Dj patife na floresta tropical

Há um novo Brasil musical em estado de graça. Varrendo os géneros todos, do samba ao Nordeste, e ganhando raízes na electrónica do drum'n'bossa. A pretexto da oportuníssima estreia de Patife em Portugal, já hoje e amanhã, o Y faz a radiografia da efervescência, apresenta as personagens e prevê o mundo que há de vir.

Porque será? Números são números. E bastaria, com uma dose razoável de aleatoriedade e fraca memória à mistura, ensaiar uma lista de nomes que passaram os últimos tempos a "abrasileirar" compulsivamente faixas e mais faixas de discos certeiros para perceber que o presente - da música, pelo menos - ao Brasil pertence. Thievery Corporation, Boozo Bajou, Spacek, Landslide, London Elektricity, Mo' Horizons, Rainer Trüby ou Uwe Schmidt são apenas alguns dos cúmplices do saque que tem pilhado e baralhado para voltar a dar o melhor da herança brasileira, criando em muito boa gente a expectativa de uma ressurreição do tropicalismo de Caetano e Gilberto Gil - e casos mais óbvios, como os pioneiros Smoke City, Arto Lindsay ou Amon Tobin (já para não citar Nitin Sahwney, para o qual tudo o que vier à rede e tiver um ar exótico é peixe, ou até os mais arcaicos David Byrne de "Rei Momo" ou Paul Simon de "The Rythm of the Saints", passe a heresia), confirmam a regra. Talvez não seja só do guaraná, mas a verdade, que a comunicação social brasileira não se cansa de reiterar com oportuno chauvinismo, é que há todo um movimento electrónico europeu - e, em doses menos reforçadas, norte-americano -ideologicamente assente em releituras da MPB, nas suas mais abundantes declinações. No meio de toda esta agitação feita de berimbaus (mérito direitinho para os Proppelerheads ou Galliano, pioneiros a clonar o instrumento), batuques, violões e vozes femininas, o samba e a bossa nova parecem ser os géneros mais repescados. Do lado de cá do Atlântico, por sua vez, o drum'n'bass vai ganhando raízes como género hospedeiro do fenómeno "Brazil for Export": é ao saco roto de um género ainda em expansão - em parte graças a estratégias bem sucedidas como esta de reciclar o Brasil - que vão cair grande parte dos bons exemplos desta parasitagem. O que não só justifica alguns neologismos - do "drum'n'bossa", herdado de Marcos Valle, que dá título ao álbum dos Landslide ao "drum'n'braz" da curta-metragem de Bobby Nogueira -, como está na origem de algumas das mais bem sacadas compilações dos últimos tempos, como o minimal "Brazil EP", em que figuram os clássicos "Secrets of the Floating Island", de XRS Land (ak.a. Xerxes de Oliveira, um dos três homens por trás da Sambaloco, subselo da Trama), "Samba Raro" de Marky e Max de Castro e "Sambassim" de Patife e Fernanda Porto, ou o mais generoso "The Brazilian Job", em que Marky dá a volta a "Carolina Carol Bela" de Jorge Ben & Toquinho ou a "Better Place", dos 4 Hero, entre muitos outros. De repente, a arritmia furiosa do drum'n'bass e o requebrar maneirinho do samba e da bossa nova fundem-se num composto que tempera o ritmo musculado do género com o lado solar, elegante e safado da MPB, fazendo do Brasil o segundo maior centro mundial de consumo e produção de drum'n'bass. Porque será?, reincide-se. Bruno E., o "frontman" da Sambaloco, responde de caras: "Esteticamente, o drum'n'bass tem a ver com a nossa musicalidade - o samba, a ênfase no ritmo, as batidas 'quebradas'. Vejo o drum'n'bass como a continuação do som negro que sempre fez sucesso na periferia de cidades como São Paulo". Valeu?Bagunça p'rá galera. Tudo isto vem a pretexto da aguardadíssima estreia em