltava a aprovação das Finanças.
A notícia da dispensa iminente de dezenas de profissionais do Igespar suscitou de imediato o "profundo repúdio" da Associação Profissional de Arqueólogos, preocupada com a perspectiva de um "retrocesso significativo" nas políticas de protecção e valorização do património arqueológico português.
O funcionamento regular do Parque Arqueológico do Vale do Côa es-
taria, segundo a associação, ameaçado pela cessação dos vínculos laborais. Temiam-se também "graves perturbações do sector de construção pública e privada dependente da realização de trabalhos arqueológicos". Ontem, as pessoas abrangidas pela situação não tinham sido ain-
da oficialmente informadas da intervenção do Ministério das Finanças e preparavam-se, confirmou uma delas ao PÚBLICO, para voltar amanhã ao local de trabalho, como têm feito.
O que se está a passar com estes avençados foi também ontem apontado, pelo arqueólogo João Zilhão, como o mais recente exemplo do "re-
gresso a condições de há 25 anos, com coisas absolutamente inacreditáveis", a que diz estar a assistir-se no sector da arqueologia.

Críticas de ZilhãoZilhão era presidente do Instituto Português de Arqueologia quando, há nove anos, foi descoberto o esqueleto da criança do Lapedo (hoje trabalha na universidade inglesa de Bristol). Ontem, aproveitou a inauguração do respectivo museu, em Leiria, para tecer duras críticas aos governos mais recentes.
O Governo actual e o anterior, acusou, citado pela Lusa, "são conjuntamente responsáveis por uma política de destruição das estruturas de investigação e administração do património arqueológico que vai custar caro ao país".
Em seu entender, os atrasos no projecto de valorização de locais portugueses de importância mundial, de que o Vale do Lapedo é exemplo, "decorrem de más políticas e incompetências dos governos nos últimos cinco anos". E evidenciam uma falta de vontade política que se reflecte no facto de persistirem em "diminuir o orçamento destinado à Cultura".
João Zilhão fala de uma "política de destruição" da investigação e administração do património arqueológico
do país