Detectives de impressões digitais da PJ nunca erraram

Disfarçados sob o nome de Sector de Identificação, cerca de 60 agentes da Polícia Judiciária (PJ) dedicam-se a um trabalho fascinante: detectar impressões digitais no local do crime, analisá-las e, sempre que possível, identificar quem as deixou à sua passagem. O seu trabalho é mais uma técnica do que uma ciência, mas tem um alto grau de fiabilidade. "Não identificamos criminosos, dizemos apenas que uma pessoa esteve num determinado local", esclarece Alexandre Simas, chefe do sector. Mas, até agora, nunca erraram.Uma técnica está na base do trabalho do Sector de Identificação Judiciária, que funciona na Rua Gomes Freire, em Lisboa. Trata-se da lofoscopia, o estudo dos relevos e declives da pele das pontas dos dedos (a dactiloscopia), as palmas das mãos (a quiroscopia) ou as plantas dos pés (a palmatoscopia). Em todos os seres humanos estes desenhos são perenes - duram toda a vida - e, pelo menos em termos estatísticos, podem ser considerados únicos: as probabilidades de existirem duas pessoas com desenhos iguais é ínfima, pelo que a sua fiabilidade como sistema de identificação é enorme. A culpa é do calor humano. O suor faz com que o desenho da nossa mão fique impresso nas superfícies em que tocamos. Para tornar o desenho visível, usam-se produtos regentes, adaptados à superfície em análise. Uma vez encontrada, a impressão digital é fotografada e (ou) transplantada. Ou seja, com a ajuda de uma fita transparente, a marca é impressa numa lambia, um fina placa de vidro onde se inscreve toda a informação relacionada com o vestígio encontrado: local, data, hora...O registo desta informação é fundamental para a validade do processo: "A ciência não erra, quem pode errar é o operador", diz Alexandre Simas. Em 45 anos de trabalho, explica, o sector da PJ nunca se enganou ao identificar uma impressão digital recolhida no local com outra já armazenada na base de dados. Mas os erros de registo podem ser fatais. É fundamental não trocar nomes, horas ou datas. O desenho transplantado é depois inserido no sistema informático e comparado com as fichas da base de dados nacional. Quando uma pessoa é detida, são-lhe retiradas as impressões digitais dos dez dedos das mãos e a sua ficha é arquivada na base informática da Polícia Judiciária. Em cada impressão digital são identificados os pontos característicos ou "acidentes de cristas", os pontos onde as linhas se juntam e separam. A primeira vez que a Polícia Judiciária registou as impressões digitais de um detido foi em 1957. Hoje, existem 100.000 fichas na base de dados. Quando um vestígio trazido do local do crime é inserido no sistema, são imediatamente localizados 30 possíveis casos de identificação. Depois, compete aos agentes descobrir se, de facto, a impressão recolhida pertence a alguma dessas pessoas. A verificação é feita assinalando pelo menos 13 pontos característicos comuns no vestígio e na impressão digital da base de dados. Se assim for, a identidade está estabelecida. "Aqui não há probabilidades, pode é haver falta de informação", esclarece Alexandre Simas. Muitas vezes, a qualidade do vestígio ou da impressão não permite determinar os pontos característicos. E, nalguns casos, os criminosos chegam a mutilar-se para eliminar a possibilidade de identificação. Nem sempre resulta, porque o corte pode não dissimular os pontos característicos. Até 1990, todo este trabalho era manual. Era preciso procurar uma a uma, entre as milhares de fichas. A ajuda do sistema informático é preciosa, mas os resultados não se baseiam numa ciência perfeitamente estudada e com uma margem de erro calculada rigorosamente - dependem sempre da perícia do investigador . Por isso, os responsáveis por esta análise têm, pelo menos, dez anos de experiência. "São sempre pessoas que já andaram lá fora, que conhecem o local do crime e as circunstâncias em que as coisas acontecem", esclarece Simas. Sabem, por isso, que existem factores de distorção que é preciso levar em conta, como a pressão com que um indivíduo toca um objecto. Além disso, são capazes de dar novas coordenadas ao computador, se este não encontrar nenhum suspeito ou "adivinhar" qual o dedo da mão que deixou o vestígio. Antes de abandonar o Sector de Identificação, cada caso é sujeito a mais duas verificações, uma da chefia do próprio sector e outra da chefia do núcleo a que pertence. O triplo filtro "garante que o que sai deste sector sai com validade, as coisas chegam sempre ao tribunal sem erros", continua o agente. Até agora, nenhum arguido negou ter estado num determinado local quando confrontado o parecer dos peritos da Polícia Judiciária e o sector recebeu mesmo um "Óscar das impressões digitais", em 1999, nos Estados Unidos, atribuído pelo Printrak Internacional Users Group. O troféu premiou uma investigação que encontrou o culpado de duas tentativas de homicídio, uma em Setúbal, outra em Carcavelos. Os vestígios recolhidos nos dois locais pertenciam à mesma pessoa, que foi identificada pela segunda vítima, quando um dia se passeava pela Feira da Ladra, em Lisboa. A perícia dos analistas da Judiciária conseguiu identificar as impressões digitais do suspeito com as recolhidas em Carcavelos e ainda com outras, aparentemente diferentes, recolhidas dois anos antes em Setúbal. Foi a primeira vez que uma polícia não americana recebeu este troféu.