Portugal de Dj Patife, um dos mais originais operários de um movimento electrónico que a Trama, em casa, e a V Recordings de Bryan Gee (também patrão da Movement), na Inglaterra onde tudo acontece, apadrinharam sem hesitações. É já hoje e amanhã que Coimbra (Via Latina) e Porto (Hard Club) recebem a sorte grande de poder assistir a uma moqueca de electrónica, jazz, samba e bossa nova cozinhada por Patife e espevitada pelas contribuições de MC Stamina - o mesmo que acompanhou o também paulistano Marky, amigo de sempre de Patife, na sua última incursão no Hard Club. Do autor dos inspiradores "Sounds of Drum'n'Bass" e "Cool Steps-Drum'n'Bass Grooves" (com edição europeia prevista para fins de Janeiro) já só se esperam intuições felizes. Foi ele que percebeu um dia que "a galera gosta de ter o que cantar junto com as músicas". Que se agarrou com unhas e dentes a Max de Castro ("Pra Você Lembrar") e a Fernanda Porto (brilhantes, as remisturas de "Sambassim" e de "Só Tinha de Ser Com Você", de Jobim). Que se estrangeirou sem olhar para trás, porque era preciso, para conquistar um lugar no movimento londrino e só depois, por crónico mimetismo, no Brasil. "Vamo' lá", recebeu o Y ao telemóvel em Londres, "resfriado, uns três graus, não vendo a hora de voltar para o Brasil". O regresso anunciado faz escala em Portugal, e foi mesmo pela receita dos "sets" combinados que começou a conversa. "Vai ter no meu 'case' tudo o que a gente vem produzindo nos últimos tempos em estúdio, principalmente com o dj Suv e London Elektricity, meus trabalhos com Fernanda Porto, Marky e Cosmonautics... E muita bagunça p'rá galera aí", garantiu Wagner Ribeiro de Souza, nome de baptismo de um Patife que conquistou a alcunha a tropeçar no "skate" pelas ruas de Cidade Ademar e Vila Joaniza abaixo. Ultra-disponível, fez logo questão de frisar que o seu "Sambassim" passará "quantas vezes o povo quiser", porque "a voz do povo é a voz de Deus". O povo, refira-se, deve querer muito, pelo menos a avaliar pelo sucesso da faixa nas mãos de Suv e Marky, aquando das suas passagens por Gaia.Oriundo da "working class" paulista, dos subúrbios negros em que o rap e o hip hop são chão que ainda dá uvas, começou como estafeta de pizzaria e só há bem pouco tempo conseguiu fazer do drum'n'bass um modo de vida, depois de ter sido dj da banda Fatos Reais e de ter animado tudo quanto era aniversário, festa de casamento e baile de formatura com uma ementa despudorada que comia tudo, de axé a valsa. É por ser tudo tão fresco que não sabe quanto tempo esta brasilofilia vai durar. "A gente começou por misturar um pouquinho de bossanova, um pouquinho do samba, um pouquinho do samba-rock, um pouquinho de jazz brasileiro, uma percentagenzinha mínima do que a gente tem lá - não precisamos de ficar só misturando samba, que é uma coisa muito óbvia", raciocina, coleccionando argumentos para a tese de que há "uma longa estrada nesse negócio do som brasileiro ainda". Pela sua parte e pela do companheiro Marky, o concubinato com a Movement, iniciado em 1998, foi uma benção: o intercâmbio é fluente e inclui residências recíprocas (Marky e Patife fazem estadias alternadas em Londres e, em troca, São Paulo vai recebendo dj britânicos com regularidade sem precedentes), mas não só. Foi graças à pressão de Bryan Gee que Patife se viu necessidade de produzir - e que, num golpe de sorte, deu de caras com Fernanda Porto e encontrou a sua fórmula de "drum'n'bass" melódico, bem mais subtil, jazzístico e feminino do que a versão praticada por Marky. "Em Março de 2000, a Fernanda entregou-me o seu