Dembo já é o líder interino da UNITA

A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) já tem um chefe interino: António Sebastião Dembo, 58 anos, a maior parte passados a combater ao lado de Jonas Malheiro Savimbi, cuja morte foi anunciada sexta-feira. A ascensão do general ao topo da organização foi divulgada em Lisboa, à Lusa, pelo representante da UNITA em Portugal, Carlos Morgado, que disse que o novo líder da oposição armada angolana já tinha entrado em contacto com outros comandantes no terreno - não disse quais. "As coisas estão a andar", declarou Morgado, antigo médico pessoal de Savimbi, que admitiu que Dembo já tenha começado a "reorganizar" o partido. A confirmação do novo chefe depende agora da Comissão Política, de 54 membros, por não haver condições para reunir o Congresso, a quem cabe estatutariamente a iniciativa. "Ninguém para além de Dembo pode dirigir o partido e é com ele que esperamos ver o Governo ter negociações" de paz, declarou à AFP, em Luanda, o deputado angolano Manuel Saviemba, uma pessoa próxima do líder morto. "É uma voz conhecida e respeitada pelos militantes e os combatentes" e "aceitará qualquer apelo a favor da paz", declarou. Ao mesmo tempo, em Bruxelas, o representante local da UNITA, Azevedo Kangange, anunciava que a sua organização vai pedir um inquérito internacional à morte de Jonas Savimbi; que um outro delegado da organização no exterior, João Vahekeny, disse ter tido a ajuda de vários países, entre eles Portugal, o que foi desmentido pelo Governo de Lisboa. "Estamos a preparar tudo para apresentar junto das Nações Unidas e do Parlamento Europeu um pedido de abertura de um inquérito internacional às causas que levaram à morte de Jonas Savimbi", disse Kangange à Lusa. Entretanto, anteontem em Washington, o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, disse que o seu Governo está "empenhado em atingir um cessar-fogo assim que for possível". Falando no fim de uma reunião na Casa Branca com o Presidente George W. Bush, em que também participaram os chefes de Estado de Moçambique e do Botswana, o chefe de Estado angolano prometeu "normalizar a situação política" no seu país e garantiu a realização de eleições democráticas "assim que haja segurança".Mas Eduardo dos Santos endossou à UNITA a responsabilidade do primeiro passo, como "sinal de boa vontade", declarando "uma cessação das hostilidades". O Presidente angolano, segundo o qual a UNITA está "muito fraca", não se mostrou desencorajado pelo ataque de segunda-feira do Galo Negro: "Como partido, a UNITA terá lugar [em Angola]. Mas não podemos permitir que tenha o seu exército privado."Por seu lado, Bush disse ter instado o homólogo convidado a "agarrar esta oportunidade". "O Presidente Eduardo dos Santos tem nas suas mãos poder acabar 26 anos de guerra, acolhendo todos os angolanos dispostos a depor as suas armas. Os angolanos não merecem menos do que isso."Interrogado sobre qual poderá ser o papel dos EUA em Angola, o chefe de Estado angolano respondeu esperar que Washington ajude a financiar o custo de reintegrar os guerrilheiros da UNITA na sociedade angolana.José Eduardo dos Santos reuniu-se em Washington com Bush, Joaquim Chissano e Festus Mogae para discutir questões regionais. A reunião estava marcada muito antes da morte de Jonas Savimbi; embora a nova situação em Angola tenha dominado a reunião, segundo a imprensa americana os quatro chefes de Estado discutiram outras questões, entre as quais o alastrar da sida e um apelo ao Banco Mundial para reformular o seu apoio às nações pobres, substituindo empréstimos por doações.Antes de regressar ao seu país, o Presidente angolano tinha ainda previstos encontros ontem com o secretário de Estado, Colin Powell, e com o vice-Presidente Dick Cheney.