O primeiro satélite português foi lançado há dez anos

Faz hoje dez anos que o PoSat-1, o primeiro e único satélite de Portugal, foi lançado no espaço. Continua a dar voltas e mais voltas à Terra, mantém-se operacional e de boa saúde, mas já dá sinais de velhice. Há um sensor de temperatura que teima em não funcionar e uma bateria que perdeu capacidade de armazenamento de energia, por exemplo. Não se resume, porém, a ser um bocado de lata no espaço, sem utilidade. Uma organização não governamental dos Estados Unidos, que presta assistência em países pobres, usa-o para enviar E-mails. Em Portugal, parece estar um pouco esquecido pelos investigadores, depois de ter acalmado o fulgor de se pôr um engenho no espaço e de se ter desistido de voar mais alto, com a construção de um segundo PoSat, de que chegou a falar-se. O interesse dos militares portugueses, que o usaram para transmitir mensagens, também esmoreceu.Era madrugada em Lisboa - 2h45 minutos de 26 de Setembro de 1993, um domingo - quando o PoSat foi levado para o espaço por um foguetão Ariane 4. Iam a bordo satélites de outros países. Vinte minutos e 35 segundos após a partida do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, e a 807 quilómetros de altitude, uma órbita baixa, o PoSat-1 separava-se do foguetão. A delegação portuguesa abriu garrafas de champanhe em Kourou, na presença de Mira Amaral, ministro da Indústria, Fernandes Thomaz, secretário de Estado da Ciência, e Eugénio Ramos, secretário de Estado do Equipamento e das Indústrias da Defesa. Horas depois, ainda com restos do champanhe despejado sobre a cabeça, Fernando Carvalho Rodrigues, o coordenador-geral do PoSat, não parava de repetir, com uma folha na mão: "É a certidão de nascimento do satélite."Com 50 quilos, o PoSat pertence à classe dos micro-satélites, que têm entre os dez e os cem quilos. Foi desenvolvido por um consórcio de universidades e empresas portuguesas, ao abrigo de um acordo de transferência de tecnologia com a Universidade de Surrey, em Inglaterra, onde foi construído. Custou à volta de um milhão de contos: 600 mil pagos pelo Programa Específico de Desenvolvimento da Indústria Portuguesa e 400 mil pelas empresas envolvidas.Do consórcio PoSat faziam parte o Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (INETI), a Efacec, a Marconi, as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA), a Alcatel Portugal, o Instituto Superior Técnico, a Universidade da Beira Interior e o Centro de Desenvolvimento e Inovação Tecnológicos. O consórcio já se desfez. Quem ficou dono do PoSat foi a Efacec. "Foi só uma questão de divisão do património pelas partes envolvidas", explica Fernando Costa, do Centro Operacional de Satélites do Continente da PT, em Alfouvar, perto de Sintra. É neste centro que está instalada a estação de comando e controlo do PoSat. E Fernando Costa, responsável pela área de controlo de satélites, é agora o único guardião do PoSat. "A Efacec ficou com o objecto no espaço, a Marconi com a estação de Sintra e as OGMA ficaram com um modelo de engenharia, que é uma réplica funcional do PoSat mas só tem um painel solar."Por onde anda hoje o satélite? Está quase na mesma altitude em que foi lançado, diz Fernando Costa. Anda a 25 mil quilómetros por hora, o que dá mais de 7,3 quilómetros por segundo. Com uma órbita circular polar (passa perto dos pólos), que dura 101 minutos, faz em média 14 voltas à Terra. Na latitude de Portugal, fica visível da estação de Alfouvar seis a sete vezes. Cada contacto dura 15 minutos, no máximo.Não está muito afectado por estes anos no espaço. "Esperava-se que funcionasse cinco anos e talvez chegasse aos dez. Estamos no décimo ano e está razoavelmente bem. Pensamos que vai chegar aos 12 ou 13 anos ou, com sorte, aos 15." Carvalho Rodrigues, que na altura do PoSat era do INETI e agora dirige um dos programas da NATO, é mais entusiasta: "O PoSat-1 está de magnífica saúde."Tem conseguido ficar ileso até dos ventos solares, que podem danificar os componentes para sempre. "Nunca houve danos permanentes", conta Fernando Costa. Mas já não funciona um sensor que mede a temperatura num dos quatro painéis solares que cobrem as faces do PoSat. Também a capacidade de as baterias armazenarem energia não é a mesma. "E em termos de órbita, notou-se, nos últimos anos, que há uma rotação e que o satélite apanha mais sol que sombra. A temperatura média aumentou." Foi o que aconteceu com o módulo de baterias: em 1993, a temperatura variava entre os 16 e os 22 graus Celsius, agora varia entre os 28 e 32 graus. "São sinais de velhice", remata.Não é pela velhice que não se poderá tirar partido das experiências tecnológicas a bordo - como o receptor GPS ou o sensor de estrelas - e do sistema de comunicações. Só que os cientistas já não procuram tanto os dados das experiências do PoSat. Os militares portugueses têm várias estações de comunicação com o PoSat, desenvolvidas pelo INETI, mas não se têm servido muito delas nos últimos tempos. Pelo menos Fernando Costa não nota muito tráfego no PoSat oriundo dos militares.O período áureo do uso pelos militares, refere José Cabrita Freitas, director do departamento de optoelectrónica do INETI, onde se produziram as estações fixas e móveis, foi de 1995 a 1999. Tiveram bastante uso, nomeadamente em missões das Nações Unidas em Angola e na Bósnia. Não são comunicações em tempo real, pois podem levar seis horas até ao destino. Escritas num computador, há que esperar a passagem do satélite para lhe serem entregues pela estação. Depois, o PoSat guarda-as, até entrar em contacto com a estação de destino. Mas em situações de crise, como já aconteceu no Zaire, foram a única forma de comunicação, e em segurança. A Fernando Costa também relataram ter sido usada uma estação em Timor.Mas nada impede os militares de usarem as estações que comparam ao INETI: "Tanto quanto sei, estão operacionais. O satélite continua operacional, de modo que nada impede que o façam numa situação em que precisem", diz Cabrita Freitas. "Os americanos usam o nosso satélite. Os portugueses é que não estão a dar-lhe uso."À organização americana Volunteers in Technical Assistance (VITA), que dá assistência nas áreas de engenharia e medicina, o PoSat serve bem de carteiro. "É agora o maior utilizador. Usa o satélite para manter em contacto as pessoas que tem no terreno, em locais remotos, com o mundo e a família. Mandam E-mails, a maior parte dos quais pessoais. Mas, se houver uma epidemia, usam o satélite para obter mais dados."Para daqui a 40 anos prevê-se a morte física do PoSat. Será uma lata espacial há muito tempo. De repente, descerá de órbita e, de dia para dia, virá por aí abaixo. "Grande parte deve desintegrar-se na atmosfera. É capaz de chegar algum bocadinho à Terra, mas deve ser coisa pequena."