trabalho, dizendo "Não é drum'n'bass, mas eu misturo umas coisinhas, vê o que você acha'. Passou um tempão, escutei o CD e fiquei louco". Uma loucura controlada, porque a braços com o preconceito contra a música electrónica caseira. "A gente sempre achava que gringo é que sabe fazer música electrónica, não é coisa de brasileiro: brasileiro sabe fazer samba", recorda. Puro engano. "A música brasileira é quebrada, da mesma forma que o drum'n'bass, breakbeat acelerado. E a bossa nova e o samba quase têm as mesmas batidas por minuto (bpm) que o drum'n'bass, que é coisa lá para 160, 170 bpm. Casamento perfeito", assegura.Sobretudo quando a letra veio baralhar a fórmula algo asséptica do drum'n'bass. "Quando eu escutei o disco da Fernanda, aquilo do 'com guitarra e drum'n'bass, só pra ver como é que fica' fez-me pensar que isso nas batidas seria de mais. Só que foi um lance muito particular meu, ali dentro de casa, naquele sábado de tarde. Fiz um remix e não contei a ninguém, para não ter aquela tiração de sarro de ninguém ficar gozando da minha cara, tipo 'Você vai colocar vocais em português?, você é louco!'. Teve muito disso". Deixou de ter, é claro. drum'n'bass para mulheres Em plena ressaca da fluorescente expansão do drum'n'bass brasileiro, Patife soube jogar o som certo na altura certa. Com o empurrão da Trama, que lhe permitiu "mostrar às pessoas o outro lado do drum'n'bass", até então definitivamente associado à energia feroz de Marky, Patife empenhou-se "numa praia mais melódica"."Eu amei esse negócio do vocal diferente, feminino, a melodia, o saque da guitarra. Decidi optar por esse lado, até porque todo o mundo no Brasil meio que vai na rabeira do Marky. E eu pensei 'Já sou amigo do cara, a gente cresceu junto... Se faço a mesma coisa que ele, não vou a lugar nenhum". Deu certo. Percebeu que as pessoas se viciavam no seu som porque era heterodoxo. Que os contratos começaram a chover por causa dessa inclinação mais melódica e vocalizada. A piadinha era inevitável, mas Patife é o primeiro a acusar o toque: "Gosto que digam que eu faço drum'n'bass para mulheres. Quando toco coisas mais melódicas, a pista enche de mulher. E onde tem mulher, o homem vem atrás. E então é casa cheia. E a coisa mais linda do mundo é você ver a mulherada feliz. É total inspiração", jura a pés juntos. Pode até ser. O certo é que Patife vai nesse caminho. De disco em disco, abrindo mão do vício da remistura e cedendo à tentação da produção própria, que deverá monopolizar o terceiro registo. Uma coisa não muda, e Patife faz questão. "Não quero fazer discos só com aquela cara de pista de clube: queria lançar um disco para você poder ouvir em casa, no carro, de repente com a namorada".Na manga, estão já algumas ideias a fermentar para o sucessor de "Cool Steps", que há de consumar o regressar ao estúdio depois do recente "remix" de "Outra Vida", para Les Gammas. "Quero convidar muita gente, trabalhar com a Paula Lima, de repente uma Bebel Gilberto, uma Erykah Badu. Pode ser que o Suv também participe. Mas pinta assim no momento, nunca sei o que vou fazer". Uma coisa é certa: as comparações com o futebol, óbvias num país cujo orgulho cresceu à sombra de umas quantas vitórias na Copa Mundo, estão ultrapassadas. "Já não quero comparar-me com o futebol. O futebol brasileiro está muito ruim. Mas a gente diz que, tal qual os ingleses inventaram o futebol e os brasileiros dominaram por muito tempo, eles inventaram o drum'n'bass, mas quem discoteca melhor são os brasileiros. É por isso que o Marky é o Pelé dos toca-discos". E o Patife? "Patife é Patife".