Adeus gato

Como calculam, nada me move contra Souto de Moura. Não o conheço, nem me lembro de o ter visto. Portanto, tudo aquilo que sobre ele possa escrever é a reacção de um cidadão normal. Que de certo modo se reforçou com a ideia que começou a surgir de que ele tinha sido uma vítima e que não se tinha valorizado suficientemente a sua independência. Pessoalmente, acho que foi independente sobretudo por uma enorme distracção. Não terá ele percebido, por exemplo, que o Presidente tinha de o manter em funções para não dar a ideia de que procurava proteger os nomes que haviam surgido no processo da Casa Pia?Souto de Moura conta, na entrevista dada ao Tabu no Sol, uma história extraordinária. Quando ele era estudante em Coimbra, assistiu à visita do Presidente Tomás, à proibição de falar relativa a Alberto Martins, às prisões que se seguiram e à greve aos exames que os alunos decretaram. Contudo, o nosso homem não entendeu nada. Ele achou que tudo aquilo era uma manifestação pouco espontânea. E, portanto, embora fosse um indómito homem de esquerda, ele furou a greve. Até porque achou que os alunos em muitos casos decretavam a greve para poderem escapar aos exames. Aqui, a gente pergunta-se: será que ele acredita mesmo no que está a dizer ou quer-nos fazer passar a todos por parvos? Ele explica: "Não estava interessado nem em apoiar, nem em combater o regime, o que queria era que me deixassem fazer a minha vida." Ficamos elucidados. Com uma esquerda assim, ainda hoje teríamos o regime oriundo dos tempos de Salazar.
Que lhe aconteceu depois? Houve um efeito "bola de neve", e ele aproximou-se dessa gente, todos de esquerda certamente, que também tinham feito exames e que "não sentiam ali nem comissários políticos do Governo, nem militantes maoístas".
Isto explica todo o seu percurso. Miguel Sousa Tavares já analisou minuciosamente os seus múltiplos erros. Pessoalmente, salientarei dois: primeiro, o ter usado um procedimente tecnicamente incompetente com fotografias de pessoas conhecidas (desde Vasco Graça Moura ou de Baptista Bastos ao cardeal-patriarca e eu próprio) para identificações no caso da Casa Pia. A segunda foi o facto de, no caso do "envelope 9", ao fim de meses de aturada investigação, ter chegado à conclusão que tinha desde o início: o culpado da mensagem era o mensageiro, ou seja, os jornalistas que tinham denunciado o escândalo.
Estranha-se que Vitalino Canas, em nome do PS, não o quisesse ouvir na Assembleia, dizendo que o simples facto de não ter sido reconduzido (o que era legalmente impossível) já era sanção suficiente, e que sobre o assunto quem se devia pronunciar era o dr. Pinto Monteiro! Há aqui qualquer coisa que não tem bom aspecto.
Entretanto, o dr. Souto de Moura continua a pensar que foi vítima da comunicação social, no que é auxiliado por alguns jornalistas como José António Saraiva, que, em editorial do Sol, fala nos poderes ocultos. Lá vem a Maçonaria (não, nunca tive nada com a Maçonaria), que organizou toda a campanha contra o indefeso "gato constipado". Creio que podemos agora dizer: adeus, gato, esperemos que em definitivo. Doutro modo, arriscamo-nos a vê-lo, sempre de esquerda, no CDS. Professor universitário