Turquia prudente quanto a uma intervenção no país vizinho

O líder militar da Turquia, Hilmi Ozkok, não deverá anunciar hoje um avanço dos milhares de soldados turcos que estão junto à fronteira com o Iraque. Segundo especialistas consultados pelo PÚBLICO, acalmar os receios internacionais quanto a uma invasão turca será o principal objectivo do general Ozkok, na conferência de imprensa marcada para esta manhã, em Diarbaquir.Na região fronteiriça com o Iraque estão centenas de jornalistas (as autoridades de Diarbaquir passaram 770 creditações em pouco mais de uma semana). O encontro com Ozkok chegou a ser anunciado para o princípio da tarde de ontem, em Silopi, a 15 quilómetros da fronteira iraquiana. Estava previsto que o Chefe do Estado-Maior turco voasse de helicóptero até Silopi e depois passasse uma revista às suas tropas estacionadas na fronteira. A chuva e o nevoeiro que se faziam sentir na zona alteraram esse plano inicial - foi a explicação dada pelos militares."Ozkok é um homem prudente e cuidadoso", avalia Çoli Herzel, professor de relações internacionais em Istambul. "Pondera muito bem as suas palavras. Espero dele um discurso sofisticado. Tentará acalmar a tensão, responder ao 'bruá' internacional quanto à iminência de uma invasão do Norte do Iraque pela Turquia. Dirá algo como: 'Não se preocupem, não temos intenção de entrar a não ser que a situação se deteriore e o interesse nacional estiver em perigo...'"Semih Idiz, analista do diário "Aksam" antecipa uma mensagem semelhante: "Vai dizer que o exército turco está preparado para qualquer eventualidade, que está pronto e presente, mas será cauteloso." Segunda-feira, depois de se ter reunido com o primeiro-ministro Tayyip Erdogan, o general Ozkok lembrara que as forças armadas turcas têm "preparações e planos" feitos. Não adiantou muito mais: "Quando o momento e o lugar certos chegarem, as decisões necessárias serão postas em prática." Não há uma versão oficial sobre o número de soldados turcos que esperam na fronteira. As estimativas variam entre 15 e 35 mil. O acesso da imprensa está completamente vedado por vários "checkpoints", a uma distância de 14 quilómetros."O exército turco é uma força conservadora", resume Çoli Herzel. "Não creio que arrisque desafiar o mundo, invadindo o Norte do Iraque, se as circunstâncias não o exigirem absolutamente. E tanto quanto sabemos, neste momento não exigem."Os dois argumentos que a Turquia invoca para legitimar um avanço no Iraque são deter um afluxo de refugiados e impedir "actividades terroristas" - ou seja, controlar uma eventual expansão do domínio curdo no Norte do Iraque que pudesse inflamar as aspirações dos curdos turcos.Washington tem insistido com Ancara para que não avance as suas tropas. "Estamos a deixar muito claro que esperamos que eles não entrem no Norte do Iraque", repetiu George Bush, no domingo. Depois do não do Parlamento turco à passagem de tropas americanas por território turco - que inviabilizou uma entrada conjunto turco-americana, e uma frente Norte na guerra - os americanos começaram a retirar as suas bases logísticas do Sul da Turquia.Mas os esforços da diplomacia paralela continuam. O enviado americano para a região, Zalmay Khalilzad, tem mantido conversações com líderes turcos e curdos iraquianos em Ancara, numa espécie de comissão tripartida. Prosseguem discussões entre militares americanos e turcos - o exército da Turquia mostrou-se desde o princípio favorável a uma operação conjunta. E na imprensa turca há um forte debate sobre o falhanço da cooperação com os Estados Unidos, que também significou a perda de milhões de dólares de ajuda para a Turquia, num momento de grave crise económica."A frente Norte parece cada vez mais importante", confirma Semih Idiz. "Os americanos estão a enfrentar mais dificuldades do que o previsto. Se as coisas se complicarem, talvez peçam ajuda. E se isso acontecer, como as preocupações económicas da Turquia são muito grandes, a frente Norte poderá vir numa fase posterior da guerra." Idiz não tem dúvidas de que o general Ozkok é um partidário do acordo com os americanos.