Lisboarte de autocarro

O encontro para iniciar o último "Lisboarte" deu-se às três e meia de anteontem na galeria Arte Periférica, no Centro Cultural de Belém (CCB). Mais 12 galerias espalhadas pela cidade de Lisboa inauguravam ao mesmo tempo exposições de arte contemporânea. Foi no âmbito da Lisboa 94 que começou o evento Lisboarte, que, seis vezes por ano, divulga a actividade das galerias de arte contemporânea, inaugurando, simultaneamente, novas exposições, em diversos pontos de Lisboa. "Entretanto, a iniciativa entrou numa rotina e não captava novos públicos", explica Pedro Reigadas. Por isso, à saída do CCB, uma camioneta, facultada pela CML, estava pronta para arrancar e percorrer um circuito de arte. Entre os convidados, estavam o secretário de Estado da Cultura, José Amaral Lopes, e o presidente do Instituto das Artes, Paulo Cunha e Silva. Para além de Pedro Reigadas, presidente da Associação Portuguesa de Galerias de Arte (APGA) e Paulo Braga, chefe de divisão de Programação e de Divulgação Cultural da Câmara Municipal de Lisboa (CML), a comitiva levava poucos jornalistas e alguns curiosos foram-se juntando à caravana ao longo da tarde de sábado. A divulgação do circuito em autocarro não foi, por enquanto, feita junto do público em geral. Desta vez, foi uma experiência e as expectativas eram muitas. Já na recta final, Paulo Braga comentava que a iniciativa tinha corrido bem. "A nossa ideia é, no futuro, transformar este circuito num itinerário cultural, que esteja disponível para as pessoas."No Porto, a estratégia das inaugurações simultâneas também é seguida, e tem sucesso acrescido devido à concentração de galerias de arte numa mesma rua da cidade. "Acho que Lisboa relativamente ao Porto tem um desconforto que é o facto de as galerias estarem muito disseminadas pela cidade, e portanto, não tem a mesma eficácia que tem no Porto, onde tudo acontece na Rua Miguel Bombarda", afirma Paulo Cunha e Silva. Ambas, no entanto, "são estratégias que articulam a dinamização cultural com a dinamização da cidade também, e portanto, fazem todo o sentido".Depois da exposição de Paula Sousa Cardoso, "As Máquinas Desejantes", na galeria Arte Periférica, a paragem seguinte foi na Galeria Luís Serpa para ver "Sublime Audácia - A Experiência do Passeante - Parte 2c", de João Vilhena. O artista achou curioso os visitantes chegarem daquela forma até porque se adaptava ao tema. Nas peças de João Vilhena, os "passeantes" reflectem-se em tamanho real no negro que ocupa quase todo o espaço dos quadros, ao observarem as fotografias muito pequenas de homens parados. Pretende dar uma outra perspectiva de olhar, o da tartaruga - no século XIX, fez parte da moda dos parisienses passearem-se com uma tartaruga nas ruas. Noutra perspectiva, as pessoas seguiram as ruas de Lisboa, pelas janelas altas da camioneta. Depois de uma breve paragem na galeria Palmira Suso, onde se inaugurava "Imediato", pintura de Tomás Cunha Ferreira, a carreira seguiu junto ao Tejo. A Feira da Ladra ainda estava em plena actividade quando o trajecto passou pela galeria Trema, que apresenta a segunda individual de Brígida Machado. Os universos foram mudando bastante, de estação em estação. Viajou-se até à escultura na Artfit, galeria que tem como vocação exclusiva expôr trabalhos de estreantes. Em "Hominal", de Miguel Figueiredo, as esculturas estavam encostadas à parede e não no centro da sala. O espaço reduzido e aproveitado ao milímetro da Artfit pretende crescer ao ritmo do trabalho dos jovens artistas. "Principalmente para a minha galeria, ver chegar assim um camião que, de repente, enche a galeria na sua totalidade, é um inédito", disse o galerista Nuno Cardoso, também membro da direcção da APGA."Estar na estrada"Embora a Galeria 111 não precise de conquistar público, tendo 40 anos de vida, Manuel de Brito também concorda: "Iniciativas como esta são sempre bem vindas porque não há dúvida de que estes eventos vivem também do seu lado de 'cenário'. E por parte das pessoas que têm a governação, é o estar na estrada, que dá a possibilidade de, em cada local, levantarem questões, e eventualmente, afinarem a sua conduta relativamente a este sector cultural." Na 111 inaugurou-se uma obra muito jovem, apesar de Bartolmeu dos Santos dizer que já faz parte da terceira idade. Depois de lermos nos quadros frases como "Freedom is a concept to be used at our convenience" e "Smile, God loves you", Manuel de Brito mostrou o que nunca se vê numa galeria, o acervo, que, diz, quando o mostra a estrangeiros estes ficam surpreendidos. "Que diabo", afirma, "não temos muito a aprender com eles." Algumas das galerias que participavam no Lisboarte ficaram de fora, porque, mesmo de autocarro, não houve tempo de completar o percurso. "Esta disseminação tem também o efeito de pulverizar os pólos de dinamização cultural, de dar a vida a vários sítios da cidade", comentou José Amaral Lopes. Um dos próximos projectos da APGA é fazer a sua sede na Avenida de Ceuta no âmbito do programa da CML de reabilitação do Casal Ventoso."Programas desta natureza só podem merecer o apoio do Instituto das Artes.", diz Paulo Cunha e Silva. "As galerias apanham mais o espírito do tempo e a espuma do tempo."