A Naifa

Três Minutos Antes de a Maré Encher

Foto

O que há de curioso nesta Naifa é o fado não ser encarado como folclore mas antes como música urbana, no sentido moderno do termo. A adição do baixo eléctrico transforma tudo, dá um peso rítmico, uma marcação que é rara no fado (onde normalmente se vai atrás da voz e que Deus nos ajude). A electrónica é um "affair" de somenos importância – mais pertinente é assinalar o ataque de Luís Varatojo à guitarra, que, no primeiro disco, era feito à base de quadros, pequenos riffs colados entre si.

Neste "Três Minutos Antes de a Maré Encher" a coisa altera-se: a guitarra não conduz mas também já não se limite a esse truque de "Led Zepellin com xaile": torna-se elemento harmónico, rodeia, saltita, abrilhanta. Dá um passo atrás, recusa o foco, preocupa-se com os acabamentos. Com isto realça-se a voz mais que segura de Mitó. Um dado simples para a interpretação de "Três Minutos...": a entrada de "Da uma da noite às oito da manhã" soa a anos 80 por todos os lados, com aquele baixo em pizzicato, corrido, como numa banda do pós-punk, e a guitarra, duas, três notas. Ligeiros acertos digitais e a voz – é tudo. Questão mais de atmosferas que de refrões. O que não invalida que haja aqui canções – e "Monotone" (entrada de bateria e a repetição da guitarra a dar o mote ao título) é-o, sem condescendência alguma. Há algo de cinemático nas canções d'A Naifa e uma delas (talvez "a" canção do disco, "Fé") assemelha-se a um "travelling" sobre Lisboa, varandas e tristezas presas no varal por uma réstia de nada: os sinos lá atrás, a guitarra numa obsessão de acordes menores e a voz de Mitó a narrar histórias de estátuas fluorescentes da Virgem Maria. Assim dito parece pouco, não é um single pop óbvio, mas é muito. Há mais uma a pedir lugar em banda-sonora alfacinha: "Todo o amor do mundo não foi suficiente", tragédia cantada com pudor, exercício de retrosaria à guitarra, arranjo mínimo de violoncelo. Uma ou outra opção discutível (bastantes dúvidas quanto à electrónica de "Señoritas"), um sinal: "A verdade apanha-se com enganos" abre pistas para futuros fora do fado (que fado?); e mais um disco coeso até à medula e pejado de belas canções. Não é fado. Nem tradição. Nem modernindade. É apenas bom. Bastante bom.