Luís de Freitas Branco Um compositor tão grande que assusta

A música em Portugal não seria a mesma sem este homem. E, contudo, só agora surge um livro que traça detalhadamente o percurso do genial compositor português da primeira metade do século XX. O seu nome? Luís de Freitas Branco

a O título, simplesmente Luís de Freitas Branco, é de uma simplicidade reveladora: à falta de uma obra de referência deste género, é toda a vida e toda a obra do maior compositor português da primeira metade do século XX que se procura desenhar, pela primeira vez, neste livro.Alexandre Delgado não esconde o seu contentamento por ver editado este livro: "Não havia uma grande obra de referência de consulta sobre ele. A falta de informação era perfeitamente calamitosa", diz o músico, compositor, musicólogo e apaixonado divulgador da música. Ele foi o principal impulsionador da obra e não esconde o orgulho ao falar desta edição pioneira.
Um livro deste género tinha sido imaginado há muito. Mas desde 2005, ano em que Alexandre Delgado conseguiu realizar com algumas instituições (Teatro de São Carlos e Orquestra Nacional do Porto) um festival dedicado ao compositor, o projecto deixou de ser uma miragem.
Uma listagem muito completa das obras foi feita nessa altura, novas obras foram reveladas e tocadas pela primeira vez e arrancou o tratamento de muito do material disponível.
Mas novas obras foram detectadas entretanto, entre 2005 e 2006, mostrando facetas ainda escondidas do compositor.
O livro (editado pela Caminho e o Teatro Nacional de São Carlos) foi, na verdade, uma obra feita a três. É assinado por Alexandre Delgado, Ana Telles e Nuno Bettencourt Mendes. "Eu já tinha tomado a decisão que tinha de fazer", diz Alexadre Delgado, "e julguei que não havia ninguém a estudá-lo". Entretanto foi descobrindo que até tem havido alguns trabalhos académicos sobre um ou outro aspecto de Freitas Branco, e que havia publicadas "coisas gerais ou coisas dispersas e muito pequeninas". "Mas o grande alento foi quando soube que a Ana em Évora e o Nuno em Inglaterra estavam a fazer doutoramentos sobre ele. Deu-me coragem", diz Delgado, sem esconder emoção.
Luís de Freitas Branco diz-lhe muito. Não se cansa de o exaltar como "uma figura máxima da cultura portuguesa de todos os tempos". Mas para Delgado é mais do que isso: ele envolveu-se de corpo e alma neste livro e fala de Freitas Branco como se fosse alguém muito próximo: "É como se fosse meu avô. É um pouco avô de qualquer compositor que se preze. Se não fosse ele não podíamos falar de composição tal como ela existe em Portugal. No meu caso pessoal foi mestre do meu grande mestre, o Joly Braga Santos."
Uma vida de muitas obras
Mas quem foi afinal Luís de Freitas Branco? Que vida tão rica e tão cheia de sobressaltos foi essa? E que obra é essa, ainda em parte desconhecida, que entusiasma músicos, forma compositores e desafia estudiosos?
Compositor, antes de mais. Luís de Freitas Branco tem obra, e não é pouca. Escreveu sinfonias e poemas sinfónicos, oratórias e cantatas, baladas, canções, concertos, sonatas, trios, quartetos, tudo o que um compositor na sua época devia experimentar, para a orquestra ou para conjuntos mais pequenos de música de câmara. Mas escreveu também obras surpreendentes nos temas, nos instrumentos utilizados ou nas formas de compor. Um exemplo, inevitável: a sua obra Paraísos Artificiais, escrita aos 20 anos e inspirada nas Confissões dum fumador de ópio de Thomas de Quincey (e traduzida por Baudelaire), que não serviu apenas para revelar a sua vasta cultura literária - provocou mesmo um verdadeiro escândalo na sua estreia em 1913. Não era só o tema evocado que era escandaloso. Era a sua música declaradamente moderna que era difícil de aceitar por um público português que estava ainda, no início do século XX, alheado de algumas das mais importantes correntes musicais europeias.
