"É um grande marco o Museu da Língua ser o mais visitado do Brasil"

O êxito ultrapassou as melhores expectativas. Há filas que dão a volta à Estação da Luz, um edifício histórico em São Paulo onde em Março abriu o primeiro museu dedicado à língua portuguesa. É um espaço interactivo e de entretenimento, onde as novas tecnologias encontraram a academia.
Por Isabel Salema (texto) e Enric Vives-Rubio (foto)

José Roberto Marinho, filho de Roberto Marinho, fundador da TV Globo, está em Portugal para receber um prémio da Fundação Luso-Brasileira pela criação do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O ex-jornalista, de 50 anos, é o presidente da Fundação Roberto Marinho, que desenvolveu o projecto do novo museu. Marinho, que é também vice-presidente das Organizações Globo, com a área da responsabilidade social, diz que a televisão, nomeadamente a TV Globo, é "fundamental" para a difusão da língua portuguesa.
A entrega do prémio estava marcada para ontem à noite, no Casino do Estoril, numa cerimónia onde foram também distinguidos a maestrina Joana Carneiro, a empresa Natura e o escritor José Aparecido de Oliveira.
PÚBLICO - Em seis meses de existência, o Museu da Língua Portuguesa é já o mais visitado do Brasil. A que se deve o êxito?
JOSÉ ROBERTO MARINHO - Tem 345 mil visitantes, uma média de 57 mil por mês. O êxito foi acima da nossa expectativa. Estamos agendados até ao final de 2007 com as escolas. Temos filas e filas de estudantes, todo o dia, que dão a volta no quarteirão.
Quando alguém pensa num museu da língua, pensa numa coisa maçadora, chata. Afinal, parece a galinha dos ovos de ouro.
Exactamente. Foi um desafio muito grande fazer alguma coisa em torno de uma língua e transformar isso numa coisa interessante. Quando digo a uma pessoa que tem que visitar o Museu da Língua Portuguesa, ela fica me olhando assim... A pessoa pensa que vai encontrar livros, biblioteca... Uma coisa pouco interactiva, pouco interessante.
Resolvemos reunir a história da língua, a profundidade académica e a alta tecnologia. Reunimos uma equipa, mais de 80 pessoas, entre artistas, intelectuais e académicos. Foi surgindo toda a ideia do museu, etapa por etapa: o uso do vídeo, das novas tecnologias e da interactividade. Para que pudesse despertar, principalmente no público infanto-juvenil, um grande interesse pelo estudo da língua.
É um grande marco ser o museu mais visitado do Brasil?
É um grande marco. Principalmente, com essa questão das crianças ficarem tão interessadas, tanto tempo lá dentro.
O primeiro briefing que definimos para o museu era fazer uma coisa que não existisse em nenhum outro lugar do mundo. Isso eliminava qualquer museu da ciência, museu de história natural...
Tínhamos que partir para algo diferente, que chamasse a atenção. E como a nossa matéria-prima é a língua portuguesa, tanto na fundação quanto nas nossas empresas - que são de media (entretenimento e jornalismo) -, pensámos que íamos fazer alguma coisa em torno da língua portuguesa.
O nível de instrução no Brasil, em relação à língua portuguesa, é médio ou baixo. Como é que pensaram este problema?
Nós desde o início que quisemos fazer um museu para a grande massa. Preocupámo-nos com isso. Ali, é a estação do metro com ligação ao trem do subúrbio e temos uma passagem de 400 mil pessoas por dia. São números fantásticos. Pensámos em levar um pequeno percentual dessas pessoas lá para cima. Principalmente, fazer um programa com as escolas públicas para trazer todo o pessoal da periferia. Ele foi direccionado para um público ainda em fase de instrucção. E também com instrução básica. Com qualquer nível de instrução, uma pessoa chega ali e se entretém.
Uma das críticas fala um bocadinho do museu como um parque de diversões da língua portuguesa.
Que bom, acho essa crítica um elogio.
O que é que gosta mais do museu? O que funciona melhor?
A nível de instrucção e de curiosidade são os totens das palavras, onde você tem um computador e vai navegando. A garotada fica horas ali. As palavras vão abrindo, mostrando significado, a origem dela, a cultura donde veio. Acho fantástico. Sentados na sala de aula com papéis para procurar a origem das palavras dificilmente conseguiria esse resultado.
O português do Brasil tem uma percentagem alta de mestiçagem, indígena e africana. Uma língua mais global poderá fazer desaparecer essa característica?
Não acredito. Inclusive, o português do Brasil não só sofreu influências dos africanos e dos indígenas mas também dos outros povos que se mudaram em grandes quantidades. São Paulo é o exemplo disso, a massa de gente da Itália... Acredito que temos absorvido mais palavras estrangeiras até do que Portugal.
Eu também não acredito no empobrecimento do português em relação às línguas africanas e indígenas. Não é isso que a gente tem percebido. Podem sobreviver perfeitamente, porque ao mesmo tempo que tem o fenómeno da globalização, tem também a valorização das culturas locais, é um contra-fluxo. Pelo contrário, vai ser valorizada essa diversidade.
Como é vê a influência dos media, e da Globo, que aqui é sinónimo de televisão, na língua portuguesa?
A televisão tem um papel fundamental no Brasil, porque nós na Globo produzimos, no horário nobre, mais de 95 por cento do que exibimos. Nesse horário, onde tem uma grande massa de audiência, não exibimos produtos importados, enlatados, americanos.
A língua é portuguesa e não é traduzida, é portuguesa mesmo na sua origem. As novelas têm tramas interessantes, com temas actuais ou locais. É uma forma de as pessoas se informarem, uma vez que nós ainda estamos num caminho longo de melhorar a educação no Brasil. A televisão continua sendo um ponto importante de informação, tanto na parte de jornalismo, como na de entretenimento.