Maus Hábitos ou nem por isso...

O jovem fotógrafo chega atrasado. Um tanto indiferente ao adiantado da hora, mete-se atrás do balcão do bar para tomar um copo e trocar dois dedos de conversa com uns amigos. "Maus hábitos!", ri-se, ao ser confrontado com a inquietação de quem o espera. Daniel Pires está satisfeito. Acaba de engendrar um trocadilho com o nome do espaço cultural que abriu recentemente na Baixa do Porto e, ao mesmo tempo, de revelar o seu objectivo: "Perturbar". Porque, acredita, "a intervenção estética e cultural deve ser inovadora, subversiva, transgressora".De frente para o Coliseu do Porto, na Rua de Passos Manuel, ergue-se um velho edifício com uma garagem no rés-do-chão. Nem uma tabuleta, nem um cartaz, nem um filete de luzes. Nada, rigorosamente nada, a denunciar maus hábitos. Quem olha para o número 178 e vê um entra-e-sai de carros não imagina que no quarto andar há 400 metros quadrados de área aproveitável para ensaios, espectáculos, exposições, instalações, aulas e bar. Por enquanto, a porta só está aberta ao sábado à tarde, e à sexta e ao sábado à noite. As noitadas arrancam às 22h00. A hora de fecho depende da disposição da clientela. Durante a semana, a porta mantém-se encerrada. Quem estiver interessado em transpô-la tem de experimentar tocar na campainha, a ver se há alguém: "Se houver abre, se não... paciência!". Esta anarquia de horários serve para "perturbar um pouco". E quem não gosta assim, que espere. O Maus Hábitos entrará nos eixos, isto é, começará a funcionar certinho (entre as 14h00 e as 2h00), em Junho - altura em que acolherá uma exposição do projecto "Squatters", da Sociedade Porto 2001.Há 36 anos que o espaçoso e bem iluminado andar estava devoluto. Daniel Pires conheceu-o pelas mãos de um amigo. "Foi uma lotaria!". Decorria o Verão de 1999. Falou com a proprietária. Garantiu um contrato em regime de comodato e, com um grupo de amigos, lançou mãos à obra: derrubou paredes, retirou tectos falsos, transformou balneários em quartos escuros... Fez nascer um bar enorme, de assentos vermelhos, e preparou múltiplas salas à medida do seu projecto interdisciplinar.Daniel Pires não quis formar uma associação, preferiu criar uma empresa de intervenção cultural. E, como qualquer investidor, espera um retorno. Para assegurar a viabilidade financeira do projecto, pretende alugar espaços para ensaios, para desfiles e outros eventos, organizar cursos de fotografia, "ateliers" de artes plásticas e outros. "O bar é um acessório". O lema que comanda o barco é "fazer acontecer". Na opinião de Daniel Pires, tudo vale para "arrancar a cidade ao marasmo". Para substituir o "Portugal de Ruy Belo ('um país onde não acontece nada') pelo Portugal de Fernando Pessoa ('ó mágoa imensa do mundo, o que faz falta é agir')". E, para já, o que está a acontecer no Maus Hábitos é um trabalho do espanhol Javier Diaz, esculturas do alemão Coetzen Mathias, fotografias de Daniel Pires e de João Baeta, uma instalação da estudante de artes plásticas Carina Rafaela, outra de Pedro Moreo e uma criação de Monica Montuano. E a companhia de teatro Visões Úteis está lá a ensaiar a sua próxima peça - com estreia agendada para o próximo dia 19, a subir à cena em três salas do andar. Como explicou o fotógrafo-empresário, o que se deseja é dar condições logísticas para ensaiar e apresentar espectáculos a quem não os tem, mas carrega o dom de transgredir em arte. Os artistas podem ir ali parar por convite ou por autocandidatura. Uma coisa é certa: "Os mais novos ganham uma oportunidade para mostrar trabalho". O professor Pires está, com alguns colaboradores, a preparar um programa de formação em fotografia e um outro em artes plásticas. A ideia desses cursos é garantir "a qualidade dos formadores e o mesmo rigor científico e pedagógico das escolas convencionais, sem entrar na lógica conservadora e condicionante dessas instituições", explica. "Nada de descarregar conhecimentos para, depois, as pessoas não aprenderem nada", assegura. Por exemplo, antes de começarem a fotografar, os alunos têm de saber como funciona uma máquina. E isso passa por desmontar a máquina, por ver como é que ela é por dentro. As candidaturas devem ter início em breve, os cursos lá para Setembro. E aos alunos será exigido o mau hábito (ou bom?) de inquietar.