Ideia de acabar com os comboios Intercidades é inaceitável

Autarcas e representantes políticos de Guarda, Covilhã e Castelo Branco mostram-se revoltados contra a intenção da CP e prometem reagir

A intenção da CP de acabar com as ligações directas de Intercidades entre Lisboa e a Covilhã está a ser mal recebida no distrito de Castelo Branco, com os autarcas da região a considerarem a ideia inaceitável. Se a Linha da Beira da Baixa não é rentável é porque a CP não tem sabido cativar os clientes e nem cumprir os horários, entende o presidente da Câmara de Castelo Branco, o socialista Joaquim Morão, que anuncia que vai enviar uma carta à empresa pública a dar conta do descontentamento da edilidade quanto a esta possível medida.Do lado da Covilhã, o social-democrata Carlos Pinto diz que o fim das ligações directas para a capital seria "completamente inaceitável". No caso da cidade serrana, os passageiros que optem por ir de comboio até Lisboa terão não só de se sujeitar a um transbordo no Entrocamento, como também em Castelo Branco, se a intenção vier a ser concretizada. Isto significaria, para o líder do município da Covilhã, uma "contradição com a aposta na modernização da Linha da Beira Baixa", uma vez que têm sido várias as melhorias feitas no trajecto, com a electrificação incluída - já feita entre Mouriscas e Castelo Branco e em curso da capital da Beira Baixa até à Covilhã -, de forma a encurtar distâncias. "Esta intenção [da CP] é mais um sinal de que não existe uma política para os caminhos-de-ferro em Portugal", refere Carlos Pinto. A Câmara da Covilhã vai tomar uma decisão política quanto a esta matéria já na próxima reunião do executivo, que se realiza na sexta-feira, e que deverá ser depois comunicada à CP e à tutela. Se o Governo vier a alinhar no fim do Intercidades, "outras medidas serão tomadas", garante o autarca, sem para já adiantar mais pormenores.
Já a governadora civil de Castelo Branco, Alzira Serrasqueiro, diz que "não há motivo de preocupação" de momento, visto que, nota, contactou o Governo e foi-lhe dito que "não há nenhuma intenção política, a nível da tutela, nesse sentido". Alzira Serrasqueira faz notar que o que existe são apenas estudos da CP e que, do lado do Governo, tem havido uma especial atenção relativamente à Linha da Beira Baixa. Para além da electrificação da linha até à Covilhã, que se prevê que esteja concluída no último trimestre deste ano, já foi anunciado que o troço até à Guarda não vai ficar de fora desta intervenção, refere, ao entender que não tem qualquer sentido acabar com o serviço de Intercidades.
"Não quero acreditar que seja verdade"
Na Guarda, a reacção é de incredulidade. O líder distrital do PS e deputado eleito pela Guarda, Fernando Cabral, não quer acreditar que a empresa tenha como objectivo acabar com o Intercidades entre Lisboa e a Guarda, sustentando que seria "uma medida inconcebível, que iria penalizar a região". Por seu lado, tanto o presidente da câmara, Joaquim Valente, como a governadora civil, Maria do Carmo Borges, ambos igualmente socialistas, admitem desconhecer a decisão da CP e escusam-se, por agora, a tecer quaisquer comentários.
"Não quero acreditar que seja verdade até porque vai contra a decisão que o Governo tomou, de não cobrar portagens na A23 e na A25", frisa Fernando Cabral, concluindo que, "se isso se viesse a verificar, seria uma grande perda em termos de um serviço de qualidade que o distrito da Guarda tem, ainda para mais quando se diz que o comboio é o transporte do futuro, amigo do ambiente".
O deputado, que já questionou o Governo sobre o assunto, disse ainda ao PÚBLICO que teve já "um contacto com a secretária de Estado dos Transportes, que manifestou desconhecer essa intenção da CP". No caso de se concretizar a medida, Cabral assegura que a Federação Distrital do PS vai "demonstrar a sua repulsa". Também a Assembleia Municipal da Guarda aprovou uma moção a pedir explicações ao Governo sobre o futuro do Intercidades.5

"A CP deve é incentivar a utilização do comboio e organizar-se convenientemente." O desafio vem de Joaquim Morão, o socialista que preside à Câmara de Castelo Branco e que diz não conceber a ideia de os albicastrenses passarem a ter de ir de automotora eléctrica até ao Entroncamento, onde terão de mudar de comboio para chegarem à capital. "Vamos fazer valer esta nossa ideia junto da CP", garante o autarca, ao frisar que os albicastrenses vão muito a Lisboa e, se não têm usado o comboio, é porque os autocarros, que "vão sempre cheios", "têm conseguido prestar um melhor serviço" do que a empresa pública. "Como é que a CP quer uma Linha da Beira Baixa rentável se não é capaz de cumprir horários?", questiona o autarca de Castelo Branco.