Citânia de Sanfins candidata a património da humanidade

A Citânia de Sanfins faz parte de um grupo de sítios arqueológicos do norte de Portugal e da Galiza que vai apresentar uma candidatura a património da humanidade. O processo será formalizado à Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 2010. Localizada em Paços de Ferreira, a citânia tem cerca de quinze hectares e é a maior escavação arqueológica do norte português e da Galiza. Ela é considerada monumento nacional desde 1946, pela sua importância na identificação e conhecimento da cultura castreja. Essa cultura retira o seu nome dos castros, povoações localizadas no alto dos morros e que, em alguns casos, acabaram por se tornar os ancestrais dos actuais concelhos e freguesias e de algumas das actuais manifestações culturais e religiosas. Os castros existiram entre o primeiro milénio A.C. e grande parte do século I D.C. Eram uma cultura indígena, com forte influência céltica. O tronco linguístico era o indo-europeu, posteriormente com influências célticas e romanas.A possibilidade de vir a ter um sítio local como património da humanidade já provocou alterações na estrutura da Câmara Municipal de Paços de Ferreira. Desde a semana passada, o pelouro da Cultura, Educação, Turismo e Políticas da Juventude, também passa a ser formado pela área de Património Histórico.Além de participar da candidatura conjunta luso-galega à Unesco, existe ainda a possibilidade de que Paços de Ferreira venha a ser definida como sede do projecto, tanto pela importância das escavações locais como pelo facto de que a ideia inicial foi lançada em um colóquio ocorrido em Maio no Centro de Arqueologia Castreja e Estudos Célticos do Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins.Naquela ocasião, foi aprovada a criação de um grupo de trabalho que deverá organizar todo o processo de apresentação da candidatura às Nações Unidas. Esse grupo deverá reunir-se no próximo dia 24, na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, para organizar a primeira Conferência Semestral para a Candidatura da Cultura Castreja a Património da Humanidade.De acordo com o director da Estação Arqueológica e do Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins, Armando Coelho, a apresentação da candidatura significa uma forma de se garantir a preservação da identidade regional, que é anterior à formação da nação portuguesa. "Não podemos ficar com uma história política que só é conhecida a partir dos limites da nacionalidade. Há informações em termos de previvências que não são inteligíveis se nós fizermos a nossa história só até o começo da nossa nacionalidade ou até o começo da era romana. Temos que ir mais parar trás", disse.Vinhas da IraMas, para o director do museu, existe um objectivo mais imediato, relacionado com a candidatura e que tem a ver com a urgência de se garantir a sobrevivência física de locais como a Citânia de Sanfins. "Não queremos que aconteça aqui o que aconteceu no Alto Douro, quando um património da humanidade acabou por destruir parte do que também poderia ser considerado património mundial", disse, referindo-se à classificação da zona do Alto Douro Vinhateiro como área de Património da Humanidade. "Quantos castros não foram destruídos com a plantação das vinhas, do marquês até agora? Temos um objectivo estratégico que é defender o património, mas o património só se torna património porque se conhece. Nada é património se não se conhece", concluiu.Segundo Armando Coelho, que também é professor de arqueologia da Universidade do Porto, a região norte e a Galiza possuem perto de cinco mil povoados que, no total, formavam uma população estimada entre trezentos mil e quinhentos mil habitantes. Em alguns casos, como a Citânia de Sanfins, o número de moradores ultrapassava os três mil. Ou seja, a Citânia que existia há mais de dois mil anos tinha aproximadamente o mesmo número de habitantes da freguesia a quem cedeu o nome, Sanfins de Ferreira.Segundo o director do museu, o que já foi descoberto e escavado até hoje no norte português e Galiza é pouco superior a um por cento da área representada pela cultura castreja.Rumo a 2010Até a apresentação da candidatura, daqui a seis anos, ainda existe muito trabalho a fazer. O principal