Com aquela obra, Luís de Freitas Branco veio agitar as águas e lembrar que o mundo musical era mais do que este cantinho à beira-mar plantado. "Uma pedrada no charco", é como Alexandre Delgado descreve este momento: "Estávamos ainda a começar a digerir o grande romantismo. As primeiras orquestras sinfónicas, tirando o São Carlos onde havia ópera, só nasceram em 1911. E só então é que se criaram as grandes obras do repertório sinfónico. É preciso ver que a nona sinfonia de Beethoven só foi estreada cá nos anos 20!..." (ou seja, 100 anos depois). E prossegue, explicando o importante salto estético inicial de Luís de Freitas Branco, que o aproxima de um compositor como Debussy: "O nosso atraso era colossal. Ele escreve Manfredo [uma sinfonia dramática para solos, coro e orquestra] aos 15 anos, num estilo romântico. E depois dá logo um salto para a revolução debussista."
Luís de Freitas Branco revelou muito cedo talentos para a música. De famílias aristocráticas (descendente do Marquês de Pombal, diz-se), teve aulas de música ainda na juventude com Augusto Machado e Tomás Borba, e uma formação cultural, científica e artística muito rica, influenciado pela formação germânica do seu tio, João de Freitas Branco.
"O extraordinário João", é assim que Alexandre Delgado se refere ao tio de Freitas Branco, um homem "que tinha uma biblioteca infinita" e que teve na sua educação um papel decisivo.
O aristocrata compositor
Antes de partir aos 20 anos para Berlim, em 1910, com o seu tio, Freitas Branco estuda musicologia, escreve as suas primeiras críticas musicais, e tem aulas de harmonia e contraponto com Désiré Pâque, com quem estuda a música moderna (as novas técnicas de Debussy, entre outros). Em Berlim tem aulas com o compositor Humperdinck, e quando volta a Lisboa é já um compositor que conhece muito bem as ferramentas da música e da composição. Irá depois a Paris alargar ainda mais a sua vasta cultura musical.
Alexandre Delgado fala com exaltação de Paraísos Artificiais, uma obra "que todos os portugueses deviam conhecer". Depois dos Paraísos, em 1913, Freitas Branco escreve Vathek, uma nova sinfónica "pedrada no charco".
Alexandre Delgado diz que não vai descansar enquanto não vir pelo menos essas duas obras tocadas por uma grande orquestra mundial: "Fico estarrecido quando encontro alguém do meio musical que não conhece os Paraísos Artificiais, não sabe o que é. É uma lacuna cultural. Não só em Portugal, no mundo inteiro - é uma das obras essenciais da sua época. Estou à espera que um grande maestro inclua os Paraísos e o Vathek numa grande etiqueta, numa Deutsche Grammophon." E não perde a esperança - "acho que vai acontecer; é inevitável, porque é uma música deslumbrante e fascinante em qualquer parte do mundo".
O italiano Paolo Pinamonti, musicólogo, é o autor do prefácio do livro agora publicado. Era também director do Teatro de São Carlos na altura em que se realizou o Festival Freitas Branco de 2005. Para Pinamonti, Luís de Freitas Branco é "uma das grandes figuras da música portuguesa". A obra do compositor, diz, "obriga a rever a história da música do século XX e a reflectir de uma forma diferente", porque "não pode ser vista apenas na dupla óptica progresso/reacção".
O modernismo de Freitas Branco é para Alexandre Delgado um dado "inelutável". E, embora concorde "sem dúvida" com a expressão de "introdutor do modernismo em Portugal" que lhe ficou associada (graças a Lopes-Graça e repetida depois por muitos outros), ele pensa também que é um compositor "paradoxal e multifacetado". Pinamonti prefere destacar o lado "sensível, curioso e aberto" de Freitas Branco. E explica que "mesmo nas obras em que não há novidade linguística isso acontece." Por isso acha particularmente interessante a perspectiva que foi adoptada no festival em 2005, "pondo-o lado a lado com compositores europeus da mesma época". E pensa que o seu modernismo pode ser comparado com o de compositores como Manuel de Falla, Casella ou Malipiero.
