Billy Wilder: Morreu o homem que conquistou Hollywood

A sua última obra data de 1981 - "Buddy, Buddy", com Jack Lemmon e Walter Matthau -, mas a sua trajectória artística e o seu nome estão indelevelmente ligados à história da Sétima Arte. O cinema está de luto com a morte, na passada quarta-feira, em Beverly Hills (quinta-feira em Lisboa), do realizador Billy Wilder, autor de algumas das obras-primas da filmografia mundial. Wilder faleceu vítima de uma pneumonia, depois de ter sido hospitalizado, em Dezembro último, devido a problemas respiratórios. Segundo a AFP, o realizador, que morreu em sua casa, foi acompanhado até ao último momento por Audrey Young, uma antiga actriz com quem casou em 1949. Se a filmografia de Wilder consagra alguns dos filmes mais singulares do cinema - o realizador foi nomeado 21 vezes para os Óscares da Academia de Hollywood, tendo sido distinguido com seis estatuetas -, a sua biografia não é menos interessante, tendo mesmo sido determinante para a criação das suas obras. Samuel Wilder - a mãe passou a chamar-lhe Billy, fascinada com a história de Buffalo Bill - nasceu em 1906 na pequena cidade polaca de Sucha, então ainda integrada no Império Austro-Húngaro, tendo frequentado, ainda que por breve tempo, a Universidade de Viena. Foi aqui que iniciou a actividade de jornalista, especializado em casos de polícia, e a profissão havia de o levar até Berlim.Na capital alemã conheceu e ficou encantado com a comunidade artística, nomeadamente a cinéfila, e decidiu tornar-se realizador de cinema. Contudo, a fulgurante tomada do poder por Hitler, a vertiginosa escalada de uma Alemanha nazi e as implacáveis perseguições aos judeus e a dissidentes obrigaram Wilder a fugir para França. Estávamos em 1933 e, alguns anos mais tarde, o realizador tomou conhecimento do destino dos seus familiares: a sua mãe, o seu padrasto e o seu avô haviam morrido no campo de concentração de Auschwitz.Foi muito breve a sua estadia em Paris, cidade onde realizou a sua primeira película, "Mauvaise Graine" (1934), com Danielle Darrieux. Refugiado do regime nazi e perseverante na sua obsessão pelo cinema, emigra para os Estado Unidos, designadamente Hollywood, e adquire a nacionalidade norte-americana em 1939, no primeiro ano da 2ª Guerra Mundial. Após alguns trabalhos de colaboração com o realizador de origem alemã Ernst Lubitsch (para quem escreve o argumento de "Ninotchka") e com o argumentista Charles Brackett, Wilder inicia uma carreira que atrai as atenções da Meca do cinema. Não apenas pelo facto de os seus filmes assinalarem uma distância estética relativamente à cena hollywoodesca mais profícua no decénio de 40, como também pelos insuspeitos elencos que habitam as suas obras. "O Maior e o Menor", de 1942, uma comédia protagonizada por uma Ginger Rogers com apenas 12 anos, é a película inaugural de uma filmografia ecléctica, na qual se cruzam o burlesco e os melodramas. Uma sagaz ironia e, por vezes, críticas incisivas estão presentes em toda a obra de Wilder, também responsável pela origem do sucesso de muitos actores. Entre eles, a incontornável Marilyn Monroe em "Quanto Mais Quente Melhor" e "O Pecado Mora ao Lado", a inesquecível Gloria Swanson em "O Crepúsculo dos Deuses", Kim Novak, Shirley MacLaine, Dean Martin e a famosa dupla Walter Matthau e Jack Lemmon, este último actor-fetiche de Wilder. Nenhum outro realizador terá dirigido tantas estrelas num dos períodos mais áureos do cinema. Pelos seus filmes passaram Eric von Stroheim (também ele cineasta e refugiado do regime nazi), Bing Crosby, Marlene Dietrich, Peter Sellers, William Holden, Kirk Douglas, Humphrey Bogart, Audrey Hepburn, James Stewart, Gary Cooper, Maurice Chevalier, Charles Laugthon, Tony Curtis, James Cagney, Juliet Mills e Edward G. Robinson. Também argumentista - escreveu com o romancista Raymond Chandler o argumento de "Pagos a Dobrar" (1944) e, em 1950, ganhou, juntamente com Charles Brackett, o Óscar para Melhor Argumento por "O Crespúsculo dos Deuses" -, Billy Wilder assinou algumas das imagens mais simbólicas do cinema mundial: a famosa cena do vestido branco e esvoaçante de Monroe sobre uma saída de ventilação do metro ("O Pecado Mora ao Lado", 1955), as sequências cómicas do trio Monroe, Lemmon e Curtis em "Quanto Mais Quente Melhor" (1959), a visão cáustica e cínica da vida americana em "O Apartamento" (1960) - filme que fez de Wilder o primeiro realizador a receber três Óscares -, as interpretações de uma das duplas mais amadas do cinema (Lemmon e Matthau) e o filme "O Crepúsculo dos Deuses", todo ele concebido como uma obra-prima. Quem não se recorda da luminosidade de Norma Desmond (Gloria Swanson) - na realidade e na ficção uma antiga musa dos filmes mudos - quando relembra a sua época de glória e diz: "We had faces. (...) I am big. It's the pictures that got small".