refere-se à necessidade de buscar apoios entre os centros de decisão, como é o caso das autarquias, entidades ligadas à preservação do património e o Estado português, através do Ministério da Cultura. Do lado da Galiza, o governo regional já manifestou o interesse em participar no projecto, através da inclusão de sítios integrados no contexto da Rede Galega do Patrimonio Arqueoloxico. O sítio de San Cibrán de Lás, em Ourense - que vai integrar o futuro Parque Arqueloxico de la Cultura Castrexa - , já foi alvo de cerca de oito milhões de euros em investimentos, em uma área que é aproximadamente um quarto da Citânia de Sanfins.Do lado português, os integrantes dos grupos de trabalho e que estiverem encarregados por escavações vão tentar fazer programas de valorizações de cada uma delas, de forma a criar características uniformes a todas.De acordo com informações da Unesco, a apresentação de candidaturas é feita anualmente ao Comité do Património Mundial da Unesco, por cada estado que tenha subscrito a Convenção para a Protecção do Património Mundial. Até 2001, Portugal tinha doze locais definidos pela Unesco como património da humanidade.A influência castreja no norte de Portugal pode ser sentida principalmente em praticamente todas as áreas do quotidiano da região norte, segundo o professor de arqueologia Armando Coelho. Como exemplo, o docente da Universidade do Porto cita as próprias palavras "Ferreira" e "Sanfins": "Ferreira", segundo Armando Coelho, que está ligado não apenas ao concelho de Paços de Ferreira mas também ao rio do mesmo nome, pode derivar da tradição metalúrgica dos povos castrejos em trabalhar o ferro. A descoberta de altos-fornos de fundição desse metal, na citânia, pode reforçar essa tese.Já o nome Sanfins pode ter a sua origem em uma complexa ligação a São Torquato. "Eu só vim a descobrir quem era sanfins, quando percebi que Félix - que dá fins -, era um cognome de Torquatus ou Torquato Félix. Torquato Félix era, na verdade, São Torquato. Isso significa que quando eu me refiro a Sanfins estou a dizer São Torquato. E o nome torquato refere-se ao chefe que usava o 'torques' e que era um colar que se usava à volta do pescoço em época pré-romana. Então, São Torquato não é nada mais do que o chefe que organizava e presidia os cultos, ou seja, tinha ao mesmo tempo o poder político e religioso", afirma Armando Coelho.As casas castrejas, caracterizadas sobretudo pela forma circular em pedra e pelos telhados de colmo também são exemplos da permanência dessa cultura no quotidiano recente do norte. "É exactamente o mesmo tipo de casa existente em Portugal até a Revolução Industrial e que ainda existe, por exemplo, no Barroso e em Trás-os-Montes. É absolutamente igual, inclusive na disposição interna", completou.Outro ponto citado por ele a respeito da sobrevivência e importância da cultura castreja refere-se à possibilidade de que esses povos já utilizassem mecanismos de relacionamento sociais tradicionalmente associados à Idade Média. Seria o caso de documentos em pedra, encontrados em escavações na região de Vila Nova de Gaia, que revelaram a existência de "contractos de hospitalidade", entre povos locais e romanos, de forma a sugerir relações muito semelhantes às existentes entre senhores feudais e servos.Texto: Caixa - Locais que integram a lista luso-galega à UnescoToques:A candidatura luso-galega a património da humanidade deverá ser apresentada à Unesco em 2010 apresenta, inicialmente, os seguintes sítios:Norte de PortugalCitânia de Briteiros (Guimarães)Citânia de Sanfins (Paços de Ferreira)Citânia de Santa Luzia (Viana do castelo)Citânia do Monte Mozinho (Penafiel)Cividade de Terroso (Póvoa do Varzim)Cividade de Bragunte (Vila do Conde)Cividade de Âncora (Caminha / Viana do Castelo)Castro de São Lourenço (Esposende)Castro de Alvarelhos (Trofa)Castro de Carmona (Barcelos)Castro de Eiras (Vila Nova de Famalicão)Castro de São Julião (Vila Verde)Outeiro Lesenho (Boticas)Outeiro Carvalhelhos (Boticas)Outeiro do Pópulo (Alijó)Outeiro de Romariz (Santa Maria da Feira)Outeiro de Baiões ((São Pedro do Sul)Outeiro de Cárcoda (São Pedro do Sul)Cabeço do Vouga (Águeda)GalizaSanta Tecla (Foz do Minho)San Cibrán de Lás (Ourense)Castromao (Ourense)Vilalonga (Lugo)Borneiro (Coruña)