Mais do que um compositor
Mas para além de compositor, Freitas Branco tem uma acção cultural muito vasta.
"Ele multiplicou-se em tantas vertentes que não é possível resumir. Espero que este livro ajude a mostrar à comunidade científica as infinitas zonas de estudo que a figura permite." Porque, além da música, "há a parte pedagógica, a relação com emissora nacional, o papel como conferencista e musicólogo..."
Alexandre Delgado detém-se por momentos. Parece rever mentalmente o livro em que se empenhou e todos os materiais de investigação em que pegou durante anos: cartas, partituras, textos em jornais e revistas, críticas, ensaios, diários, documentos oficiais, recortes, fotografias. Mas é ainda a música aquilo que o mais toca: "Sobretudo a música. Em cada obra em que volto a pegar, escuto sempre qualquer coisa que não tinha ouvido. Não se pode pôr uma etiqueta - ele não é comparável com nada."
Luís de Freitas Branco foi professor e musicólogo, num tempo em que a musicologia ainda não existia. Delgado dá um exemplo: "Ele foi o grande descobridor da polifonia dos séculos XVI e XVII. Foi o primeiro a mexer nesses manuscritos na biblioteca de Évora." Foi também Freitas Branco que criou (em 1919) o curso de "Ciências Musicais", que incluía as disciplinas de Acústica, História da Música e Estética Musical, quando impulsionou, com Viana da Mota, uma importante reforma do Conservatório, mais tarde em grande medida desfeita pela acção do Estado Novo.
As suas convicções políticas e o seu percurso intelectual também têm merecido alguma discussão. Uns preferem dizer que foi "paradoxal", outros elogiam a sua coerência e rectidão ao longo da vida. Monárquico e aristocrata, Luís de Freitas Branco foi activo no movimento do Integralismo Lusitano (de extrema-direita), antes da instauração do Estado Novo. Alexandre Delgado explica que ele "esteve de corpo e alma com o Integralismo Lusitano, queria recuperar as tradições, o espírito nacionalista e monárquico." Mas nos anos 30 parece haver um afastamento progressivo em relação ao regime e aos ideais de direita: "Em 1930 o seu diário faz uma imagem bastante nítida da evolução mental dele. Como ele tinha visto o integralismo como modo de combater um certo idealismo romântico no modo de encarar a criação artística. Mas depois afastou-se e começa também a opor-se à mesquinhez do regime", diz Delgado.
Este afastamento tem certamente a ver com contacto com figuras como António Sérgio e Bento Jesus Caraça. Em 1940 compõe ainda a Abertura Solene 1640, uma obra de circunstância composta para as comemorações do regime no ano da Exposição do Mundo Português.
Mas em 1941 Freitas Branco escreve no diário: "Não posso servir as direitas, a religião católica e a moral burguesa em que não creio. Só tenho uma coisa a fazer: romper, viver a vida em que creio, a vida da verdade." Não parece referir-se apenas à política, mas sobretudo à sua vida pessoal e moral, coisas para ele inseparáveis. Por isso defendeu também os seus colegas e amigos das perseguições políticas a que foram sujeitos. Sai em defesa de Lopes-Graça quando este é perseguido pela PIDE, por exemplo.
Alexandre Delgado recorre às palavras de um outro intelectual importante da oposição para clarificar a atitude intelectual de Freitas Branco: "Mário Dionísio chamava-lhe monárquico e socialista. Ele de facto era isso. Até ao fim da vida dizia que era monárquico, embora achasse que era inviável. Mas era uma aristocracia do espírito que ele defendia. Uma elevação espiritual. E queria também elevar o nível cultural de toda a população. Por isso passou tantas décadas de trabalho como musicólogo, compositor, professor."
Ataques mesquinhos
Alexandre Delgado conta vários episódios em que ele foi alvo de ataques por motivos mesquinhos: "Ele foi obrigado a demitir-se do Conservatório em 1934 por razões da sua vida privada, porque teve um filho com uma senhora que era funcionária do Conservatório."
