Crítica

Um monstro na cidade

Dá para perceber, até pela entrevista que nos concedeu, que se Bong Joon-Ho é um cineasta especialmente motivado pelo trabalho sobre convenções de género, essas convenções lheinteressam sobretudo pela sua elasticidade. "A Criatura" parte de uma base de género (a ficçãocientífica, variante "filme de monstros"), reduzida ao mais elementar - há um monstro à solta por Seul, capital da Coreia. Mas a partir daí ziguezagueia, condensa outros tipos de elementos genéricos (o melodrama familiar, a comédia), varia ambientes e tonalidades, insinua discursos ou comentários deâmbito mais vasto. Nesta perspectiva é uma espécie de objecto "conceptual", bastante curioso, namedida em que, cumprindo as regras e as expectativas de um "filme de monstros" não faz delas um ponto de chegada nem está aqui apenas para aviar uma receita. Em vez de pôr o género a rodar sobre si próprio, utiliza-o como uma "forma vazia", receptáculo de outras preocupações. Inclusive (e não negligenciemos o seu capital metafórico) preocupações de ordempolítica: parece evidente que "A Criatura" tem alguma coisa a dizer sobre as relações entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos (como já alguém lembrou, os EUA são "hóspedes" da Coreia do Sul, e "The Host", "o hóspede", é o título internacional do filme).Essa parte vai sendo dada por pormenores ao longo do filme, por vezes bastante bizarros. É um cientista americano, numa base militar dos EUA na Coreia, quemordena o lançamento ao rio dos produtos químicos que vão gerar a "criatura". Ponto de partida "ecológico", portanto, atirando estemonstro para junta da família de Godzilla, a mais célebre criatura do cinema asiático (e que representava, no Japão do pós-guerra, o medo colectivo deixado pelo rasto nuclear de Hiroxima). E ponto de partida para a enorme ambiguidade com que os EUA (e os seus representantes) são figurados nofilme - sempre uma entidade vagamente sombria e manipuladora, em contraste com a prostradaimpotência das autoridades coreanas.

Mas não é isto que "faz" o filme. Antes, e é sobretudo a primeira meia-hora, o registodesconcertantemente "móvel" com que Bong filma o monstro e a cidade. Uma longa sequência que tambémserve para apresentar as personagens principais, membros de uma família quase burlesca na suadisfuncionalidade (um pai viúvo, um filho frustrado, outro semiestupidificado, uma filha praticante detiro com arco, mais a miúda, filha do irmãoestupidificado, cujo desaparecimento constituirá o cerne narrativo do filme). As cenas com eles são pura comédia, acentuada pela montagem paralela(brilhantemente aplicada) que os faz coexistir com o aparecimento do monstro, dado em puro suspense e com uma espécie de discrição profundamente "realista". Apaisagem urbana, claro, sem adulteração visível para efeitos de espectáculo, mas também, por exemplo, o som, nunca "hiperbolizado". É uma primeira meia-hora surpreendente, com um ritmo muito particular e umaangústia perfeitamente sugerida, que joga ainda muito bem, a partir de todos aqueles contrastes, com um certo onirismo. Depois o filme, a bem dizer, nunca está à altura destes 30 minutos iniciais, e alguns apontamentos (as cenas no tugúrio do monstro, por exemplo) soam demasiado "formulaicos". Masnunca deixa de ser intrigante.