O antepassado das baleias era parecido com uma raposa

Todos os animais terrestres vieram do mar. As baleias, pelo contrário, descendem de animais terrestres que voltaram à água. Agora descobriu-se o primo dessas baleias arcaicas

a Há 48 milhões de anos, o Indohyus passava grande parte do tempo a chapinhar na água e a procurar as refeições nas costas do Norte da Índia. Apesar de gostar do meio aquático, também ia a terra comer vegetação, como os actuais hipopótamos, e não era um nadador exímio, pelo que se mantinha em águas pouco profundas e precisava de assentar as patas no fundo. Só com imaginação se encontra alguma semelhança entre este mamífero, do tamanho de uma raposa, com pêlo, e as actuais baleias. Mas o Indohyus terá partilhado um antepassado - em terra - com as baleias primitivas, revela hoje na revista Nature uma equipa americana.Sim, os antepassados das baleias eram animais terrestres, algo que se sabe desde o século XIX. "A maioria das pessoas tem a noção de que a vida terrestre surgiu a partir de vertebrados que deixaram o ambiente aquático. Todos os animais que ocuparam e ocupam o ambiente terrestre descendem desses primeiros colonizadores", comenta o paleontólogo português Luís Azevedo Rodrigues, do Museu de História Natural de Lisboa. "O que a maioria das pessoas não sabe é que o grupo de animais a que pertencem as actuais baleias descende de um grupo que "decidiu" voltar a ambientes aquáticos, donde tinham saído há mais 250 milhões de anos."
Talvez essa lacuna de conhecimento se justifique pelo facto de a actual locomoção das baleias em nada remeter para um passado terrestre. Mas não pode dizer-se o mesmo das baleias primitivas, surgidas há pouco mais de 50 milhões de anos. "No período Eocénico, entre os 55 e os 34 milhões de anos, os cetáceos apresentavam diversas morfologias corporais e modos distintos de natação, que iam do balanço da barbatana caudal até ao simples remar com quatro membros", diz Luís Rodrigues, que tem escrito sobre a evolução dos cetáceos no seu blogue Ciência ao Natural.
Da terra para o mar
Um dos avanços no conhecimento destas baleias antigas deu-se em 1983, quando um dos grandes gurus em evolução de cetáceos, Philip Gingerich, do Museu de Paleontologia da Universidade do Michigan, anunciou a descoberta, no Paquistão, do fóssil de uma baleia com cerca de 52 milhões de anos. O Pakicetus inachus, do tamanho de um cão (embora só se tivesse o crânio e a mandíbula), é a baleia mais arcaica que se conhece. Gingerich foi ainda quem descreveu, em 1990, as patas traseiras mais completas numa baleia, a Basilosaurus isis, do Egipto, com 40 milhões de anos.
Outro avanço ocorreu em 1994, com a descoberta da primeira baleia anfíbia, a Ambulocetus natans, com 49 milhões de anos, também no Paquistão. Era do tamanho de um leão-marinho e as patas tanto lhe permitiam deslocar-se em terra como nadar. Tais aptidões reflectiram-se no seu nome científico, que significa "baleia caminhante que nada", e a sua descoberta coube ao paleontólogo Hans Thewissen, o líder da equipa que hoje faz novas revelações sobre o passado dos cetáceos.
Todas estas criaturas (já se vai em mais de uma dúzia) contam a história da transição evolutiva das baleias, de terra para o mar. Mas continuava a faltar uma importante peça no puzzle: quem eram os antepassados terrestres?
O Indohyus dá uma resposta para a etapa anterior na saga das baleias, enquanto parente mais próximo dos primeiros cetáceos. O Indohyus ainda não é bem o elo perdido das baleias, mas é já uma criatura muito próxima desse misterioso antepassado. "Como os fósseis do Indohyus têm 48 milhões de anos e as baleias mais antigas têm cerca de 50 milhões de anos, o Indohyus não pode ser o seu antepassado", diz-nos por e-mail Thewissen, das Universidades do Nordeste do Ohio, EUA. Mas é uma boa indicação quanto ao aspecto do elo perdido.
Mistério em aberto
Para tirar as ilações sobre o primo direito das primeiras baleias, os cientistas verificaram, por exemplo, que os ossos do crânio e dos ouvidos do Indohyus apresentam muitas semelhanças com os daquelas baleias arcaicas. Ao analisarem a presença de certos átomos no esmalte dos dentes, os cientistas também determinaram que Indohyus devia passar muito tempo na água e conseguiram ter uma ideia do tipo de comida que ingeria.
Mas o que terá conduzido os antepassados das baleias a voltar ao mar? Esse mistério continua em aberto, embora alguns cientistas especulem que a causa de tal transição terá sido a procura no mar de uma dieta à base de peixes. Não é o que pensa Thewissen: "O Indohyus era herbívoro e já era aquático. A mudança para uma dieta baseada na caça de animais, como fazem as baleias modernas, surgiu depois da mudança de habitat para a água".
Desse mundo perdido, herdámos as mais de 70 espécies de baleias actuais, de que a baleia-azul, o maior animal da Terra, com 33 metros de comprimento e 190 toneladas, é um emblema. E o hipopótamo é agora o parente mais próximo dos cetáceos. Qualquer semelhança...