Antes disso, o compositor Rui Coelho orquestrou uma campanha que acusou Freitas Branco de plágio: "Disse que a Sonata para Violino era um somatório de plágios e que ele era um tolo mascarado de compositor. Isso criou um terramoto na imprensa que durou meses. Num país muito inculto viam isso como um roubo. Mas acabou por ser bom. Deu publicidade ao Freitas Branco. Gerou ondas de apoio e de repúdio envolvendo figuras como o Viana da Mota. Só as pessoas conhecidas pelas piores razões estavam contra ele", conta Alexandre Delgado.
Mas não ficaram por aí os ataques a Freitas Branco: "Durante toda a vida lhe quiseram atirar lama para cima. Houve perseguições. Por exemplo uma sindicância ignominiosa em 1940 invocando o moralismo mais hipócrita. Porque se referia de forma indecorosa ao menino Jesus ou porque recomendava às alunas que escolhessem um marido que fosse mais móvel do que o São José." Segundo Delgado, "é o retrato do Portugal daquela época". E conta ainda um outro episódio: "Em 1951 foi demitido da Emissora Nacional por ter aparecido com uma gravata avermelhada no dia a seguir à morte do Marechal Carmona."
A todos os ataques Freitas Branco respondia com uma rectidão intelectual que os seus amigos e colegas lhe reconheciam (mesmo os que discordavam das suas ideias) e que para ele eram características intelectuais essenciais.
Uma herança complicada
A sua vida privada foi cheia de peripécias. Teve várias mulheres, coisa que grande parte da sua família católica e conservadora teve dificuldade em aceitar. E segundo João Maria de Freitas Branco, filósofo, neto do compositor (e autor de O músico-filósofo, um livro sobre a modernidade filosófica e científica do seu avô) e um dos seus herdeiros, a sua atribulada vida sentimental é, indirectamente, a causa de um dos problemas com que se debatem hoje os estudiosos: "A dispersão dos materiais tem a ver com a sua vida sentimental", diz. "Tem sido difícil juntar as coisas, por várias razões. Ele teve apenas um filho [João de Freitas Branco], mas o único filho não é o único herdeiro."
De qualquer forma, neste aspecto da reunião do espólio do compositor e do acesso aos documentos, para João Maria de Freitas Branco "as coisas já estiveram piores".
Alexandre Delgado diz que é desejável que se consigam juntar todos os materiais e partituras na Biblioteca Nacional, em Lisboa, e compreende que "a complicação do espólio pode ter desanimado muita gente. Há os problemas de juntar as coisas e a questão dos herdeiros". No entanto, "o material que se conhece já permite fazer doutoramentos...", diz.
Alexandre Delgado guarda provisoriamente uma grande parte dos materiais. E resume o que pensa que tem de se fazer no futuro: "É importante que apareça rapidamente tudo o que ainda não apareceu; que pelo menos todas as obras importantes sejam editadas. É de bradar aos céus o facto de o Vathek não estar editado. É como não estar editada a Mensagem do Fernando Pessoa. É igualmente escandaloso."
Delgado gosta da comparação com Fernando Pessoa porque, com todas as diferenças, pensa que Freitas Branco "é uma figura da mesma craveira": "Eles fizeram em áreas diferentes uma revolução equivalente. Responderam no novo século à necessidade vertiginosa de actualização."
Para Alexandre Delgado é importante "que este livro se torne obsoleto rapidamente, porque ele não é um ponto de chegada mas um ponto de partida". E espera que seja um estímulo para estudiosos e musicólogos fazerem coisas equivalentes com outros compositores portugueses.
A figura de Freitas Branco, diz, "é capaz de ter assustado muita gente, por ser tão grande". Mas Alexandre Delgado promete não deixar o trabalho por aqui: "Ao fim de 20 anos de estudar o Freitas Branco eu não estou farto, nunca vou estar farto - porque ele é inesgotável."